A ave de Minerva e o ibope II

Rimos de nós mesmos e do nosso medo de sermos confundidos com a patuleia

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

21 Março 2018 | 02h00

Tratei, no domingo passado, da ascensão de intelectuais midiáticos. Volto ao tema e começo pensando nos críticos. São variados. Acusam-nos de simplificação de ideias, denunciam projetos de domínio político por detrás de cada um, demonstram um desdém pelo sucesso alheio. Não é preciso avançar muito em um manual de psicologia para ler que desdenhar o sucesso do outro pode mascarar a dor da inveja.

É possível ver com otimismo um filósofo lotando um estádio. Quando, no passado deste País, professores tiveram tanto público e foram tão solicitados? Quando os livros mais vendidos do Brasil tiveram a assinatura de um doutor em Filosofia como Mario Sergio Cortella? Intelectuais são capas de revistas e presença diuturna na televisão. O fenômeno seria um indício de progresso ou de retrocesso? A resposta indica menos a análise de professores pop e mais a posição do sujeito que elogia ou ataca.

Existe demofobia em muitas das críticas a tudo que seja popular. Estaria a desconfiança da vulgarização das ideias no fundamento dos críticos ou o horror ao próprio conceito de popularização? Por séculos, o saber esteve enclausurado nas universidades ou em círculos restritos. O mundo acadêmico tinha pouca ou nenhuma vontade de dialogar com o grande público. Na verdade, o próprio linguajar técnico das ciências, por vezes, atendeu a uma vontade de hermetismo. Buscar radicais greco-latinos ou neologismos obscuros esconde o intuito de se diferenciar da linguagem e dos conhecimentos populares. A prosaica dor de cabeça não vira cefaleia à toa. Tudo que for de apelo amplo provoca preconceito. Se o doutor não falar difícil é sinal que não é doutor! Por que usar o contemporâneo “aluguel” se posso pespegar no contrato o arcaico “aluguer”? 

A ideia de “cultura popular” era bem-vista sob o prisma antropológico, desde que isolada em uma comunidade do sertão. O popular foi idealizado como uma expressão autêntica de um Brasil profundo e, de preferência, do passado. Hoje, a cultura universitária interessa-se muito mais pela greve operária de 1917 do que pela faxineira terceirizada de 2018. Com exceções notáveis, essa é a tônica do pensamento letrado, mesmo em círculos críticos.

Eu mesmo, confesso, já fiz críticas públicas e ácidas a expressões contemporâneas de cultura na chave citada. Ironizar um autor ou uma forma de manifestação midiática é sucesso garantido, se o público sabe que leio Thomas Mann e traduzo Shakespeare. Causa uma empatia catártica: o ouvinte/leitor purga na ironia do intelectual seu próprio horror ao povo ao qual pertence. Rimos de nós mesmos e do nosso medo de sermos confundidos com a patuleia.

Tenho outra experiência sendo um comunicador de mundos. O indivíduo que gostou de uma fala minha em uma palestra pública e para o público geral decide frequentar aulas de pós-graduação na Unicamp. Imagina que as aulas terão o mesmo tom de um trecho do YouTube. Depara-se com bibliografia em várias línguas, recortes pouco conhecidos como a possessão de Loudun no século 17 ou debates sobre hermenêutica documental e epistemologia histórica. Horroriza-se e, em geral, sai das aulas após algumas semanas. Situações específicas exigem linguagens pertinentes.

Fica aqui o desafio: em nome da pureza conceitual, da ciência ou da erudição, deveríamos evitar uma palestra mais ampla ou uma publicação com texto mais direto e sem notas ao pé da página? Talvez seja só mais uma marca de nosso provincianismo, pois, em outros lugares do planeta, grandes nomes da Ciência, de Carl Sagan a Neil deGrasse Tyson, Marcelo Gleiser, Yuval Noah Harari, entre inúmeros outros, sempre falaram de temas científicos em linguajar simples para um grande público. Alguns ficaram milionários com isso. Ninguém reclamou. Na verdade, universidades como Oxford têm uma cadeira específica chamada “Compreensão Pública da Ciência”, ocupada por estudiosos divulgadores de ciência, como o controverso (e extremamente popular) Richard Dawkins. Volto ao ponto: Dawkins ganhou muito dinheiro com palestras, livros e documentários (exibidos na Netflix - esse é o grau master de pop!). Quem jogou pedras? Atacaram seu ateísmo, não seu sucesso. No Brasil, elas seriam jogadas sem pestanejar. Dois problemas: pagamos muito mal quem faz ciência de ponta em nosso país e atacamos quem a divulga. É um ouroboros perverso.

Tenho grandes alegrias ao constatar que muitas pessoas me dizem que passaram a ler o Hamlet porque falei dele em uma palestra. Se um ouvinte entende que Maquiavel é adepto de uma política realista, isso invalida sua constatação por não ter examinado em detalhes e na língua original a percepção do florentino nos Comentários Sobre a Primeira Década de Tito Lívio?

Existe algo mais amplo do que as vaidades exibidas ou feridas. Como promover uma cultura de massas de qualidade? Como seduzir grupos grandes para que leiam textos importantes, que vejam obras de arte significativas e que passem a pensar como consumidores culturais críticos? A resposta não está nem com os “professores midiáticos” nem com seus críticos. Precisamos de um debate menos personalizado e mais focado em objetivos de médio e longo prazo. Outros países conseguiram. Boa semana para todos. 

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