A autonomia do desenho em mostra

Volta e outra fala-se de tantas mortes na arte, como diz o artista Nazareno Rodrigues - a da pintura é o clichê mais repetido e quantas vezes ela morreu e renasceu nos discursos. "Mas nunca se falou na morte do desenho", continua Nazareno, que prefere mais a nomenclatura de organizador que de curador da mostra que concebeu para o Sesc Pinheiros, Realidades - Desenho Contemporâneo Brasileiro, a ser inaugurada hoje na instituição.

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2011 | 00h00

São quase 90 obras de 17 criadores (inclusive Nazareno), convidados para a exposição por meio de uma seleção pessoal do artista-organizador. É o critério da diversidade no modo de se criar o desenho, tão tradicional e tão extemporâneo, e a vertente figurativa que prevalecem nos trabalhos reunidos, a maioria deles novos e inéditos, feitos por um time de artistas destacados, entre eles, Felipe Cohen, Rodrigo Bivar, Mariana Palma, Vanderlei Lopes, Marcius Galan, James Kudo e Marcelo Moscheta.

É quase uma exposição livre, em que as obras têm o espaço para a sua autonomia, escala, poética e particularidade de material (há trabalhos feitos com pólvora, caneta esferográfica, carvão, lápis de cor, aquarela, grafite, colagem e até vídeo, da dupla Fernanda Figueiredo e Eduardo Mattos). "Não me interessava tecer diálogos entre eles, cada artista é bem diferente do outro", diz Nazareno. A mostra ganha, assim, até mesmo uma leveza que guarda em si tantas potências. Por exemplo, a de jogar luz a criadores com menos inserção como a curitibana Regina de Paula e o mineiro Fernando Cardoso ou ainda a de não ter medo da beleza. Outro destaque é a promoção de oficinas gratuitas na instituição com alguns dos artistas.

Construção. O desenho é a base do pensamento artístico, perpassando áreas diversas como a arquitetura, o cinema (o de Fellini e Kurosawa, apenas para citar alguns). Mas na mostra o gênero está como obra final - até mesmo bem valorizado no mercado - e não em seu caráter de projeto de trabalho. Roberto Bethônico, por exemplo, demora meses para "construir vazios" na representação de "ruínas" de espaços arquitetônicos em desenhos de grande escala feitos com caneta.

"Cada artista constrói sua realidade", afirma Nazareno, referindo-se ao título da mostra. Há o campo da narrativa, como na série em que Mauro Piva trata do autorretrato colocando-se numa sequência de representações hiper-realistas de lascas de um lápis. O do onírico também, nas criações de Fernanda Chieco e Mariana Palma. E ainda o espaço para a menção ao fazer, como os trabalhos em que Gallan deixa os vestígios de borracha de suas tentativas de desenhar um círculo e uma linha perfeitos.

REALIDADES

Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, 3095-9400. 13 h/ 22 h (sáb. e dom., 10 h/ 19 h; fecha 2ª). Grátis. Até 27/3. Abertura hoje, 20 h.

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