A ausência do frango

De uns tempos para cá achei um hobby, ou passatempo, como se diz em bom português. Voltei a fotografar. Tirava fotos quando adolescente, nos tempos de filmes preto e branco, câmeras escuras, odores químicos de revelação e impressão. Os jovens talvez não saibam, mas era assim a fotografia há apenas três décadas. Dava trabalho, mas era bom.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2011 | 00h00

Hoje é mais fácil. Tem uma máquina fotográfica, quem diria?, no meu telefone e este é pequeno, portátil e, como se bastasse, ligado à internet. É uma maravilha.

Não é preciso revelar nada. Ando por aí e, ao encontrar uma cena de interesse, tiro a foto e a coloco na mesma hora no Facebook, com legenda (!), para todos os meus amigos, menos o Reinaldo Moraes, Antônio Pedro Tota e o Marcão, que desconfiam dessa tecnologia.

Achei uma cena para fotografar a caminho do ponto de ônibus, logo cedo, com luz boa, semana passada, um despacho de macumba do lado de fora do cemitério de Pinheiros. É comum, diga-se. Dia sim, dia não encontro trabalhos de macumba. Mas sou americano de origem, nascido e criado na Califórnia, e por mais que fique aqui não consigo passar por um frango cercado com velas e fotos no meio da calçada sem parar para olhar. Lembro-me ainda hoje do maior despacho que já vi. Foi na frente do Parque Villa-Lobos: dois perus de, no mínimo, dez quilos cada um, no mesmo trabalho. Cheguei a escrever a respeito.

O que chamou a minha atenção no despacho da semana passada foi a ausência do frango. No seu lugar havia uma caixa de pizza, engordurada, de papelão, dessas do sistema delivery de entregas, como diz a minha amiga Silvana. Não parece ter sobrado nenhum pedaço. Em cima da caixa colocaram uma tigela com o que me pareciam ser Doritos ou aquele pão árabe durinho. Tampava a tigela uma lata vazia de cerveja marca Bohemia. Ao lado estava a (ainda) indefectível garrafa de cachaça (Velho Barreiro).

Fiz a foto e escrevi a legenda notando a predominância de junk food, ou comida industrializada, no despacho. Bombou. Como diria minha filha Maria, de 20 anos, colonizei o Facebook. Marcelo Cherto, que escrevia para mim sobre uma coluna de franchising no século passado, comentou: "Pronto! A criatividade brasileira acaba de gerar o McCumba". José Edu Camargo, colega de trabalho na Editora Abril, acrescentou: "Tem até slogan pronto: McCumba Delivery - aqui o seu despacho é imediato".

Logo depois, outro amigo meu do Facebook, Sonekka Osmar Lazarini, a quem não me lembro de ter conhecido ao vivo, pergunta se conheço o site http://macumbaonline.com/.

Não é que já inventaram o despacho virtual! O site se apresenta assim: "Já pensou em fazer trabalho pra alguém? Tem preguiça de ir a um terreiro? Gosta de serviços ao estilo delivery, tudo feito de casa mesmo? Seja qual for o motivo, se você deseja fazer um trabalho para alguém, este é o local".

É só colocar o nome e endereço eletrônico de quem você quer atingir. Fiz em mim mesmo, para não criar confusão. Recebi o seguinte email: "Você foi alvo de uma macumba feita on-line. A macumba feita tem o intuito de engasgar com paçoca. Se você acha que esta macumba é indesejada, você pode desfazê-la entrando no site..."

As opções de despachos são variadas. Há os tradicionais "tirar olho gordo", "trazer sorte" e "passar no vestibular". E outros, que não conhecia, como "adquirir fedor permanente" e "despiranhar". Este verbo ainda não consta no Houaiss, mas acho que entendi o sentido.

O mais interessante são as estatísticas. O site compila os despachos em ordem de número de encomendas. A lista me comoveu. Em primeiro lugar, com 22.179 despachos, está "trazer a pessoa amada". Em segundo, com 18.682, "emagrecer". Trazer dinheiro ficou em terceiro, apenas. E apenas 742 despachos foram feitos no sentido de "despiranhar". Perdeu até para "empiranhar", com 1.173 (mas tampouco consta no Houaiss).

Não consegui desfazer a minha própria macumba. Vou precisar dos meus consultores da área de informática. Enquanto não me atendem, por via das dúvidas, deixei de comer paçoca.

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