A arte expressa em dólares

Estudo dos americanos Katy Siegel e Paul Mattick demonstra como a ascensão econômica dos países emergentes está mudando a criação contemporânea, hoje refém de colecionadores, curadores e museus

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2010 | 00h00

A última grande fronteira entre os ateliês e os bancos foi derrubada por dois críticos e professores norte-americanos que, definitivamente, não dividem a crença renascentista de que os artistas trabalham por amor à profissão - e não por motivos econômicos. Claro que o pop Andy Warhol já havia provado, nos anos 1960, que o poder do dinheiro fascina, particularmente artistas em busca de reconhecimento público imediato. Antes dele, Picasso disse que queria viver como um pobre, desde que tivesse à disposição uma boa soma de dinheiro no banco. Assim, conscientes de que a principal questão no século 21 é mesmo a econômica, a crítica e professora Katy Siegel e o filósofo Paul Mattick resolveram violar o último tabu do mundo monetarista de Picasso e Warhol, escrevendo Arte & Dinheiro, que a Editora Zahar colocou esta semana nas livrarias.

Com tantos museus sendo inaugurados no mundo e tantas reformas em outros, parece natural que alguém pergunte por que tanto interesse na arte, território ocupado no passado apenas por nobres consumidores. O que significa, afinal, esse surto democrático que leva 1 milhão de pessoas por ano para ver arte contemporânea na Tate Modern ou milionários colecionadores do Oriente Médio correr atrás de artistas ocidentais? A dupla de autores de Arte & Dinheiro conversou com o Sabático sobre esses temas, lembrando que foi justamente essa mudança no panorama artístico do mundo o eixo de suas discussões em torno do presente e do futuro da atividade artística, cada vez mais dependente da legitimação dos poderosos. Haveria lugar para artistas que não produzem hoje obras grandiosas e espetaculares? É possível ignorar o poder dos colecionadores e curadores? Críticos ainda exercem alguma influência sobre a produção artística?

Embora a dupla de autores divida a mesma opinião sobre sete temas abordados nessa obra referente ao dueto entre arte e dinheiro, eles discordam sobre um deles, fundamental: o de quem tem mais poder. Paul Mattick acha que é o colecionador de arte, hoje protagonista de uma megaprodução que envolve artistas, críticos, galeristas, curadores e diretores de museus. Nesse circuito em que o museu legitima o valor de uma obra e o colecionador, além de ganhar dinheiro, ganha prestígio, o que diferencia a arte de outras mercadorias especulativas? Com o triunfo do capitalismo em escala global, a arte ainda conservaria o mesmo significado social?, pergunta Mattick. E ele mesmo responde: "Ninguém, em sã consciência, diria que o artista de hoje é autônomo, pois existe uma relação de dependência entre todos os elos da cadeia, do produtor ao colecionador, passando pelo crítico, o historiador e o galerista." Em outras palavras: ninguém quer perder dinheiro apostando num artista errado. Ele dever ser o eleito pelo circuito. E, desse momento em diante, ninguém vai se arriscar com o ungido. Todos se unem para não deixar sua cotação baixar.

Há, porém, alguém que pode estragar essa festa: o crítico de arte. Katy Siegel observa que, de fato, as mudanças na economia, responsáveis pela ascensão de uma nova classe de colecionadores, "afetam cada vez mais a natureza da arte" produzida neste século de instalações, fotografias monumentais e pinturas pantagruélicas. A baliza dessa produção tem de ser, portanto, o crítico, defende a professora, colaboradora habitual da conceituada revista Artforum. Seu parceiro em Arte & Dinheiro, diz, no entanto, que a arte, após a transferência do eixo do poder para os EUA após a 2.ª Guerra, viu não só a ascensão de um novo tipo de colecionador - o burguês americano, não mais o aristocrata europeu - como de um novo artista, afastado do modelo do indivíduo enclausurado em seu ateliê e mais antenado com as exigências de um mercado ""que privilegia a estética do show e o culto à celebridade" - o que explica o prestígio de nomes como Jeff Koons, por exemplo.

