A arte inédita de Hélio Oiticica

Corria o ano de 1973. Melhor dizendo: escorria o ano de 1973. Março de 1973. Longas horas, longos dias para o exilado Hélio Oiticica (1937-1980), artista plástico brasileiro longe dos trópicos e encolhido de frio em Nova York. O Brasil amargava anos de chumbo. Hélio tinha escapado da repressão e vivia o "exercício experimental de liberdade", expressão então corrente, de autoria do crítico Mário Pedrosa, para definir a criação artística. Para Hélio e tantos outros artistas exilados ou auto-exilados, o exercício criativo não combinava com censura e com os diversos modos (nada sutis, então) de cerceamento à auto-expressão. Foi nesse contexto, de culto absoluto ao rompimento de todas as barreiras, na segurança relativa do país estrangeiro, que surgiu Cosmococa. É a obra mais polêmica de Hélio Oiticica. Feita em parceria com um amigo, o cineasta Neville D´Almeida (diretor de filmes como Os Sete Gatinhos e Navalha na Carne), Cosmococa abrange cinco séries de fotos, cinco instalações, projetos abertos (work in progress), pôster e livro. Um tesouro de criatividade e testemunho de época que, por transgredir limites, permaneceu inédito no Brasil durante três décadas. Emerge, agora, com toda a carga de controvérsias intacta e explosiva. Hoje, quando esse trabalho comemora exatos 30 anos de existência, a Galeria Fortes Vilaça dá a partida a uma série de mostras que pretendem finalmente jogar luz sobre essa criação de Oiticica: começa a exibição da série completa de fotos Cosmococa. No dia 26 de abril, a Pinacoteca do Estado abrirá a exposição que será a de maior envergadura: as cinco instalações, duas delas inéditas mesmo fora do Brasil. No dia 12 de agosto, para assinalar a abertura do project room e espaço expositivo Base 7, o escritório de administração cultural Base 7 (liderado por Ricardo Ribenboim) exibe instalação de Hélio. O Centro de Arte Hélio Oiticica, no Rio, tem retrospectiva do artista agendada para este primeiro semestre do ano. Em maio, será lançado o livro bilíngüe (português-inglês) com fac-símiles de cadernos do artista sobre a série Cosmococa, a documentação da montagem das cinco instalações e a série integral (163 imagens) de fotos. Não será uma tarefa livre de polêmica. Quem não prestar atenção no contexto em que a obra foi feita pode enroscar-se em uma falsa denúncia de apologia das drogas. Mesmo inadvertidamente, pode tentar cancelar o exercício de liberdade que a arte pressupõe. Pode conjurar, até, mentalidades que nos orgulhamos de ter deixado no passado, nos anos de chumbo. Sim, o principal material utilizado para realizar Cosmococa foi a cocaína, em carreiras que sublinharam imagens de astros pop, como Marilyn Monroe e Jimi Hendrix. Mas a cocaína, nos anos 70, não era sinônimo da violência genocida denunciada em filmes como Cidade de Deus nem era exercida no crime organizado que pilota os motins prisionais. Não havia a trilha de sangue irradiada dos cartéis internacionais da droga nem personagens abjetos como Fernandinho Beira-Mar. Cocaína, para Hélio e Neville, era paraíso artificial, estado alterado de consciência, transmutação, vôo livre. Era homenagem para sublinhar a admiração por certos ícones da cultura pop, que transformaram nossas consciências. Por mais ingênuo que isso nos pareça hoje. Serviço - Hélio Oiticica e Neville D´Almeida. De terça a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 10 às 17 horas. Galeria Fortes Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, tel. 3032-7066. Até 17/4. Abertura nesta quinta, às 21 horas

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