A arte que prende e faz esquecer a prisão

Em narrativa lenta, que às vezes parece patinhar, Ann Patchett mantém industrial, soprano e o leitor em cativeiro

ANDRÉ DE LEONES, ESPECIAL PARA O ESTADO, ANDRÉ DE LEONES É AUTOR DE, TERRA DE CASAS VAZIAS (ROCCO), O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2013 | 02h17

No dia 17 de dezembro de 1996, a embaixada japonesa em Lima foi invadida por guerrilheiros do Movimento Revolucionário Túpac Amaru. Acontecia ali uma recepção oficial pelo aniversário do imperador Akihito. Centenas de pessoas foram feitas reféns e parte delas assim permaneceu por 126 dias, quando militares peruanos invadiram a casa, mataram todos os guerrilheiros e libertaram os 72 reféns que restavam. Esses eventos serviram de inspiração para o belo e estranho Bel Canto, romance da norte-americana Ann Patchett lançado nos EUA em 2001, vencedor do Orange Prize, e agora publicado no Brasil.

No livro, o país sul-americano não é identificado, a casa onde a história se passa é a do vice-presidente e a festa celebra o aniversário de um industrial japonês, o Sr. Hosokawa. Este só aceitou atravessar o globo para a comemoração porque é um aficionado por ópera e os anfitriões, cientes disso, convidaram uma soprano norte-americana, Roxane Coss, para cantar na festa. Espera-se que o Sr. Hosokawa construa uma fábrica no país. O irônico é que ele não tem interesse em fazer isso, e só sustenta tal possibilidade porque não perderia a chance de assistir a uma apresentação tão exclusiva da soprano.

Quanto aos guerrilheiros, sua intenção original era sequestrar o presidente e dar o fora dali o mais rápido possível. Ocorre que o mandatário da nação decidira, na última hora, não comparecer, pois não suportaria perder um capítulo de sua telenovela favorita. Frustrados e sitiados, eles não veem alternativa senão partir para um plano B que sequer fora esboçado: permanecer na casa com os reféns e desfiar suas exigências. Estão, portanto, amarrados a uma situação precária e que tende se resolver da pior maneira possível.

Exceto por eventuais flashbacks, Patchett mantém o leitor dentro do cativeiro. É uma decisão tão feliz quanto difícil de sustentar ao longo de quase trezentas páginas, tanto que aqui e ali a história parece patinhar. Contudo, não é difícil perceber que essa lentidão narrativa exprime na verdade uma segurança na condução do romance. A modorra do ambiente contamina tudo e também justifica certos acontecimentos que, vistos de outro modo, soariam absurdos. Aos poucos, aquele mundo fechado ganha uma dinâmica tão particular que até mesmo pensar no que há lá fora adquire certa estranheza. Por exemplo, a paixão entre Gen, intérprete do Sr. Hosokawa, e uma das sequestradoras, no modo como é resolvida dentro da história, jamais soa inverossímil. Há tempo para parar, observar, sentir. Os reféns não têm, obviamente, para onde ir. Os sequestradores também não. E nós, leitores, ficamos "presos" ali com eles, num lugar em que "não havia algo parecido com estar sozinho".

Nessas circunstâncias, a que poderíamos nos referir como um caso extremo de Síndrome de Estocolmo, o que mais se destaca, no entanto, é o papel desempenhado pela arte. O Sr. Hosokawa sequer estaria presente (e a festa não teria lugar) não fosse seu amor pela ópera em geral e por aquela soprano em particular - amor que, com o passar do tempo, ganhará uma ressonância ainda maior (ou mais íntima). E, mesmo ali, não só Roxane continua a cantar como muitos insistem em se apaixonar, seja por outrem, seja por algo - a culinária, o piano, a telenovela, o xadrez. Há suspensão, mas não letargia. Eles se sentem integrados, próximos: "Na verdade, o tempo tinha parado. Ele sempre estivera aqui e sempre estaria aqui".

E é nesse espírito de suspensão que lemos próximos do final: "Foi apenas um instante, mas naquele momento tudo o que se sabia sobre o mundo fora esquecido e reaprendido". Esta frase ressoa muito da beleza estrangulada do livro, até porque, a despeito de sua luminosidade, ela irrompe num contexto brutal. A violência tem esse poder horrendamente delimitador ou mesmo anulador, todos sabemos. Mas, entre o baque inicial e o desfecho do sequestro, e com a placidez que nos é oferecida no epílogo, Bel Canto carrega consigo o deslumbramento que pode surgir de forma inesperada nas situações mais terríveis e improváveis.

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