A ascensão do maximal

O incensado Rustie, que dialoga com a grandiloquência do pop atual, fala sobre sua música

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2012 | 03h08

O efeito da hiperconectividade contemporânea se faz ouvir com nitidez em cada novo lançamento de pop comercial. Assista aos vídeos da rapper Nicki Minaj para presenciar uma blitz estricninada de cores, sons e atitudes. Pense no refrão grandiloquente de We Found Love; nas cornetas que prometem a glória de All of The Lights, de Kanye West; nos remixes de Skrillex - hits que não se contentam apenas em nos seduzir, mas exigem nossa atenção de forma incisiva, arranhando o céu com melodias, apontando uma arma sonora de crescendos e graves aos nossos ouvidos.

Trata-se de uma forma ampla de descrever o que tem sido cunhado de maximalismo digital, um conceito darwiniano, que sugere que, em meio ao frenesi de texts e tweets, só o hit mais competitivo nos fará deixar de lado os joinhas do Face - este, ou aquele capaz de trazer tranquilidade às nossas mentes sobrecarregadas (vide o sucesso do soul semiprofundo de Adele, ou do rap intimista de Drake). São polos opostos que ilustram o 8 ou 80 musical do panorama pop contemporâneo, que ou eletrocuta os sentidos ou os protege com um Caladryl sonoro.

A ideia do maximalismo, no entanto, não é restrita aos andares de cima da Billboard e encontra mutações paralelas interessantíssimas na música de pista autoral, de Glasgow a Los Angeles. O expoente atual desses sons é um escocês de 28 anos chamado Russell Whyte, que trabalha sob o nome artístico de Rustie, e vem a São Paulo para tocar no Sónar, o eximiamente curado festival de música eletrônica que ocorre nos dias 11 e 12 de maio. Seu primeiro LP, Glass Swords, lançado no ano passado, é uma síntese do diálogo que a música eletrônica (é impossível designá-la a um gênero específico; o próprio a chama de aqua-crunk) contemporânea mantém com o pop grandioso de FM. Melodias fisgadoras, ecos de hip-hop, referências ao rock progressivo, faixas enxutas, com duas ou três ideias contagiantes em cada uma, formam uma combinação de inegável ressonância contemporânea que tornou o produtor em darling da crítica (Glass Swords é unanimidade em qualquer publicação especializada).

Para compreender o impacto de Glass Swords, é necessário entender sua procedência artística. Rustie lança singles desde 2007, quando começou a chamar atenção dos blogs com seu híbrido de hip-hop sulista, conhecido também como crunk, e vertentes da pista londrina como o grime (espécie de hip-hop britânico) e o dubstep. A cena de Glasgow é pequena, mas vibrante, com um time de produtores que tem lançado discos instigantes, como Butter, de Hudson Mohawke (que também toca no Sónar), o disco considerado percussor do mestiço turbinado de Rustie. Em entrevista ao Estado, o produtor é reticente sobre suas intenções: "Eu faço a música que quero ouvir", respondeRustie, por e-mail, a uma pergunta sobre as características grandiosas que esta mescla tomou recentemente. Mas se Rustie também ouve o que quer fazer, então é mais fácil compreender da onde sua música vem: "Escuto muita coisa. Uma delas é rock progressivo, mas estou mais interessado em jazz fusion do que em prog. Coisas como Bill Bruford, Return to Forever e Weather Report. Também escuto soul e r&b setentista. The Miracles ou MFSB (um coletivo de músicos responsáveis pelos discos de Wilson Pickett, Harold Melvin, Spinners e O'Jays, entre outros). Mesmo assim, minhas influências mais importantes vêm de r&b e hip-hop moderno". Os gostos resumem a paleta estilística de Rustie, que adiciona o brilho de arpejos de trance e guitarras virtuosísticas ao contexto rítmico de hip-hop e de dance. As guitarras, por exemplo, devem muito a Daft Punk, que por sua vez foram os primeiros a traduzir as peripécias excessivas e vaidosas dos grandes guitarristas dos anos 80 (Randy Rhoads, Eddie Van Halen, entre outros) para a música de pista. Isso nos leva ao "prog" ou rock e jazz progressivo, estilos buscados por muitos produtores atuais como fonte de inspiração. O gesto galopante, abrangente, heroico das jams progressivas tem ecos nítidos tanto no pop atual quanto na música de Rustie, o que para muitos indica uma quebra com o modelo minimalista que ditou os caminhos da música de pista nos últimos 20 anos, desde o techno de Detroit à escuridão espaçada do dubstep londrino. Trata-se de uma guinada em sincronia com os ares atuais, em que tudo, passado e presente, pop e underground, tem colidido.

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