A arte entre a expressão individual e a recriação

Expressando duas atitudes da arte perante a realidade, a nova sede do MAC abriga a mostra 'O Artista Como Autor/O Artista Como Editor'

MARIA HIRSZMAN, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h09

A noção de autoria, uma das grandes questões da arte moderna e contemporânea, é o fio condutor da exposição O Artista Como Autor/O Artista Como Editor, em cartaz na nova sede do Museu de Arte Contemporânea do Parque do Ibirapuera.

Por meio de uma vasta seleção de obras do acervo do MAC, a mostra contrapõe produções de criadores que buscam forjar uma obra única, que contenha elementos expressivos pessoais; com a de artistas que apostam na ruptura dessa relação íntima entre obra e autor e optam por organizar, sublinhar, simplesmente recriar novas poéticas a partir de um universo de ideias e formas já dadas.

Como diz o curador Tadeu Chiarelli, são duas atitudes perante a realidade, que podem ser traduzidas pelas metáforas do quente (gestos e estruturas formais que ratificam a individualidade do autor) e do frio (ações de ressignificação e rearticulação de imagens escolhidas muitas vezes de forma arbitrária). Existe uma certa oscilação entre essas temperaturas ao longo da exposição, num percurso em que há quente, frio e morno que não se impõem. Oscilação essa que faz pensar sobre a difícil posição do artista diante de um mundo cada vez mais repleto de imagens, diante do impasse entre o anseio por criar algo novo e pessoal e a busca por dar sentido poético ao acúmulo desordenado.

A lista de obras, como já se tornou marca registrada das exposições recentes do MAC, é ampla e bastante generosa: contempla de mestres inquestionáveis como Joan Miró e Max Ernst, a jovens artistas brasileiros recém-agregados ao acervo, como Fernando Lindote e Felipe Cama, passando por figuras renomadas da cena artística brasileira e internacional. Dentre os autores que parecem problematizar o tema de forma precisa está Nelson Leirner com Pintura I, de 1964. Nesse trabalho, Leirner parte de uma reprodução de qualidade mediana de uma paisagem urbana da Itália renascentista. Sobre a cena, o artista age com tinta automotiva e fogo, criando uma espécie de síntese, de discurso sobre a impossibilidade/necessidade de diálogo entre o dado (imagem apropriada) e a exigência de expressão individual.

Não à toa O Artista Como Autor/O Artista Como Editor inclui obras em estreito vínculo com os mais importantes movimentos artísticos do século 20. Há um grande número de trabalhos de vertente expressionista, de autores como Iberê Camargo, Karen Appel e Pierre Soulages, marcados pelo desejo de se afirmarem como autores, e por um embate entre a estruturação ou o desmanche da forma (claramente corporificado na obra Expansão Controlada, de César, por exemplo). Também se faz bastante presente, em obras como a de Farnese de Andrade, a estratégia de choque e colagem de diferentes elementos, derivada dos experimentos surrealistas.

Dois outros grupos de trabalhos merecem atenção. O primeiro refere-se à instigante presença de várias de coleções de traço, que parecem esboços de alfabetos do gesto, assinados por autores como Hans Hartung, Leonilson, e Mira Schendel; o outro procura dar conta da criação coletiva, questão que tangencia de perto a crise acerca da autoria. Aí se inclui a peça Como Reconstruir pelo Menos Um Oitavo do Mundo, criada por Leonilson e Albert Hien, em 1986, ou o trabalho Correr o Risco, elaborado por Shirley Paes Leme com um grande número de colaboradores.

José Antonio da Silva. O mesmo anseio investigativo da coleção, sintetizado por Chiarelli como "uma atitude não ortodoxa frente à história da arte, uma tentativa de problematizar as narrativas já consagradas", também se faz presente na ampla mostra dedicada a José Antonio da Silva (1909-1996), com curadoria de Ana Magalhães, que ocupa a sala dedicada a mostras monográficas também no sexto andar. Não se trata apenas de uma panorâmica dessa produção, com obras provenientes de duas coleções importantes (as incorporações provenientes da Coleção Ciccillo Matarazzo e, posteriormente, um conjunto doado ao museu por Theon Spanudis).

Além de pontuar alguns dos temas mais explorados pelo pintor, como as cenas rurais, as naturezas-mortas e as denúncias das queimadas, a mostra põe em evidência um embate claro entre o caráter primitivo, naïf, dessa pintura e o enorme esforço do artista em absorver e introjetar aspectos centrais da arte moderna, como os exercícios pontilhistas, a atração pelo abstrato e a construção da imagem em perspectiva.

A estratégia do MAC de abrir paulatinamente seus andares parece ter sido acertada. Além de apresentar pouco a pouco a riqueza de seu acervo sob olhares diversos, o museu vem conquistando rapidamente o público, conseguindo índices de visitação impensáveis para a instituição quando se restringia apenas à sede da Cidade Universitária, alcançando mais de 11 mil visitas semanais em junho, com uma forte tendência de aumento. Essa afluência levou o museu a optar por trazer para a sala maior do 5.º andar do antigo prédio do Detran a exposição sobre arte italiana do período entreguerras, atualmente em exibição na sede da Cidade Universitária.

A sala menor do mesmo andar abrigará uma antologia de Alfredo Volpi, com curadoria de Paulo Pasta, colocando assim um núcleo de arte italiana à disposição do público, a partir de agosto. Em setembro, a ocupação do prédio terá continuidade com a inauguração de mostras do argentino Leon Ferrari, organizada por Carmen Aranha, e de uma exposição de arte contemporânea com ênfase na imagem fotográfica e pós-fotográfica, com curadoria de Helouise Costa.

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