A ascensão do maioral

Em O Rei do Mundo, David Remnick refaz a carreira do lendário lutador Muhammad Ali

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

A foto que você vê ao lado é o desfecho do segundo combate entre Cassius Clay e Sonny Liston. A luta terminou no primeiro round e era a revanche de Liston, que fora derrotado antes por um jovem Clay, falastrão e até certo ponto desconhecido - embora já tivesse ganhado a medalha de ouro na Olimpíada de Roma. Falando dessa foto, David Remnick diz que "talvez seja a imagem definitiva de Ali no ringue". Feroz, belo, esbravejando contra Liston jogado na lona.

Essas linhas estão no livro O Rei do Mundo - Muhammad Ali e a Ascensão de Um Herói Americano, um dos belos exemplares do jornalismo literário voltado para a atividade esportiva. Nele, Remnick, editor da revista New Yorker, refaz o início da carreira de Ali, situando-a primeiro no ambiente pugilístico e também na fronteira de tensões religiosas, raciais e políticas que caracterizaram os Estados Unidos nos anos 1960. Anos do assassinato de Kennedy, das lutas pelos direitos civis de Martin Luther King e Malcolm X, da Guerra do Vietnã, dos Beatles e hippies.

É muito fácil fazer uma prosa elegíaca de Cassius Marcellus Clay que, depois de convertido ao islamismo, mudou seu nome para Muhammad Ali. A maior parte dos entendidos o considera o maior peso pesado de todos os tempos, superando de longe Joe Louis e Rock Marciano. Ali dançava no ringue, falava sem parar antes e depois das lutas, compunha versos provocativos ao adversário, previa em que assalto colocaria o outro a nocaute. Dentro das cordas, tinha a pegada de um gigante e a leveza de uma borboleta. Flutuava com beija-flor e picava como abelha, como ele próprio dizia. Exibia um repertório completo de golpes. Além disso, era bonito como um deus e dispunha de ego à altura dessas qualidades.

No entanto, Remnick prefere passar ao largo das mitificações. Para chegar a Ali, recorda das lutas entre Floyd Patterson e Sonny Liston, o primeiro representando o "negro bom", confiável, e o outro, o "negro mau", saído dos presídios, com sua cara de poucos amigos e hábitos ainda menos recomendáveis.

Quando Clay, já se aproximando da Nação do Islã, desafia Liston, os papéis trocam de lado. Afinal, Liston, ainda que tivesse passado criminal, era preferível a esse falastrão, integrante de um grupo que considerava toda a raça branca como inimiga.

Os pontos altos do livro são as narrativas dos combates entre Liston e Ali, em 1964 e 1965. É um texto fascinante, que mantém o calor descritivo e termina por uma coda analítica. Mesmo porque, após as vitórias, Ali se tornaria não apenas o principal nome do pugilismo, mas uma personalidade do século.

Naqueles anos políticos, Ali recusou-se a lutar no Vietnã, sob a alegação simples de que "nada tinha contra os vietcongues". Sua licença foi cassada e ficou três anos e meio sem lutar. Só recuperaria o cinturão na mitológica luta contra um muito mais jovem e forte George Foreman, no Zaire, em 1974.

Já então era um mito. Mas do qual, Remnick procura extrair o lado da humana fragilidade em suas páginas finais. Entrevista um Ali muito doente, quase paralisado pelo mal de Parkinson que, após a conversa, o acompanha até a porta e pergunta ao jornalista se aquele era seu carro. Ante a resposta positiva, Ali apenas comenta, à guisa de despedida: "A gente não possui nada. Você é apenas um depositário nesta vida. Cuide-se bem".

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