A ave de Minerva e o ibope

Jean-Paul Sartre falava ou escrevia e, imediatamente, obtinha repercussão midiática

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

18 Março 2018 | 02h35

Resisti um pouco ao assunto da coluna de hoje. Falar de intelectuais e mídia parecia um passo narcísico. Porém, todo ato de escrever é um gesto de vaidade. Lembrei-me de Italo Calvino (As Cidade Invisíveis) a supor Marco Polo descrevendo todas as cidades do mundo ao imperador mongol. O grande Khan acaba indagando do viajante o motivo de nunca falar da sua cidade natal, Veneza.

Para surpresa do grande senhor, o europeu afirma estar falando dela o tempo todo. Sim, quando eu escrevo sobre a Grande Guerra ou sobre uma teoria estética do Renascimento, estou cultivando canteiros de narcisos amarelos no jardim da minha consciência vaidosa. 

O tema é fenômeno antigo e é novo. Existia veneração por artistas no século 16. Michelangelo teve duas biografias publicadas ainda no curso da sua vida. No século 19, existia uma Lisztomania. Um toco de cigarro atirado na sarjeta pelo pianista carismático foi recolhido por uma fã e guardado como uma joia. O apogeu do processo ocorreu com os Beatles, que passaram a ser assediados de forma obsessiva na década de 1960. A fama de artistas é processo antigo e o mercado absorveu cedo a repercussão social dos criadores, inclusive como valor subjetivo que estimulava o preço objetivo da produção deles.

Da mesma forma que entre pintores e músicos, sempre existiram intelectuais públicos. Émile Zola, de muitas maneiras, cria a figura com a defesa do capitão Dreyfus na França da Terceira República. Jean-Paul Sartre falava ou escrevia e, imediatamente, obtinha repercussão midiática. As aulas públicas de Foucault ou de Lacan eram tomadas pelo público horas antes e gravadas com zelo. Como nos conselhos de Luís XIV ao Delfim, o nome do rei deve ser a vanguarda do exército e provocar respeito antes do início da batalha. A fama é um signo que se antecipa ao evento. 

Eu já tinha tratado dos intelectuais públicos como os citados anteriormente. Há um fenômeno novo, talvez de 15 anos, um pouco mais. Professores e professoras sempre publicaram e fizeram palestras. De repente, as afirmações começaram a ser recortadas e circular na internet. O WhatsApp capilarizou tudo. Um dos pioneiros é o meu amigo Mario Sergio Cortella. Suas falas são espirituosas e, sendo mestre e doutor em Filosofia com sólida bagagem universitária, viveu a disparada da busca pelas suas palestras há mais tempo. As virtudes de Cortella são evidentes: clareza, capacidade de formular frases sintéticas e boas, carisma, recursos de retórica expressivos, bom humor e, acima de tudo, uma ponte boa entre o conhecimento erudito e etimológico para grupos mais amplos.

Da mesma forma, despontou um pouco depois outro amigo meu, Clóvis de Barros Filho. Tal como Cortella, formação muito boa, longos períodos na França e oratória irretorquível. Se Cortella mantém um traço de voz no púlpito sacro, Clóvis tem o rasgo tonitruante que pode assustar os mais sensíveis com seus decibéis potentes. Da mesma forma e em outro diapasão, Luiz Felipe Pondé encontra público em seus artigos de jornal e palestras. De alguma forma contaminado pelo seu próprio doutorado, Pondé é um jansenista-ateu que remete à insuficiência humana para a obra de redenção. São três estilos, três pensadores, três escritores com habilidades em comum e penetração ampla dos seus pensamentos. Todos eles são fenômenos de massa. Como também o são Viviane Mosé, que já teve quadro de Filosofia no Fantástico e colabora regularmente em programas como o de Fátima Bernardes, ou uma das maiores best-sellers de nosso mercado editorial: Mary Del Priore. 

De alguma forma, creio, todos estão/estamos ligados a um processo de demanda por formação fora dos muros acadêmicos. Tanto as empresas como o grande público querem informações, reflexões e acesso a chaves de decodificação das linguagens eruditas. As pessoas buscam formas de compreender e viver em uma época cada vez mais complexa. As empresas oferecem palestras e sentem que o técnico, aquele que falaria sobre algo muito particular sobre o processo produtivo, precisa ser equilibrado pelo filósofo, pelo historiador, pelo humanista em geral. 

Como eu afirmei, as redes sociais passaram a recortar ideias e divulgá-las. Há o perigo de ideias extraídas de um contexto e reinseridas com intenções maldosas. Fora do todo, é possível dizer que a própria Bíblia afirma a inexistência de Deus no salmo 53. 

Existe um forte jogo político no Brasil de hoje e a fama também traz uma novidade: haters. Fãs e críticos pertencem ao mesmo jogo das ideias na praça, na nossa praça contemporânea distante da ágora socrática: as redes sociais. Na arena de bites e likes, está em curso um combate gladiatório renhido. O prêmio? A conquista de espíritos pelo domínio de fãs. Ter admiradores é ter poder. 

Todo processo de tradução (e é disso que se trata) sofre entropia, a perda de sentido durante a passagem de seu lugar original para o novo. Existe também outro fenômeno: quando se utilizam frases de autores em um vídeo, imediatamente, elas voam em posts como sendo de autoria dos professores. Há anos utilizei a citação “a consciência nos torna covardes”. Já vi na internet a frase com minha assinatura, ainda que William Shakespeare tenha tido essa ideia um pouco antes de mim. As redes sociais representam uma diluição da ideia de autoria e aumento da entropia. 

Intelectuais pop não apenas fazem palestras em empresas e instituições, como também são campeões de vendas. Há mais: ao andar por aeroportos e pela rua são parados para selfies e autógrafos. Já fui testemunha de pessoas que assistiram a duas horas de palestra e, não tendo conseguido uma boa selfie, mandam mensagens agressivas dizendo que se sacrificaram por nada. A foto é o troféu e, para alguns, as ideias vêm a reboque. O tudo é a imagem midiática. Voltarei ao tema. Bom domingo para todos nós. 

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