A arte pura e livre de Baldessari

A seriedade impregna as cerca de 120 obras exibidas em Nova York até dia 9

Francisco Quinteiro Pires ESPECIAL PARA O ESTADO NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

O isolamento transformou John Baldessari em um indivíduo radical. "Quando vivia na minha terra natal e fazia arte, não percebia que estar isolado era bom", diz. "Na época não havia ninguém determinando o que a criação deveria ser." O provincianismo tem suas vantagens. No caso de Baldessari, a entrega à própria sorte lhe ensinou o significado valioso de ser livre. Fora do circuito oficial, ele não sofreu com a presença inibidora de escolas ou modas. Sendo o único a quem podia agradar, ele se tornou um dos artistas mais influentes da atualidade, cuja produção de quase 50 anos está contemplada em Pure Beauty, apresentada no Metropolitan Museum of Art.

Prevista para terminar dia 9, a retrospectiva reúne cerca de 120 obras de Baldessari, nascido em National City, subúrbio de San Diego, na Califórnia, e apontado pela crítica como precursor da arte conceitual. Chegando à casa dos 80 anos em 2011, ele rejeita rótulos. O desdém por classificações se desenvolveu com a experiência como professor de arte, ofício que o manteve financeiramente, enquanto os seus trabalhos não vendiam.

Apesar de ter sido professor por quatro décadas no California Institute of Arts (1970-1988) e na University of California (1996-2007), ele não acredita no cargo. "Antes de qualquer coisa, sou um artista e, por isso, acho impossível ensinar arte", diz ao Estado por telefone desde o seu estúdio em Santa Monica. "O ensino implica regras, procedimentos, categorias, enquanto a arte procura mudar, demolir e reconstruir as coisas." Para Baldessari, se alguém deseja ensinar algo sobre a criação artística, tem de praticar antes, tornando-se um modelo para os estudantes.

Foi o que fez no curso de post-studio art, no qual pregou a noção de que o fazer artístico pode ser executado em qualquer lugar. Em um dos exercícios de pintura, por exemplo, os alunos ficavam apoiados numa perna só. O desequilíbrio diante da tela, segundo ele, conferia novos sentidos à ideia de ordem.

Baldessari é extremamente preocupado com o significado da arte. Montada em 11 galerias, Pure Beauty contém a reflexão incessante do artista sobre a definição convencional de obra artística, hoje "produto de um mercado para pessoas ricas". "Acho que isso encoraja os artistas a fazer algo apenas para vender." Ele questiona a arbitrariedade das classificações. "Há uma explicação de que arte é aquilo que o artista chama de arte. O problema é convencer os outros disso."

Estruturada em ordem cronológica, a exibição começa com os poucos trabalhos sobreviventes ao Project Cremation (1970). Naquele ano, Baldessari incinerou todas as pinturas feitas entre 1953 e 1966. Pintar, anunciava, era limitador. Dali em diante se dedicou a fotografia, vídeo, filmes, colagem, instalações.

Sentido. As palavras ganham tanta importância quanto as imagens. Em seguida incorporou a linguagem do cinema, influência crucial explicada pela proximidade geográfica de Hollywood. Em meio às mudanças constantes, que o levaram a fazer arte de apropriação nos anos 1980 - Pelicans Staring at a Woman (1984), Kiss/Panic (1984) e Heel (1986) são exemplos -, ele permaneceu em busca de uma ideia contraditória: a simplicidade, ele diz, é capaz de conduzir as pessoas a um nível mais complexo de reflexão. Pois sob um aspecto simples há um sentido profundo.

Quando a câmera portátil chegou ao mercado, ele produziu trabalhos em vídeo. Em I Will Not Make Any More Boring Art (1971), o artista aparece escrevendo numa folha de papel que não vai mais produzir arte chata. A repetição da frase em várias linhas contraria a promessa, ao mesmo tempo que a reforça. A sua obra é feita dessa tensão ambígua que muitas vezes resulta na ironia ou no bom humor.

Na entrevista, porém, ele recusou a percepção comum de que o seu trabalho é engraçado. "Não considero a minha arte bem-humorada", diz. "Se quisesse ser risível, estaria fazendo outra coisa." O que ele cria é apenas resultado do seu jeito de olhar o mundo. E esse processo vem desde a raiz impregnado de seriedade.

Alimento. Antes de se tornar artista, fez trabalho social em uma prisão. Em uma das tarefas passadas por Baldessari, os detentos eram convidados a se imaginar como artistas. "Percebi que eles tinham mais proximidade e prazer com a arte do que eu", diz. "A arte alimentava as necessidades deles. Era o que chamo de alimento do espírito, e isso explica por que os indivíduos vão ao museu." Os criminosos transcendiam naquele exercício a própria condição miserável. A essência de Pure Beauty está resumida nessa experiência seminal com os presos. As pessoas se divertem (diversão é desviar a atenção), porque com John Baldessari se sentem mais inteligentes do que estavam habituadas a acreditar.

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