Num mundo que elege Koons e Damien Hirst, "não há mesmo lugar para uma discussão kandinskiana sobre o lugar do espiritual na arte", diz Mattick. Museus, hoje, compram arte como em nenhuma outra época e oferecem salas de projeto inteiras para instalações imersivas. Essa gigantesca estrutura custa caro e é essa rede de trocas - que acaba afetando a produção artística - o tema central de Arte & Dinheiro, livro dividido em sete "salas", cada uma dedicada a um tema: materiais preciosos, crédito, produção, loja, circulação, negócios e alternativas. O francês Marcel Duchamp, inventor do ready-made, claro, é o primeiro nome a ser evocado logo no capítulo inaugural. Afinal, foi ele quem expôs objetos insólitos como um urinol e uma pá de pedreiro como obras de arte, virando o Midas da arte contemporânea e inspirando até hoje gente como Hirst, o homem dos tubarões empalhados e embalagens de remédios vendidos como arte a preços astronômicos.

Na contramão, os autores do livro citam como exemplos o alemão Joseph Beuys e o brasileiro Cildo Meireles, que conquistaram o mercado internacional sem fazer concessões. Beuys criou um mito, o de que "Kunst" (arte) é igual a "KapitaL" (capital, dinheiro), mas fez bom uso dele, "produzindo transformações sociais radicais" com seu discurso ecológico - convidado pelos organizadores da 7.ª Documenta, ele plantou 7 mil mudas de carvalhos em Kassel, exemplificando seu conceito de escultura social. Cildo comparece no livro com vários exemplos de inserções no circuito ideológico, desde suas notas de zero cruzeiro e zero dólar até sua grande instalação Missão Missões (ou Como Construir Catedrais), de 1987, em que usou 200 ossos de boi, 600 mil moedas, 800 hóstias, ilustrando (involuntariamente) com essa obra sobre as missões religiosas na América uma tese do crítico Robert Hughes, que comparou os museus modernos às antigas catedrais do passado. Na lista dos artistas de rígida postura crítica, os autores incluem outros nomes respeitados, entre eles o do americano Robert Morris, que usou o dinheiro (cédula) como meio artístico para equiparar a arte a outros instrumentos financeiros. Nada tão radical como a atitude do italiano Piero Manzoni, que mostrou a discrepância entre valor artístico e monetário embalando as próprias fezes numa lata de sardinha e vendendo-os como "merda de artista" em 1961.

"A arte sempre foi mercadoria, desde o Renascimento, e isso não mudou", justifica o filósofo Paul Mattick, também crítico de diversas revistas especializadas e do jornal The New York Times. "É por isso que muitos artistas adotam uma postura paródica para criticar essa relação entre arte e dinheiro, como o italiano Maurizio Cattelan", diz. Cattellan é a estrela do capítulo Crédito, que discute como a assinatura do artista representa uma mera promessa de valor estético. Ele e o curador Jens Hoffman aprontaram na 6.ª Bienal Caribenha (1999), que foi, de fato, a "bienal do vazio". Ambos convidaram dezenas de artistas, que compareceram e não criaram obra nenhuma, curtindo a praia de São Cristóvão, nas Antilhas. Mattick ri. "Eles se divertiram à beça criticando essas arapucas institucionais", comenta, adiantando que nunca esteve no Brasil nem viu a 29.ª Bienal.

Existem casos mais radicais, como o do artista Santiago Sierra, que, há dez anos, pagou quatro prostitutas viciadas em heroína para que elas se deixassem tatuar, usando seus corpos, portanto, como suporte. Essa histérica maneira de produzir arte seria provocada por um circuito ávido por novidades e inflacionado por mostras internacionais. "Curadores, artistas e críticos não fazem outra coisa além de viajar de uma bienal para outra", observa Mattick, associando esse automatismo ao "declínio geral no valor social da cultura" ao longo das três últimas décadas. Sua parceira em Arte & Dinheiro, Katy Siegel, diz que, no fim das contas, por ironia, "o mercado acaba elegendo obras que parecem justamente criticar o capitalismo".

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