A arte exclusiva de Waltercio

Livro do escultor, Outra Fábula, que conclui outro, Salas e Abismos, é lançado só para colecionadores

ANTONIO GONÇALVES FILHO, . , O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2011 | 03h08

A arte do carioca Waltercio Caldas, feita da eliminação do excesso, ganhou, desta vez, um adendo. Trata-se de Outra Fábula, edição para colecionadores da Cosac Naify que complementa o livro Salas e Abismos, lançado pela mesma editora no ano passado, por ocasião da reabertura, no Rio, da exposição homônima realizada no Museu Vale, em Vila Velha (ES) no final de 2009. A caixa, com tiragem de apenas 300 exemplares numerados e assinados, é um exercício de síntese, uma instalação em formato de livro em que Caldas usa os nomes de artistas de sua predileção num ambiente gráfico semelhante às 12 salas que mostrou na exposição do Museu Vale.

Waltercio, um dos artistas brasileiros mais conceituados entre críticos e curadores estrangeiros, fez um livro sem verbo. O que liga os nomes de Mondrian, Braque, Matisse, Velázquez, Picasso e Morandi não é nem mesmo um tênue fio que poderia, de alguma forma, sugerir uma interpretação heterodoxa da história da arte. Construir Outra Fábula, diz Waltercio, foi para ele mais uma questão escultórica do que literária. "Penso na arte como um fluxo de rupturas, cada uma delas contribuindo para o fluxo do rio da arte", explica Waltercio, que subverte a metáfora do rio que corre para o mar ao criar um "ambiente gráfico" em que os nomes dos artistas citados não deságuam no espaço do indiferenciado, mas no próprio rio do qual partiram. Tradição e ruptura nadam juntas nele.

Pioneiro na elaboração do que se chama "livro de artista" - obra de caráter experimental equivalente a uma peça visual -, Waltercio começou a produzir para o suporte com Aparelhos (1978), logo seguido por Manual da Ciência Popular (1981) que, apesar do título, não é uma didática exploração da poética construtivista do artista e sua relação conturbada com o olhar fotográfico, ao qual resistem seus objetos. Antes, o escultor já assinara livros exclusivos, sendo os casos mais radicais as obras Voo Noturno (1967), com três exemplares, Quem É, Quem É (1969), exemplar único, e O Colecionador (1974) tiragem de três exemplares.

No entanto, o grande impacto viria mesmo em 1996 com O Livro Velázquez. Não há nele a intenção de "explicar" a obra do pintor espanhol nem a meta pedagógica de promover uma revisão na história da arte. Por meio de imagens fora de foco do quadro As Meninas e do próprio texto, Waltercio tira o leitor de sua zona de conforto e lhe dá em troca uma possibilidade de (re)ver a construção do espaço por Velázquez, ao remover os protagonistas de sua obra-prima e deixar apenas o ambiente para que o olho passeie por ele à procura das figuras fixadas em sua remota lembrança da pintura.

A ausência, nas obras de Waltercio Caldas, é até mais importante que a presença, pois é ela que desperta o fluxo da memória e faz com que o espectador invada esse ambiente e seja por ele invadido, deixando-se levar por sua instabilidade. Em certo sentido, Outra Fábula radicaliza a experiência de O Livro Velázquez, ao sugerir a construção de um ambiente "habitado" por grandes nomes que já serviram de inspiração para esculturas e instalações do artista. Morandi segue como um dos nomes associados com maior frequência a Waltercio depois de 1975, ano em que ele assinou uma peça com duas pequenas garrafas de porcelana branca separadas por uma rolha que, interposta entre elas, faz com que o olho redesenhe o espaço, fazendo surgir um terceiro vasilhame, virtual, desestabilizador, entre as duas.

A série Veneza, de 1997 (ano em que o artista representou o Brasil na Bienal de Veneza), está repleta de obras produzidas em aço inoxidável que remetem às formas de Morandi e passam por uma metamorfose. Objetos tridimensionais transformam-se em desenhos, que, por sua vez, sugerem outras formas, construídas mentalmente no espaço pelo espectador num estimulante exercício gestáltico.

Waltercio não faz paródia da história da arte. Acredita nela para valer, mas recusa a adjetivação. Não existe a palavra "morandiano" em seu dicionário. "É preciso, por exemplo, buscar mais as diferenças entre a arte dos etruscos e Giacometti do que suas relações de semelhança", observa, concluindo que o "desconhecido" migra de uma época para a outra - e isso é o que lhe interessa, justamente essa relação com o mistério, o enigma, que faz sua arte avançar, não a simples citação.

Objetos banais do cotidiano - entre os quais as garrafas de Morandi - oferecem múltiplos significados estéticos. A tarefa do artista é, de fato, repensar o trabalho anterior a ele, o que justifica a presença de nomes como Morandi, Matisse, Mondrian ou Velázquez num livro como Outra Fábula. Se, nesse gênero narrativo tipicamente oriental (depois incorporado por Esopo), os protagonistas são animais ou forças da natureza, na "fábula" de Waltercio o que importa é a evocação de nomes que não aceitem sobreposições, mas convidem o espectador a pensar numa escultura ou num ambiente como menos importantes do que o lugar que eles ocupam - em outras palavras, imaginar um objeto pode ser um exercício mais estimulante do que ter esse objeto físico diante dos olhos.As formas sugeridas tomam o lugar das coisas, dos objetos, como nas telas de Morandi. Essa é a "moral" da "outra fábula" de Waltercio.

A palavra chave para entrar nesse universo fabular, garante o artista, é transparência, como no livro de Velázquez, em que o artista torna o campo pictórico opaco, embaçado, justamente para colocar um ponto de interrogação sobre a imagem translúcida do mestre espanhol

Ele fez o mesmo no livro dedicado a Matisse (1978), jogando talco para forjar a experiência dessa opacidade e desfazer o jogo ilusório da reprodução gráfica do mestre francês, que sempre defendeu a ideia de uma visão infantil, inaugural, do mundo. "Matisse é só uma sugestão, porque não fiz um livro sobre artistas, mas com palavras, nomes quase abstratos", diz Waltercio , cuja atuação é mais associada ao trabalho escultórico e às instalações, a despeito de seu passado gráfico. Também um pouco por isso, justifica, Outra Fábula existe. Afinal, Waltercio pertence a uma geração em que as monografias sobre artistas eram escassas e a oportunidade de fazer um livro de artista, quase nula.

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