A arte universal de Kentridge está mais próxima do Brasil

Um dos astros de maior expressão no circuito internacional de arte contemporânea, o artista sul-africano William Kentridge está cada dia mais próximo do público brasileiro. Após ter participado da 24.ª Bienal de São Paulo e ter sido o grande destaque da Mostra de Arte Contemporânea Africana, organizada recentemente no Sesc Pompéia, ele se tornou tema de um documentário dirigido pelo videomaker Alex Gabassi, que será lançado amanhã (16) no Cinesesc.Feliz com a repercussão internacional de seu trabalho, o artista concedeu uma entrevista por fax e comentou aspectos importantes de sua obra, que combina a arte tradicional do desenho com a sofisticada tecnologia cinematográfica, assim como a relação entre seu processo criativo e a turbulenta história de seu país, cuja realidade é mais próxima da brasileira do que as aparências podem indicar.Estadao.com.br - Você se considera um desenhista, um cineasta ou simplesmente um artista? William Kentridge - Algumas vezes o trabalho fica sendo um desenho, em outras adquire movimento, outras vezes ainda se transforma numa peça de teatro ou de ópera. Mas para todas essas formas de expressão o ponto de partida é sempre aquele do desenhista.É verdade que você sempre usa os mesmos desenhos?O princípio geral de cada seqüência é um único desenho, que passa por centenas de alterações - rasuras, adições, modificações. Um filme como Félix no Exílio, de oito minutos de duração, leva de cinco a dez meses para ser realizado, dependendo de como flui o processo de trabalho.A música tem um papel muito importante no seu trabalho, não?Sim, a música é muito importante. Eu começo trabalhando com o compositor ainda nos estágios iniciais, sem saber qual será a história ou a trajetória que o filme tomará. Fazer uma música para um filme envolve um diálogo permanente e contínuo tanto com o compositor quanto com as imagens que serão usadas, respeitando a forma como ambos vão emergindo ao longo do tempo.Você acha que a política é um importante elemento para a criação artística?A política pode ser uma rica e fecunda fonte. Culpa, redenção, poder, desespero são e sempre foram as matérias-primas dos artistas e escritores. Ninguém vivendo nos últimos 30 anos na África do Sul pode permanecer distante dela e para que isso não estivesse presente no trabalho seria necessário ter um tipo muito particular de cegueira.Há sentimentos muito distintos em seus três filmes exibidos recentemente no Sesc Pompéia. O primeiro, Félix no Exílio, parece mais esperançoso, lírico. Já Getting Old... e Stereoscope pintam as coisas de maneira mais terrível, não?Era certamente mais fácil ser otimista em 1991, quando as mudanças prometidas estavam chegando e parecia que qualquer transformação era possível. Em 2000 - dez anos depois - os problemas enfrentados pelo país ainda parecem enormes, impossíveis de serem resolvidos.Como está a África do Sul ?Nosso momento utópico passou e nos encontramos atolados numa realidade muito mais dura. Como um país recém-saído de uma enchurrada.Como você vê o enorme sucesso que seu trabalho vem obtendo? Ocorre o mesmo na África do Sul?Eu me surpreendo constantemente quando viajo ao ver que meu nome e meu trabalho são familiares para as pessoas que encontro. Sempre pensei que o aspecto local do trabalho o afastaria das pessoas distantes daquela realidade. Mas, ao contrário, parece que sua natureza bastante paroquial o torna mais legível. A África do Sul, como uma ex-colônia, sofre de um fenômeno comum a esses países. Foi o sucesso de minha obra fora do país que deu aos sul-africanos a confiança necessária para apreciarem o trabalho.Serviço - Certas Dúvidas de William Kentridge. Vídeo de Alex Gabassi. Amanhã, às 20h30. Grátis. CineSesc. Rua Augusta 2.075, em São Paulo. Tel. (11) 3082-0213.

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