A artista que agigantou aranhas, morre aos 98

Franco-americana, Louise Bourgeois ganhou projeção internacional na década de 1970, sofreu um ataque cardíaco

Camila Molina, de O Estado de S. Paulo,

31 de maio de 2010 | 20h30

Conhecida, sobretudo, por suas esculturas em que agigantou a figura de aranhas - há uma delas em exposição permanente no Museu de Arte Moderna de São Paulo -, a artista franco-americana Louise Bourgeois morreu nesta segunda-feira, 31, aos 98 anos, no Beth Israel Medical Center em Manhattan, Nova York, cidade onde vivia desde 1938. Sua morte foi anunciada por Wendy Williams, diretora do estúdio da artista. Louise, que estava internada, sofreu um ataque cardíaco.

 

 

Apesar da vasta carreira, Louise ganhou verdadeira projeção internacional apenas a partir da década de 1970. Defendia sua arte como método terapêutico, de "exorcismo de demônios" e, sendo assim, um universo psicológico e simbólico povoou suas criações diversas, no campo da escultura - pela qual ficou reconhecida -, da gravura e de instalações. Temas como sexualidade e identidade sempre prevaleceram nas produções da artista, que em 2008 teve grande retrospectiva de sua carreira no Guggenheim de Nova York.

 

Fotos: Associated Press

 

Foi a raiz familiar - e certos traumas que ela elencou - a fonte inesgotável das criações de Louise Bourgeois. Nascida em 25 de dezembro de 1911, em Paris, França, sua mãe, Josephine, era tecelã e seu pai tinha como amante a professora de inglês de seus três filhos, que vivia na mesma casa. A história marcou profundamente a artista, que viria, tantos anos depois, lançar o livro Destruição do Pai, Reconstrução do Pai (editora Cosac Naify, 2000), reunindo escritos da artista e entrevistas com ela realizados entre 1923 e 1997. As aranhas (Spiders) de Louise simbolizavam, como ela mesma dizia, a figura de sua mãe, ao mesmo tempo, a tecelã incansável, mas submissa à traição do marido.

 

Formação
 

Na França, Louise começou sua formação estudando matemática na Sorbonne, em 1932, mas abandonou o curso para se dedicar à pintura na École des Beaux-Arts, na Académie de la Grande-Chaumière e na École du Louvre. Sabe-se que, na época, foi assistente do artista Fernand Léger. Em Paris, casou-se com o historiador de arte americano Robert Goldwater (com quem teve três filhos) e já em 1938 se mudou com ele para Nova York, EUA. Na América (tornou-se cidadã americana em 1951), Louise estudou por dois anos na Art Students League e na década de 1940, além de exibir vez ou outra suas gravuras, deu início à criação de peças escultóricas em madeira. Sua primeira exposição individual de pinturas ocorreu em 1945, na Galeria Bertha Schaefer, em Nova York.

 

Como Marcel Duchamp, o criador do ready-made, Louise também estava no período pós-Guerra na Nova York que via nascer as coleções de seus novos museus e recebia os criadores europeus exilados, remanescentes das vanguardas modernas. Nesse período, em meados da década de 1940, a artista trabalhou no Ateliê 17 como impressora, local onde conheceu o arquiteto franco-suíço Le Corbusier e com o artista espanhol Joan Miró, entre outros. Já nessa época, Louise decidiu abandonar a pintura para se dedicar à escultura. Em 1949, exibiu, na Peridot Gallery, sua série Personagem, só de obras escultóricas em forma de totens.

 

Figuração simbólica
 

Apesar de na década de 1950 ter se envolvido com a onda da abstração - e ter dado um tempo do círculo de criadores para dar aulas -, nos anos de 1960 Louise retomou a criação escultórica elegendo uma figuração simbólica com forte referência ao corpo e a labirintos - nesse sentido, também são importantes suas instalações denominadas Cells (Células). Experimentou materiais como gesso, resina e látex, além do mármore (que conheceu em viagem à Itália) e da madeira. Femme Couteau (Mulher Faca), de 1962, é uma obra refinada e emblemática desse período, assim como Janus Fleuri, de 1968, que, de referência grega, funde a representação híbrida dos órgãos genitais feminino e masculino. A artista, ainda, se dedicou a performances.

 

 

A partir do final da década de 1970, sua obra começou a ter projeção cada vez maior - em 1993 se tornou uma referência para artistas diversos. No Brasil, a atriz Denise Stoklos realizou, em 2005, o espetáculo Louise Bourgeois: Faço, Desfaço, Refaço, uma homenagem à artista. As obras de Louise, além das esculturas das aranhas, criadas entre 1994 e 2003 - entre elas, Mamam, com mais de 9 metros de altura - e que se tornaram uma marca, pertencem hoje a instituições diversas, como o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA, onde fez sua primeira retrospectiva em 1982-83), a Fundação Guggenheim e a Tate de Londres. E já de longa idade, em 1993, Louise representou os EUA na Bienal de Veneza.

 

COLABOROU MARIA EUGÊNIA DE MENEZES e NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.