Wolfgang Tillmans/Divulgação
Wolfgang Tillmans/Divulgação

A arte segundo o mais influente curador

Hans Ulrich Obrist lança livro de entrevistas e ainda outro sobre sua profissão

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2010 | 00h00

Hans Ulrich Obrist tinha 23 anos quando organizou uma exposição de arte em sua cozinha. Dois anos depois já era curador do Museu de Arte Moderna de Paris. No ano passado, a revista Art Review elegeu o suíço, hoje com 42 anos, o nome mais influente entre uma centena de poderosos do mundo da arte. Nem por isso Obrist se acomodou. Amanhã, ele lança em São Paulo o terceiro livro da série Entrevistas, publicada pela editora Cobogó. Um quarto está a caminho em outubro, com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha entre os entrevistados. Simultaneamente, a editora Bei coloca nas livrarias outro livro de entrevistas de Obrist, Uma Breve História da Curadoria, em que o curador conta a trajetória de 11 profissionais que ajudaram a moldar o perfil dessa controvertida figura.

O elenco dos curadores entrevistados nesse livro vai do pioneiro americano Walter Hoops (1923-2005) à crítica Lucy Lippard, que, em 1966, já organizava exposições com Louise Bourgeois. Morta em maio, Louise foi entrevistada por Obrist para o terceiro livro da série que a Cobogó lança amanhã e que traz ainda conversas com o escritor J.G. Ballard, o arquiteto holandês Rem Koolhaas e o cineasta Jean Rouch, entre outros. Sobre eles, Obrist fala em entrevista ao Caderno 2, publicada a seguir.

Como você definiria o papel do curador, seguindo Duchamp, que o identificava com um funcionário público, ou Félix Feneón, que o comparou a uma passarela?

O curador é muitas coisas, um generalista como uma vez Harald Szeemann disse a mim, um construtor de pontes, um catalisador, um burocrata, um servo da arte, um captador de recursos, um educador. Duchamp dizia a Walter Hoops que o curador devia, acima de tudo, não ficar no caminho do artista.

Há muitas referências à arte brasileira em seu livro Uma Breve História da Curadoria. Quais artistas você já selecionou para exposições no exterior?

A arte brasileira é muito importante para mim desde que fui convidado por Paulo Herkenhoff para ver a 24.ª Bienal. Fiquei fascinado com o que vi e organizei há sete anos uma exposição de Lygia Pape no México. Recentemente fiz a curadoria de uma exposição na Casa Lorca de Granada com obras de Rivane Neuenschwander e, quando era curador do Museu de Arte Moderna de Paris, montei com Carlos Basualdo uma mostra com instalações de Cildo Meireles e Artur Barrio. Essa série de entrevistas para a Cobogó me fez conhecer José Celso Martinez Corrêa e Ernesto Neto.

Você considera a Bienal de São Paulo uma exposição importante, uma referência para o mundo?

Ela é uma das mais importantes bienais, uma exposição sempre curada e sem representações nacionais. Ainda é uma das mais visitadas do mundo.

No terceiro volume de suas entrevistas, você conversa com criadores tão diferentes entre si como Agnès Varda e Rem Koolhaas. O que o faz escolher tais nomes e por que você sempre termina uma entrevista perguntando qual é o projeto irrealizado de seu interlocutor?

Se desejamos entender as forças que são efetivas na arte, é importante saber o que se passa na literatura, na ciência e na música. Ir além do medo do conhecimento compartimentado tem sido minha meta. Da vanguarda russa ao tropicalismo brasileiro, esses são momentos transdisciplinares que têm ressonância até hoje. Sobre a pergunta a respeito do projeto irrealizado, essa foi uma sugestão de meu mentor Alighiero Boettis. Não acho que seja possível definir uma pessoa por projetos não realizados, mas eles são uma parte importante da prática artística e, como curador, fico feliz em ajudar um artista a concretizar suas ideias.

O filósofo Hans-Georg Gadamer desafiou-o a transcrever o silêncio, questionando seu método de entrevistar. O que você concluiu da conversa com Gadamer, incluída no terceiro volume de suas entrevistas?

Gadamer me ensinou que frequentemente, numa conversa, é importante esperar, não precipitar a próxima pergunta. Ele me incentivou também a entrevistar outros filósofos como Paul Ricoeur e Édouard Glissant - e as visitas a esses pensadores me encorajaram a organizar a exposição Estação Utopia.

Certa vez entrevistei o escritor J.G. Ballard e ele me disse que temia estar vivendo numa época de mutação antropológica. Em sua entrevista, ele diz que, hoje, é impossível chocar alguém por meio da estética. Você concorda?

Depende do contexto e da situação.

O etnólogo Jean Rouch, que você também entrevista, permanece como uma referência para o cinema etnográfico. Por que é tão difícil encontrar hoje um cineasta como ele e de que forma Rouch entrou em sua vida?

Rouch era meu vizinho de museu. Ele trabalhava no Musée de L"Homme e eu a poucos metros, no Museu de Arte Moderna de Paris. As conversas com Rouch foram muito importantes, fundamentais, quando fiz a curadoria da Bienal de Dakar. Sua influência sobre experiências contemporâneas com imagens em movimento é imensa.

O arquiteto Rem Koolhaas, em seu livro, observa que os museus estão mudando o jeito de ver obras de arte. Como você imagina o museu do futuro?

Escrevo justamente um livro sobre o museu do século 21, inspirado no conceito de Edouard Glissant - o de que o museu do novo século não será um continente, mas um arquipélago resistente às forças homogeneizadoras da globalização.

Há quatro anos você organizou sua primeira Maratona com Koolhaas na Serpentine Gallery que dirige, onde 60 pessoas falavam o tempo todo. Por que a conversação é tão importante? A obra de arte não fala por si?

Essa maratona acontece sempre em outubro na Serpentine, cada ano com um tópico diferente - este ano é a poesia. Sobre a conversação, faço minhas as palavras de Tino Seghal: ele me disse que os manifestos são muito barulhentos e masculinos, típicos do século que passou. O século 21 é o do diálogo.

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