A arte em busca da expressão pessoal

No clássico O Espelho e a Lâmpada, que ganha edição no País, o americano M.H. Abrams investiga a revolução estética do Romantismo, que trocou a ideia de obra como reflexo da natureza pela de revelação da personalidade

Felipe Fortuna, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

Nos meus devaneios de universitário (que não terminaram depois da formatura)me perguntava quando os professores de Teoria Literária iriam mencionar o nome de M.H. Abrams e o clássico The Mirror and the Lamp (1953). Lamentavelmente, escassas vezes autor e livro foram apresentados para colaborar na interpretação de um prosador ou um poeta. Nova oportunidade surge agora para que outros professores não cometam o mesmo erro de omitir uma das mais poderosas interpretações do Romantismo, ainda que integralmente fundamentada na literatura e na crítica inglesas. O Espelho e a Lâmpada continua pertinente quase 50 anos depois de seu lançamento.

M.H. Abrams organiza sua investigação sobre a revolução estética do Romantismo a partir de uma ideia aparentemente simples: a de que o artista ocidental (em especial, o escritor) iniciou por volta do século 19 uma transição peculiar, na qual a obra deixava de ser um reflexo da natureza (um espelho) e passava a emitir a luz de uma existência singular (a lâmpada). Organizando seu livro em capítulos relativamente autônomos, o crítico norte-americano examina como o conceito da "arte como espelho" gradualmente alcança o de arte como "revelação da personalidade". Para tanto, são trazidas à discussão muito menos as teorias críticas e bem mais os prosadores e poetas ingleses que, enfim, protagonizaram uma significativa mudança de percepção, evidenciadas nas obras William Wordsworth (por exemplo, as Lyrical Ballads e seu importante prefácio) e Samuel Coleridge, entre outros.

A tarefa de M.H. Abrams não é pequena: trata-se de examinar a "formação da mentalidade crítica moderna", o que teria ocorrido nas primeiras quatro décadas do século 19. O capítulo A Imitação e o Espelho traz uma esclarecida exposição sobre a função da metáfora, "elemento inseparável de todo discurso", mostrando a sua força contagiante até mesmo quando se trata de descrever e informar. Em seguida, expõe os fundamentos da imitação e da mimese desde as concepções de Platão até as justificativas apresentadas por artistas da Renascença, que procuravam com empenho imitar a Natureza, na busca por uma verdade exterior a eles. Aqui M.H. Abrams trata do primeiro eixo de sua investigação, na qual a obra de arte, concebida como refletor do mundo, quer representar um ideal. As observações do crítico demonstram como, mesmo por meio da seletividade, se comporta o artista nessa etapa: "O próprio artista é muitas vezes imaginado como o agente que segura o espelho diante da natureza, e até mesmo a originalidade de um gênio é explicada em grande parte pelo fato de ele possuir entusiasmo e acuidade para inventar (no sentido básico de "descobrir") aspectos do universo e da natureza humana até então negligenciados, e engenhosidade imaginativa para combinar e exprimir elementos familiares de maneiras novas e surpreendentes."

Já em Literatura como Revelação da Personalidade, M.H. Abrams, depois de haver analisado com maestria aspectos da psicologia da invenção literária (como a noção de gênio e a imaginação associativa), apresenta as características dos textos que, a partir do início do século 19, estabeleceram a subjetividade como o maior produtor da orientação estética. A individualidade e o estilo singular (resultantes de um criador único) passam a ser valorizados como a expressão potencial do escritor. É nesse instante que William Shakespeare será revisto pelos escritores românticos, o que provocará a célebre controvérsia entre Schlegel e Schiller quanto a saber se o dramaturgo inglês era subjetivo ou objetivo. Samuel Coleridge foi um dos poetas fascinados pela questão e, assim como John Keats, considerava o autor de Hamlet um criador de características impessoais, comparável a um Deus: "Ele não é ele próprio - ele não tem self - ele é tudo e nada." A descrição e a análise apresentadas por M.H. Abrams sobre as questões da impessoalidade e da autoexpressividade são incontornáveis para o entendimento do Romantismo, bem como para o acompanhamento da ideia da criação como ato espontâneo e do autocontrole do criador. Algumas dessas ideias examinadas pelo crítico norte-americano repercutem nas análises sobre o imaginário criativo feitas por Luiz Costa Lima - recorde-se, em especial, os comentários do crítico brasileiro sobre os textos históricos de Jules Michelet.

O capítulo final de O Espelho e a Lâmpada, Ciência e Poesia na Crítica Romântica, exibe um paradoxo: tendo deixado a imitação para exteriorizar a sua subjetividade, o poeta agora enfrenta a representação da verdade transmitida pela ciência. Entre os românticos, discutia-se se a decomposição da luz, tal como empreendida por Isaac Newton em seus estudos sobre ótica, havia retirado o elemento poético da representação de um arco-íris. John Keats estava entre os que abominavam a verdade trazida pela investigação científica - e escreveu sobre o assunto em tom de lamento, como se a luz houvesse perdido todas as suas dimensões evocativas. James Thomson, por sua vez, estava entre os que acreditaram na possibilidade de a ciência fornecer mais material para o poeta, fazendo-o escapar do mistério em nome do intelecto. "Quase todos os teóricos românticos importantes comentaram sobre a disparidade entre a percepção imaginativa e científica", anota M.H. Abrams, embora observe que a maioria não considerava inerente o conflito entre ciência e poesia.

Uma conclusão geral sobre o livro impõe admitir que muitos dos questionamentos sobre a criação literária - o valor da espontaneidade contra o rigor do planejamento, por exemplo - estão vigentes e ainda provocam polêmica. Observe-se, na poesia moderna, como João Cabral de Melo Neto foi muitas vezes criticado pelo viés de uma crítica idealista romântica, ainda vigente em alguns críticos e poetas. Anteriormente, Francis Ponge fora atacado de modo semelhante.

A tradução do livro se mostra correta e faz considerável esforço em apresentar versões literais e didáticas dos poemas em língua inglesa. A revisão técnica poderia, contudo, ter sido mais cuidadosa em diversos trechos. A obra Defence of Poetry, de Shelley, por exemplo, foi traduzida como Defesa, Uma Defesa e Defesas, com variações de itálicos e aspas.

FELIPE FORTUNA É POETA E DIPLOMATA, AUTOR, ENTRE OUTROS TÍTULOS, DE ESTA POESIA E MAIS OUTRA (TOOPBOOKS)

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