A Arte sem remendos

Obra de Amilcar de Castro (1920-2002) é celebrada em diversos projetos

Roberta Pennafort, RIO, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2010 | 00h00

 Em Berlim. Obra de 1998 de aço corten, com 8 m de diâmetro: Inglaterra, Venezuela e Japão também têm obras do artista. 

Hoje, Amilcar de Castro (1920- 2002) completaria 90 anos. Provavelmente passaria parte do dia em seu ateliê, no município de Nova Lima, a meia hora de carro de sua casa, em Belo Horizonte - hoje transformada no Instituto Amilcar de Castro, que cuida de seu legado artístico. Até o fim da vida, o homem que dobrava e cortava ferro como se fosse uma folha de papel se dedicava ao ofício de escultor. "Não há mistério numa chapa de ferro", gostava de dizer.

Uma série de homenagens decorre da efeméride. No Sul de Minas Gerais, a pequena Paraisópolis, sua cidade natal, dá início hoje à 2.ª Semana Amilcar de Castro. Até sábado, os moradores se mobilizam em exposições e saraus. O artista da terra inspira os alunos das escolas municipais e estaduais a criarem o que quiserem. No ano passado, a iniciativa contou com a presença dos filhos de Amilcar, que se emocionaram com o que viram.

Os três, Rodrigo, Ana Maria e Pedro (hoje presidente do instituto), tocam projetos relacionados à obra do pai. Com a colaboração dos poetas Ferreira Gullar, amigo de Amilcar desde os anos 60, quando ambos estiveram à frente do Movimento Neoconcretista, e Augusto Sérgio Bastos, Ana está organizando um livro com suas poesias.

Ele deixou cadernos manuscritos e datilografados com escritos produzidos ao longo da vida toda, quase secretamente. "Em grande parte, eles são relacionados com elementos de sua obra: escultura, linha, cor, gravura. Mas também há questionamentos sobre a vida. A princípio ia se chamar Poesia - Amilcar de Castro, mas o Gullar me explicou que nem toda poesia é poema, e nem todo poema é poesia...", conta Ana, que quer lançá-lo no fim do ano.

Sobre escultura, escreveu: "Escultura/ é a descoberta da forma/ do silêncio/ onde a luz guarda a sombra/ e/ comove." Sobre desenho: "Desenho é o espaço na medida do sonho."

Outra publicação está a cargo do crítico José Francisco Alves. Há dois anos ele tem pronto Obra Pública de Amilcar de Castro, mas ainda precisa encontrar um patrocinador. O livro, com textos em português e em inglês, reúne fotografias de dezenas de esculturas de Amilcar presentes em ruas e praças do Brasil e do mundo (Alemanha, Inglaterra, Venezuela, Japão).

A maior concentração é na sua Minas Gerais. A segunda cidade brasileira com maior presença de suas esculturas é São Paulo, com destaque para a de dez metros de altura na Avenida Paulista e a da Praça da Sé. Em Minas, a mais significativa talvez seja a que fica na entrada da Assembleia Legislativa do Estado, de seis metros de diâmetro com um triângulo vazado no centro. "É de uma simplicidade fantástica, como um origami monumental", observa Alves.

Esta era uma das favoritas do autor, que não cogitava parar de trabalhar, ainda que tenha tido problemas de visão já mais velho. "Ele dizia pra mim: "Se você fizer um pouco todo dia, logo vai perceber que fez muito"", lembra Rodrigo, o filho mais velho, que está coordenando a segunda edição de um livro retrospectivo de toda a sua produção.

Silvio Tendler quer levá-la ao cinema, num documentário que terá em Ferreira Gullar e em Waltercio Caldas, outro amigo e interlocutor de Amilcar, figuras importantes. "Quero fazer uma ode, mostrar a relação de suas obras com o ambiente, revelar o artista completo, que não deixa sua arte enjaulada. Esse é o lado mais bonito do trabalho dele."

Filho de juiz, o rapaz Amilcar Augusto Pereira de Castro se formou em direito em 1945, em Belo Horizonte, período em que fez amizade com Otto Lara Rezende e Hélio Peregrino, que iriam se tornar escritores. Foi aluno de Alberto da Veiga Guignard na Escola de Arte Moderna, criada pelo então prefeito Juscelino Kubistchek, e participou de exposições organizadas pelo artista, com "desenhos" (dizia que não fazia pintura). Além de arte, estudou filosofia.

No fim dos anos 40, ele se inicia na vida profissional na área de direito, mas sua porção artista segue viva. Em 1952, se muda com a mulher para o Rio. Começa a criar esculturas geométricas, já com dobras.

A princípio, trabalha com chapas de cobre; mais tarde, descobriria o aço corten, que viria a se prestar muito bem às esculturas ao ar livre, submetidas à ação da chuva, dos ventos, do sol, da poluição e dos transeuntes. No Rio, envolve-se com arte gráfica em publicações como a revista Manchete e o Jornal do Brasil, cuja programação visual reformulou por completo entre 1957 e 1959.

Como escultor, expôs no Brasil e no exterior, em salões, bienais, galerias e museus. Seu interesse era pelas "esculturas que não deixam resto, que não deixam pedaço sem solução". Gostava "do que é simples, direto ao assunto, sem mais ou menos".

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