A arte total de Erykah

Rainha do neosoul diz que o sentido da arte é a provocação, e fala de sua admiração por Jodorowsky, cultura egípcia e pelos misteriosos 'crop circles'

Entrevista com

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

O fenômeno Erykah Badu é constante e consistente. Muito antes de Macy Gray e Lauryn Hill, ela já era chamada (e rejeitava o rótulo) de Rainha do Neosoul. Em 1997, veio ao Brasil para o Free Jazz Festival - ano em que ganhou o mundo com o álbum Baduizm, que rendeu 2 Grammys e três milhões de cópias.

Mas o fenômeno Erykah Badu não é sereno. Enfrentou um tornado de críticas este ano ao lançar o videoclipe da música Window Seat, de seu mais recente disco, New Amerykah Part Two: Return of the Ankh. No clipe, ela caminhava entre transeuntes pelo Dealey Plaza, em Dallas, onde vive e onde John Kennedy foi assassinado, tirando a roupa peça por peça. Ao final, caía nua após o estampido de um tiro. A polícia a indiciou, Erykah (nascida Erica Wright em 1971) canta seu coquetel de R&B, soul, jazz, blues e hip-hop em São Paulo, no Credicard Hall, no dia 29.

O que lembra do Brasil de 1997?

Lembro que encontrei um amigo que não via há muito tempo. Lembro dos restaurantes, da comida, do sabor, da arquitetura, dos edifícios, dos rostos das crianças. Do show, não lembro nada.

E como foi gravar um disco no mítico estúdio Eletric Lady, onde Jimi Hendrix gravava?

Já gravei músicas lá em três ocasiões, sinto como se fosse minha casa agora. É um lugar onde a presença da música se faz sentir com força, é muito especial.

O que você propunha com o clipe de Window Seat, gravado no Dealey Plaza, onde John Kennedy foi assassinado?

Foi uma coisa chocante. Estava tentando criar um diálogo a partir de um fato que prende a atenção das pessoas desde 1963. Era uma tentativa de falar às pessoas sobre a questão do medo, caracterizado pela religião, pela filosofia, pela política, pela escola. Propunha o diálogo pelo choque, de um jeito que é tradicional na linguagem da arte. E foi o que eu fiz. O assassinato de Kennedy é algo que tem grande impacto até hoje, emocionalmente, fisicamente. E eu fui de fato assassinada no mesmo local. Claro que o que fiz foi chocante, mas concordem ou não, é uma forma de questionar sentimentos de raiva, de frustração. Acho que é essa a função da arte, provocar, e gosto de usar minha plataforma de cantora com projeção no show biz para repartir, para conscientizar as pessoas.

Como artista consciente, o que você pode dizer dessa primeira fase da administração Obama?

Não tenho nada a dizer. O que sei é que ele está no mesmo sistema, e ainda não tem noção do que o povo precisa de fato. Admiro o controle e a autoconfiança dele, acredito que tem boas intenções. Mas está distante daquilo que os seres humanos de fato precisam para terem dignidade.

Você acaba de fazer um filme, Bobby Zero, com Mos Def...

Não, não rodamos ainda, não está pronto.

Mas sempre esteve ligada ao cinema, não? O que pensa dessa relação entre música e imagem?

Vim do teatro, me lembro de atuar desde os 3 anos. É desafiador, funciona como uma liberação para mim, me faz sentir viva. No cinema, todas as emoções estão presentes. Adoro escrever, atuar, dirigir. Não costumo separar as artes, para mim a música, a dança, o palco, a atuação, é tudo parte da arte. É assim que me construo.

Quais diretores você admira?

Woody Allen. E Francis Ford Coppola. Também admiro a criatividade de Steven Spielberg. Ah, Ron Howard, adoro Ron. Gosto do estilo de Christopher Nolan. Gosto muitíssimo de Michael Gondry. Tenho também grande admiração por Barbra Streisand, personalidade fascinante. Ah, e Alejandro Jodorowsky. Eu o conheci em Paris, onde ele vive, e o convidei para meu show! Ele é demais. A capa do meu disco, a mulher pintada, é um conceito artístico de Jodorowsky, cheio de símbolos.

Ali também há referência à cultura egípcia, não?

Tenho alto nível de interesse em cultura egípcia. Entendo alguma coisa dos símbolos, há muita informação ali sobre espiritualidade. Mas gosto especialmente dos grafismos, do fato de que aquela cultura concebeu uma espécie de linha do tempo da evolução do ser humano. Sinto grande fascínio por símbolos, como aqueles Crop Circles, por exemplo, que surgem nas plantações agrícolas da Inglaterra, com seus padrões geométricos, certos memes. Ninguém sabe como se formaram, há quem diga que é a irrigação, outros que são feitos por aliens, ou que é a própria natureza. Mas eu tenho um bom sentimento em relação a tudo aquilo. Que mágico que é! E eles têm ritmo, adoro.

Na sua página do MySpace, você se define como "uma garota analógica num mundo digital". Mas também é das artistas mais ativas nas redes sociais. Não é um paradoxo isso?

É um paradoxo. Embora eu tenha desenvoltura com o mundo digital, eu vivo de sonhos reais. Aprendi a me divertir nas redes sociais porque elas permitem boas conversas, muita troca sobre arte, sobre visuais. Mas gosto de instrumentos analógicos antigos, como o theremin. Sim, é verdade que os computadores podem emular o som desses instrumentos, mas não sua frequência, as emoções. E é óbvio que os seres analógicos vão sobreviver à tecnologia. Sabe por quê? Porque foram desenhados para isso, para sobreviver.

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