A arte russa em busca de sua identidade

País homenageado da Arco 2011 mostrou produção ainda inibida pelo peso das tradições e presa a técnicas vazias

Camila Molina / MADRI, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

"Não há um mercado muito bom para artistas russos", diz Julia Guelman, diretora da galeria M&J Guelman. Em 1990, seu marido, Marat, abriu, em Moscou, uma das primeiras galerias de arte da Rússia pós-soviética. "Faz pouco tempo que as pessoas entendem o que é arte contemporânea russa", continua ela, dizendo que é "impossível" competir com a produção de países de peso no cenário europeu e americano. Tanto é que o bilionário russo Roman Abramovich prefere gastar seus milhões com pinturas do artista de origem alemã Lucian Freud. Mas, afinal, o que a arte contemporânea russa tem de especial?

O país foi o homenageado de 2011 da Arco Madrid, feira de arte moderna e contemporânea que termina hoje sua edição comemorativa de 30 anos na capital espanhola. Das 197 galerias que participaram do evento, aberto na quarta para convidados, 8 faziam parte da seção especial Focus Russia, que apresentou "a cara" da produção artística contemporânea russa.

Pinturas, backlights, fotos, em sua maioria, apresentaram dois caminhos: o mais visível, um embate esgarçado com ícones pops, uma espécie de paródia; de outro lado, o porto seguro e vazio das técnicas tradicionais e dos grafismos. Há, ainda, criações no campo das narrativas, escritas, como de Haim Sokol ou da jovem Valeria Nibiru, que já venceu o Prêmio Kandinsky de seu país. Mas acontece com a Rússia o que se vê na arte contemporânea da Itália ou Índia, por exemplo: o peso das tradições, na arte ou cultura, parece ter inibido qualquer salto para o pujante. Sobra, ainda, espaço para alguma banalidade - como o Mickey Mouse de bronze de Alexander Kosolapov.

"Para onde se mover?", pergunta o pintor e escultor russo Valery Koshlyakov, 49 anos, que vive em Paris. "Para mim, o conflito com a tradição é menor, porque sou um conservador", continua Koshlyakov, ao lado da tela em que retratou o escritor Tolstoi, "o humanista", com linhas coloridas.

Para ele, o grande problema é a falta de uma estrutura para a arte contemporânea em seu país. "É difícil trabalhar em Moscou, é muito cara. E, por outro lado, a Rússia é um grande país, mas só temos três ou quatro galerias mais fortes, nada de museu contemporâneo e uma mentalidade ainda provinciana dos novos-ricos, que não compram nossas obras", enumera. "Artistas russos não fazem carreira no Ocidente, só (Ilya) Kabakov, mais ninguém", continua Koshlyakov. Os preços das obras de seus conterrâneos são mais baixos, diz o artista, que, na verdade, havia vendido uma tela por 25 mil.

Duas cidades. No Focus Russia da Arco 2011, a obra que causou mais interesse foi a que reunia pequenas caixas suspensas que tinham dentro miniaturas de cenários e projeções em 3D, formando microteatros do cotidiano. Exibidos no estande da Galeria Marina Gisich, fundada em São Petersburgo em 2000, trabalhos da artista Marina Alexeeva eram vendidos, em poucos minutos, cada um por 6 mil.

Na frente delas, estavam duas grande pinturas em vermelho de Kerim Ragimov, um dos mais famosos de São Petersburgo, segundo Elena Yushina, assistente da galerista Marina Gisich. "É seu realismo social", diz Elena, sobre as telas cotadas a 25 mil e feitas a partir de retratos publicados em jornais. "Em Moscou estão os artistas mais comerciais e mais galerias, por ser mais rica. Já São Petersburgo é muito conservadora, nós temos o (museu) Hermitage. Nossos artistas preferem pintura e desenho e eles não são bons para lidar com os problemas da globalização." A arte russa agora se dilui.

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