A aventura de contatar o astro Riccardo Muti

No que diz respeito a grandes estrelas, poucos aqui em Salzburg construíram em torno de si aura tão especial quanto o maestro italiano Riccardo Muti - para o bem e para o mal. Falar com ele é uma aventura e jornalistas do mundo todo se referem em tom de brincadeira às tentativas de marcar uma entrevista.

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Com o Estado, ele cancelou duas vezes desde o início da semana passada. Retirado em sua casa na região, só sai de lá, dizem, para reger - e ocasionalmente para visitar um ou outro restaurante de sua preferência. E não são muitos.

Ex-diretor do Scala de Milão e, a partir de outubro, novo regente da Sinfônica de Chicago, Muti está completando 40 anos de festival - esteve aqui pela primeira vez com pouco mais de 20 anos, a convite de Herbert Von Karajan.

Além de reger, a cada edição, uma ópera de sua escolha e concertos, ganhou até mesmo um festival próprio em junho de 2011, dedicado ao resgate de compositores de sua Nápoles natal, algo que tem feito bastante nos últimos anos - e que, segundo parte da crítica italiana, foi um dos motivos de desentendimento entre ele e os músicos do teatro milanês, descontentes com suas escolhas de repertório.

A questão parece, porém, não ter incomodado os músicos de Chicago - valores são guardados a sete chaves, mas nos bastidores fala-se que apenas um contrato milionário o fez voltar atrás e aceitar o cargo.Este ano, Muti comandou no festival uma nova produção de Orfeu e Eurídice, de Gluck, à frente da Filarmônica de Viena, da qual é um dos principais regentes convidados.

Da escolha das vozes - de registro mais dramático do que nos acostumamos a ouvir nesse tipo de repertório - às idiossincrasias na seleção de andamentos, o espetáculo carrega sua marca pessoal. Até mesmo na concepção cênica, assinada pelo alemão Dieter Dorn, que aposta em um minimalismo que dá à música e suas diversas camadas de leitura toda a ênfase possível.

Depois da última récita, na noite de terça-feira, a reportagem do Estado seguiu para seu camarim, em uma última tentativa de conversar com o maestro. Após quinze minutos, ele abre a porta.

Desculpas. Ele pede desculpas pelos cancelamentos. Nápoles, Cherubini, Chicago, tanto a conversar. "Sim. Mas, você vê, por isso mesmo é difícil arranjar tempo para entrevistas. Muito trabalho, sempre. E a música pede envolvimento."

Com um sorriso, ele se despede. Passa rapidamente diante de Jurgen Flimm, que deixa este ano o posto de diretor artístico do festival, e de Alexander Pereira, que assume o cargo a partir de 2012.

Alguém explica à pequena multidão que aguarda por um autógrafo que o maestro tem um compromisso importante dali a pouco. Quando todos se dão conta, tarde demais: ele já se perdeu nos corredores do teatro.

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