F. Marinho/Divulgação
F. Marinho/Divulgação

A aventura brasileira de Stephen Daldry

Diretor fala de 'Trash', que começa a filmar na próxima semana, no Rio

LUIZ CARLOS MERTEN / RIO, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2013 | 02h22

Wagner Moura está entusiasmado com seu papel em Trash, o longa 'brasileiro' de Stephen Daldry, que o diretor de Billy Elliott e O Leitor começa a filmar no Rio, na semana que vem. "Ele é um grande diretor e um grande cara. Um encontro desses ocorre uma vez na vida da gente", diz o eterno Capitão Nascimento na sede carioca da O2 Filmes, onde Daldry conversa com o repórter do Estado. "Nice to see you", diz o inglês de 52 anos (nasceu em Dorset, em 1961). Aconteceram encontros anteriores no Festival de Berlim, onde Daldry apresentou As Horas, O Leitor e Tão Longe e Tão Perto.

Ele conta que a ideia de Trash nasceu do produtor Kris Thykier, da PeaPie. O próprio Thykier, também presente na sede da O2, conta que o livro em que o filme se baseia, de autoria de Andy Mulligan, virou objeto de uma polêmica editorial antes mesmo de chegar às livrarias. "Tudo no livro chamava a atenção. Eu o li ainda como prova. A história e os personagens me apanharam." E o que ele fez? Contactou Daldry, que deu o seu acordo de imediato.

Desde 2010 eles trabalham no projeto. Uma vez decidido que o filme seria feito no Brasil - o país é imaginário no livro -, com atores brasileiros e diálogos (boa parte deles, senão todos) em português, Daldry e Thykier buscaram uma parceria local. Fernando Meirelles já era uma referência. "Ele não só é um artista talentoso como também é muito generoso. Está sendo um prazer fazer esse filme com ele." Bel Berlinck é a produtora executiva da O2 no projeto de Trash. Não é um filme 'grande' - maior do que outros em que a O2 tenha estado envolvida - pelo orçamento, mas poderá vir a ser grande pelo prestígio.

Afinal, tem direção de Daldry, roteiro de Richard Curtis (de Quatro Casamentos e Um Funeral e Um Lugar Chamado Nothing Hill) e no elenco, além de Martin Sheen e Rooney Mara, estão Wagner Moura e Selton Mello. Wagner já é um nome internacional e, na semana que vem, quando Daldry estiver iniciando para valer sua aventura brasileira - serão dez semanas de filmagem, até outubro -, o ator fará uma passagem rápida pelos EUA, para o lançamento de Elysium, a esperada ficção científica de Neill Blomkamp.

Trash, que já saiu como livro no Brasil pela Cosac Naify, é um thriller contemporâneo cujos protagonistas são três meninos que vivem num lixão. Uma descoberta inesperada os lança numa aventura em que vão necessitar de todas as suas habilidades para sobreviver ao vilão interpretado por Selton Mello. Wagner é o herói que inspira os garotos. Ele emagreceu para fazer o papel. Voltou à barriga tanquinho. Como Daldry chegou ao seu elenco brasileiro? "Vi muitos filmes e séries", conta. Adorou Filhos do Carnaval. Os garotos, escolhidos em testes, serão interpretados por Rickson Tevez, Eduardo Luis e Gabriel Weinstein.

Como será dirigir um elenco que vai falar predominantemente português? Daldry tem um assessor, um coach, bilíngue, mas não está preocupado com isso. "O fato de não dominar a língua não impede a gente de avalizar o trabalho do elenco." E ele conta que, muitas vezes, durante a montagem de seus filmes, prefere fazer a edição sem som. "Seguir só a imagem é a melhor maneira de se saber se a história é bem contada. Se a gente entende sem som, é porque funciona."

Qual é a rotina de Daldry na pré-produção de Trash? "Trabalho da manhã à noite. Estou vivendo em função do filme." Enquanto toma uma cerveja, que ninguém é de ferro, ele conta que tem apreciado a irresistível combinação 'feijoada/caipirinha'. Foi a muitas das manifestações que sacudiram o País. E observa - "Assisti e participei de manifestações populares em vários lugares do mundo. Em nenhum outro senti tanto desejo de mudar, tanta esperança quanto aqui".

O filme trata de pobreza, violência, corrupção. Tudo isso pode ter a cara do Terceiro Mundo, e do Brasil, mas Daldry ressalta. "Há aqui muita alegria e felicidade, muita esperança (ele repete a palavra)." Revela - "Se tivesse de viver como pobre, não escolheria outro lugar. Em nenhum poderia ser mais feliz". O lixão do filme será cenográfico, mas Daldry e Thykier, que viram capítulos da novela Avenida Brasil, da Globo, tranquilizam os futuros espectadores de Trash. "Nosso lixão não será antisséptico. Teremos urubus, em nome da credibilidade." Não é, necessariamente, uma crítica. Ambos gostaram do que viram na novela.

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