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Ignácio de Loyola Brandão
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A árvore do dinheiro na João Moura

Não sabem que é umbu? Também pode ser sapoti. Ou pitomba. Parem com isso, é baru

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2017 | 02h00

Sete e dez da manhã, eu caminhava pela rua João Moura, em busca da revista Piauí na banca do Cid, queria saber se tinha texto da Malu Gaspar. Ia devagar, nesta idade não tenho pressa, quando vi um grupo diante da árvore que fica entre o estacionamento no meio da quadra e a casa 519. Intrigadas, as pessoas olhavam para as frutas de formato estranho.

“Manga não pode ser.”

“Nem laranja, laranja é pequena.”

“Seria mamão?”

Homem do interior, interferi:

“Mamão não é. Mamoeiro não tem esses galhos, é um tronco esguio, reto e no alto forma-se a copa com folhas na ponta de hastes.”

“O que é esguio, moço.”

Por gentileza ou educação, sabe-se lá, somos chamados de doutor ou moço. Há quem diga mestre. Uma jovem indagou:

“O senhor é professor? Sabe tanta coisa, palavras difíceis. O que é esguio? E haste?”.

Expliquei, acrescentando que cresci em quintais no meio de frutas as mais diferentes.

“Então, o senhor sabe qual é essa aí?”

Penduradas estavam frutas verdes, uma e outra começando a amarelar. A casca revelava riscos, formando gomos. Alguém arriscou:

“Claro que é abacate”.

“Não é! Abacate tem a forma de uma lâmpada, a casca é lisa, brilhante.”

Na hora, uma jovem, a mais velha do grupinho, entrou na conversa:

“É mesmo, já vi fazerem vitamina e conheço abacate”.

Parou uma senhora. Não sabia identificar. O grupo aumentou, quem passava queria saber o que acontecia. Afinal, curiosidade mata. Vinha gente, dava palpite. É marmelo. Que nada, é amora. Amora? Está louco, amora é roxinha, pequenina. Não se lembra da brincadeira: Quer amora? Vou contar pro teu pai que você namora. Nada disso, é laranja cidra, grandona, olhe bem. Cidra? Cidra tem a casca rugosa. Então é caqui? Você é burro demais, caqui é vermelho, liso, pequeno. Todos sabiam, ninguém sabia. Pelos sotaques e pelas sugestões via-se mais ou menos de onde cada um tinha vindo. 

Foram tentando: Sem dúvida é açaí, do meu Pará. Bobagem, é abricó. Qual é, isso é tâmara. Você quebra essa casca, saem as tâmaras, como os pinhões do Paraná. Tâmara? Só dá no deserto (este deve ter visto Os Dez Mandamentos). É araçá. Cada uma! Araçá? Ninguém é da Bahia aqui? Não sabem que é umbu? Também pode ser sapoti. Ou pitomba. Parem com isso, é baru.

Entrei no assunto, baru não é, baru conheço, sempre trago de Pirenópolis, Goiás, estive lá há pouco. Só faltou identificarem aquelas gordas frutas de casca grossa, como jabuticabas, pitangas, gabirobas, mirtilos, morangos. Aliás, poucos sabem que este quadrado aqui das ruas Lisboa, Artur de Azevedo, João Moura, Cristiano Viana, é um reduto de pitangas, vermelhas, brilhantes, caem pelo chão. Sem esquecer a videira que plantada pela Jane e pelo Henrique na calçada e que começa a dar cachos. Nesta cidade, somos de todas as regiões brasileiras e não sabemos identificar frutas? Nem as famosas Seis Meninas da CPL, professoras universitárias aposentadas, ousaram dar palpite. 

Lembrei-me de dois casais paulistanos que me visitaram em uma chácara no interior, anos 80. As crianças ao verem laranjeiras e pés de abóbora ao vivo e em cores, e serem informadas do que era, ficaram surpresas: “Mas não dão naquelas caixas do supermercado?”. 

Dias depois, dei com o Jonas, que todos chamam de administrador do pedaço, e perguntei: “Conhece essa árvore?”. E ele: “Sei que foi uma bióloga que plantou, colocou até uma placa com o nome científico. Só que algum vândalo arrancou a placa”. Agora, estou em busca da professora, para saber o nome da fruta. Imagino que seja fruta-pão Disseram-me que está ligada ao dinheiro. 

Há pouco, um funcionário do estacionamento me revelou: é a maçã-de-elefante, moço. Pesquisei. Maçã-de-elefante ou árvore-do-dinheiro, árvore da pataca, bolsa de pastor, flor-de-abril ou coco-de-adão. Para a botânica, ‘dilênia indica’. Conta-se que dom Pedro I, quando não estava no leito com a Marquesa de Santos, ia para o pomar do Palácio de Verão, escondia moedas nos frutos das árvores da pataca, para fazer crer que ali nascia dinheiro. Os puxa-sacos riam, a lenda ficou. 

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