A aventura de Piza pela escala diminuta

Na Galeria Raquel Arnaud, artista exibe composições inéditas e Carlos Fajardo abre a mostra Tenue

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2011 | 03h07

Mesmo na persistência de um vocabulário que articula formas geométricas como triângulos e retângulos, o uso de malhas de arame, zinco, e a criação de relevos como prática de um pensamento espacial oriundo da gravura, o artista Arthur Luiz Piza, de 83 anos, está a surpreender na exposição Desordem Criativa, que inaugura hoje na Galeria Raquel Arnaud. Piza, um dos mais consagrados criadores brasileiros, aventurou-se agora na criação da escala diminuta. "Hoje todo mundo faz tudo enorme e eu, ao contrário", afirma. Pequenas caixas, como casulos, guardam agora em tamanho pequeno as composições que o artista vem realizando há anos com fragmentos de arame e figuras de cor - e há versões escultóricas ainda dessas obras, sobre bases. "Economia", diz.

Paulistano, Arthur Luiz Piza vive em Paris desde a década de 1950, mas sempre volta à sua cidade natal para exibir criações recentes. Desta vez, é na Galeria Raquel Arnaud que expõe pela primeira vez o conjunto de obras diminutas, às quais vem se dedicando há cerca de um ano. "A escala vem de resolver o pequeno como uma espécie de renascimento, de necessidade", afirma o artista. E apesar de tanto apego a um vocabulário e a uma geometria que ele não considera pura, Arthur Luiz Piza preza, afinal, a liberdade.

Está contente com as pequeninas obras, que o fazem citar as miniaturas do circo que o pai dos móbiles, Alexander Calder criou em Paris na década de 1920. Ou os "brinquedos" que Picasso realizou e que, na opinião do brasileiro, "são os melhores Picassos". "Criei essas obras com as sobras de madeira de outros materiais de meu ateliê", conta o artista. De certa forma, aventurou-se nessa experimentação por sugestão de seu ajudante, que fez uma das caixinhas de madeira como suporte para esses novos trabalhos. A construção geométrica "se renova e se reinventa" nas obras de Piza, define o crítico Paulo Venancio Filho.

Arthur Luiz Piza não faz mais gravuras, por uma dificuldade técnica, mas desenha todos os dias em cadernos e com canetas que leva consigo todos os dias. Está criando, ainda, cerâmicas de dimensões medianas, esculturas de mármore de Carrara. Pelo lado formal, o artista "nos coloca problemas da superfície: como do bidimensional irrompe o tridimensional e surge a primeira manifestação do relevo", afirma Paulo Venancio, mas, mais ainda, Piza é um colorista. "Sai de um surrealismo, de algo expressionista que era algo muito interior, no começo da minha vida artística me impressionou Van Gogh", conta o artista - isso, antes de se mudar para a França. O vocabulário construtivo, a partir da gravura, o levou a composições que não são puras - "quando é muito puro acho que acaba ficando muito pobre" -, de uma geometria livre. As composições de Piza, entre o relevo e a escultura, assim, se fazem também em escalas livres, como se pode ver na exposição.

Espelhos. "Sem imaginação não haveria semelhança entre as coisas". A frase do filósofo francês Michel Foucault é citada pelo artista Carlos Fajardo já de prontidão para tratar da mostra Tenue, que ele inaugura hoje também na Galeria Raquel Arnaud. A imagem espelhada - nem sempre a de nós mesmos -; o pensamento de pintura; a disparidade de materiais em composições com feltro, vidros, seda, malhas de aço, por exemplo, em "tensão", fotografias, fotogramas: tudo isso se reúne na complexidade e precisão das questões colocadas por Fajardo, numa exposição que, em seu título, Tenue, indica, ainda, uma certa "sensualidade". "Velar e desvelar, a pintura é desvelar para a verdade", diz o artista, interessado em promover um incessante jogo de imagem valendo-se de um pleno afinamento formal.

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