A balança de pesar professores

Ao ouvir seu nome chamado, Cleide dirigiu-se rápida à mesa número 3.452.678 no extenso salão (uma empresa abandonada, falida) que o Órgão Apropriado à Educação, Ensino e Matérias Correlatas havia alugado e no qual estavam sendo iniciadas as triagens. Sentou-se diante do examinador e sorriu. Estava feliz, achava que finalmente poderia realizar seu sonho, o de dar aulas, adorava crianças, pedagogia, sentia-se cheia de criatividade e ideias.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2011 | 00h00

- Pronto! É um teste? Um exame? Como os antigos exames orais?

Estava excitada, a mãe tinha contado sobre os exames orais, em um tempo em que havia reprovações, em que havia segunda época, depois recuperação, em que os professores eram rígidos, severos e disciplinadores, exigiam que se soubesse para seguir adiante. A mãe contava que o oral era chamado de a "hora da verdade". Sabia, sabia. Nota boa. Não sabia, ia embora. Como seria agora? O que perguntariam, em que bairro daria aulas?

Ah! Contou a mãe, como se estivesse narrando uma fábula de Esopo, ou de La Fontaine, naquele época, não tínhamos o medo que vocês têm hoje. Não havia professores agredidos por alunos nas classes. Não havia grafites nem salas sujas, carteiras quebradas, falta de equipamento. Um pai não ousava interpelar um mestre quanto a punição, nota baixa ou repreensão dada ao aluno. Processo na Justiça por reprovação? Imagine! Era ficção, loucura. Ser chamado à diretoria e tomar suspensão era normal, os pais aprovavam, até elogiavam o diretor, o professor ou o inspetor de alunos. Ser suspenso era uma vergonha. A suspensão era complementada em casa por um castigo, corte de mesada, proibição de sair, de ir ao cinema, enfim, alguma coisa que doesse na pele do jovem.

- Nossa, mãe! Não é verdade, nada disso existiu. É conto de fada, invenção maluca, mil e uma noites. Um jovem de 15 ou 16 anos aceitava? Não era um regime totalitário de pais e escolas?

- Que eu saiba, não formou nenhum criminoso, neurótico, paranoico, desajustado social, suicida. Havia uma coisa que se chamava ordem, estudo, trabalho.

- Os tempos mudaram, mãe!

- Para a frente ou para trás? Para melhor ou pior? Em que colocação o Brasil está no mundo em matéria de educação? Já viu o índice?

- Não tenho tido tempo de ler jornais!

- Nem de ler jornais nem de ler nada, vocês não têm tempo, têm uma subvida, subqualidade intelectual. O que é dado a vocês para sair e ensinar? Zero, de zero, de zero, filha!

- E vocês, mãe, ganhavam bem?

- Ganhávamos, tínhamos casa, alguns até compravam carro, num tempo em que não havia fabricação de carros no Brasil. Era comum as pessoas passarem e comentarem, diante de uma casa de primeira: aqui mora o professor Jurandir, de português. Aqui mora a professora Cidinha Valério, de história. Aqui mora o professor Valter Mauro, de geografia.

- Vocês davam aulas num lugar só? Sobreviviam?

- Claro, num lugar só! Como ler, estudar, preparar aulas, fazer reuniões, sem ter tempo, com essa maluquice de hoje? Como pode um professor sair de uma aula, correr para outro colégio, em outro bairro, a quilômetros de distância, pegando ônibus, dar nova aula e voar para outra escola?

- Agora é assim, mãe. Fazer o quê? Não dá para ser saudosista, os tempos mudaram.

- Será que para melhor? O que significa melhor?

- A senhora já disse isso!

- Disse, vou dizer. Vocês é que não dizem, não questionam, não interpelam, não exigem, só obedecem.

- O que podemos fazer?

- Resistir, filha, resistir!

Cleide tinha todas as manhãs a mesma conversa com a mãe. Resistir. O que ela queria dizer? O tempo deixou de existir para os professores públicos, ela pensava. Por que ainda queremos dar aulas? O que nos leva a isso? Que sonho maluco! Ou seria uma maldição? Um carma? Cruz que se leva na vida? Um sonho que bate de encontro a uma pedreira, a um muro de concreto, a uma rocha. Quantas vezes vi meu namorado esta semana? Ele também dá aulas. Quando vai, venho, quando ele vem, vou. Outro dia, nossos ônibus se cruzaram, ele me viu, abanou a mão. Isso foi carinho. Não sei o que fazer sozinha. Um professor ganha menos de um centésimo de um deputado, senador, vereador e eles nem vão às sessões. Uma cambada! É muita política, politicagem misturada, tudo virou politicagem, a gente vive atordoada, eu me sinto usada, manipulada. Mas agora, parece que vai mudar. Este chamado hoje, vai ver decidiram modificar as coisas. Está todo mundo animado, lá fora a fila de professores dá 20 voltas no quarteirão, há tanta esperança. Estudei, li, vim preparada. Que perguntas vão me fazer? Matemática, história, geografia, gramática, filosofia, lógica, informática? O quê? Hoje é o início de renovação, foi dito pelo líder dos sindicatos, da associação de mestres, de todas as organizações.

- Está pronta, senhorita?

- Estou. Pode perguntar.

- Antes de perguntar, vamos até aquele canto comigo.

- Até o canto?

Cleide foi, pensando: o que será? No canto havia uma balança. O interlocutor governamental pediu a ela que subisse. Cleide desentendeu, mas subiu, uma luz vermelha acendeu, uma sirene começou a tocar, ela se assustou, o homem olhou os números.

- Pode descer! Ir embora!

- Como ir embora? Nem fui examinada.

- Foi. E foi desclassificada. Não ouviu o alarme? Olhe seu peso! A senhorita é gorda, é obesa. Veja quantos quilos! Como se atreve? Acha que pode dar aulas? O que pensa que nosso ensino é? Vai aguentar ficar de pé dando aulas? Não vai suar e transpirar? Não vai ter fome no meio da aula? Vai conseguir subir uma escada? E se tiver um ataque cardíaco? Será que não vai se aproveitar da merenda dos meninos e dos jovens? Não vai perder a respiração? Romper um aneurisma, ter uma pancreatite, uma cirrose, um edema?

Intimamente, o examinador pensava, sem poder dizer, porque poderia ser processado: "Baleia, leitoa pururuca, toicinho, banha, sebácea, adiposa, acha que ser professora é o quê?"

Cleide saiu atordoada. Na rua, perdeu a direção, não acreditava. Chorou. Na sala, o examinador chamou: "A próxima". A jovem entrou e foi encaminhada à balança.

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