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A arte por vir

Ser artista no Brasil é um desafio romântico e melancólico

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

02 Dezembro 2018 | 02h00

Posso pintar seu rosto? Assim Bruno Passos iniciou um projeto de registro da minha fatigada face em óleo sobre tela. Já fizemos várias sessões. Bruno tem compromisso com o figurativismo. O exercício de ser retratado é algo psicanalítico, pois fico parado e converso, apenas. Desejando aprofundar alguma alma possível em mim, Bruno me indaga sobre o que temo, o que amo, o que me move e quem sou eu. Não sei se tenho respostas claras sobre as questões. Ele fala de arte, sobre vida em geral e a esposa Camila em particular.

Nossa conversa é complementar: eu conheço algo de história da arte; ele conhece história da arte e técnica. Entre opiniões sobre o pintor Agnolo Bronzino e a análise de crítica de Monteiro Lobato à obra de Anita Malfatti, as horas correm à luz da janela. Ele busca nomes que dialoguem com seu mundo: Colleen Barry, Kouta Sasai, Nicolás Uribe e outros. O maior nome para ele é o de Odd Nerdrum, com quem estudou na Noruega. Bruno se concentra em pintores vivos, eu discorro sobre os mortos. Decidimos não falar de Cézanne: eu amo e ele não. Ninguém é perfeito. A conversa segue e ele pede que eu vire para tal ângulo. Bruno crê que tenho pouca mobilidade no pescoço. Raízes no Reno endurecem o corpo?

Lembrei-me do rei Filipe IV posando para Velázquez. Sim, estimado leitor e querida leitora, sou menos do que o rei Habsburgo, ainda que eu não consiga avaliar se Bruno será mais do que o artista sevilhano. Mas, dada a proporção, lembro-me de como o rei, depois de muitos retratos, percebeu o declínio físico e pediu para nunca mais ser registrado sobre a tela.

Bruno pincela por quase três horas. Começa a emergir um borrão leândrico. O café flui incessante. Bruno e sua casca de noz hamletiana, Leandro e a casca de todos nós na cenografia social. Bruno precisa de pouco para viver e eu preciso de muito. O mundo flui e, novamente, evitamos Cézanne. Falo de museus no Vietnã e no interior do México, com artistas sobre os quais nada sei e sou obrigado a apreciar sem nenhum peso prévio.

Comprei uma linda escultura de Bruno Passos: Caçando Sonhos em Águas Frias. É uma peça forte com um rosto de mármore cercado de uma incrustação de metacrilato azulado sobreposto à pedra. Há um expressionismo angustiado no rosto e uma serenidade violácea ao redor. As águas de todo sonho podem ser frias. Contemplo por horas a imagem.

Ser artista no Brasil é um desafio romântico e melancólico. Romântico porque busca uma paixão, algo que guie a inquietude interna de um criador. Um pintor é pintor não apenas porque pinta, claro, todavia porque necessita pintar, é imperioso que o faça. Eu, por exemplo, toco piano, porém não necessito tocar, não é algo que brote como um gêiser impetuoso e necessário. Eu toco. Eu não sou pianista. Bruno é pintor. Artistas andam entre nós e não pertencem ao mundo em que pisamos.

Dando aula de arte há tanto tempo, eu consigo dizer se um talento jovem será marcante ou notável? Haverá alguém falando da arte de Bruno em cem anos? Questão complexa. Observando imensas telas de Rothko em Londres em janeiro de 2018, pensei como alguém poderia ignorar a força interna, pujante, quase trágica daqueles espaços pictóricos que absorvem toda luz ao redor? Ele era um Prometeu que se queima ao pintar e que, depois, se amarra a qualquer Cáucaso para se afastar e olhar. Eu tenho certeza de que Rothko estará lá em cem anos. Mas isso seria claro para todos no início da carreira? Para tornar mais grave a conversa, eu também sinto o mesmo com Pollock. Já Bruno, mais sensível aos devaneios da linha, sutilezas da cor e aos preenchimentos do espaço, não consegue ver tal valor no norte-americano. Esbarramos em outro interdito dialógico.

Alguns ícones medievais tinham seu valor orçado com base na quantidade de ouro em pó que existisse como dourador na tinta. Talvez tenha sido o último e único critério objetivo da avaliação da arte. Depois, só o mercado sutil que borda conceitos técnicos e vaidades.

Posso garantir que a arte de Bruno seja, no fundo, mais objetiva e permanente? Não posso, apenas sei que gosto do que vejo. Meu horizonte termina na minha subjetividade. Creia-me, estimado leitor e querida leitora, a dúvida existe entre quem nunca tratou de arte e quem estuda há décadas. Ninguém sabe dizer com certeza sobre o futuro de um estilo ou de um artista. Claro, formadores de opinião reforçados por títulos e livros publicados são mais ouvidos. No fundo, todos estamos diante da roupa nova do rei da história infantil. Claro, a exceção é você especialista que me lê agora e que tudo sabe para sempre. Todos os outros vivemos na bruma da dúvida.

Não sou trágico ou pessimista, porém sei que minha obra desaparecerá comigo. Espero apenas que seja um pouco depois da minha morte. A do Bruno Passos, imagino, será mais duradoura. O farol que lança seu facho sobre o universo das coisas circunstantes é único e belo, abastecido pelo desejo e não pela onisciência. A mim basta que a arte ilumine minha única e singular vida. Basta-me o belo que o poeta Rainer Rilke afirmava ser um grau do terrível que desdenhava nos destruir. Bom domingo para todos nós.

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