Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

A arte dos brothers Campana

Retrospectiva reúne principais criações dos irmãos Fernando e Humberto desde os anos 80

Camila Molina,

03 de novembro de 2011 | 22h00

Há quem considere as obras dos designers Fernando e Humberto Campana surrealistas. Uma cadeira feita de bichos de pelúcia pode parecer infantil, diz Humberto, mas ela tem lá algo de "perversidade". A poltrona Banquete (2002) é como uma pequena selva de animais para se sentar. Já outra peça, Cabana (2010), remete às ocas indígenas, é feita de ramos de palha e temos de abrir essa cobertura para entrever - ou usar - as prateleiras de seu interior. Certo "choque estético", "benéfico", como já afirmou o crítico Marco Romanelli sobre as obras dos irmãos Campana, tornou-se a marca de originalidade que fez da dupla a mais famosa do design brasileiro. Foram anos para os irmãos criarem, enfim, uma "linguagem", cheia de ramificações e do uso de materiais inusitados.

 

Agora, as peças Banquete e Cabana entre quase 180 obras dos designers paulistas - diga-se, surrealistas também, como o sofá Jacaré, por exemplo, e outras nem tanto - estão reunidas em uma retrospectiva que apresenta a trajetória da dupla, a mostra Anticorpos - Fernando e Humberto Campana - 1989-2009, que será inaugurada amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo. "É uma exposição focada nos processos criativos", diz Humberto, de 58 anos. "Muito dos métodos vem das descobertas, dos erros - materializar o erro é o mais difícil, é uma obra que beira o acaso, mas tem engenharia", completa Fernando, de 50 anos. Consagrados pela experimentação e por unirem o aspecto artesanal na criação de suas obras, os irmãos afirmam carregar uma "curiosidade" que já os instigava desde a infância no interior paulista, nas cidades de Rio Claro e de Brotas.

 

 

Retrospectiva preparada pelo museu Vitra Design de Weil am Rhein, na Alemanha, a exposição foi inaugurada em 2009 na instituição alemã. Desde então, vem percorrendo a Europa e o Brasil - já foi apresentada em Vila Velha (ES) e em Brasília. Depois de São Paulo, Anticorpos seguirá para o Rio e mais adiante, ainda, para Argentina, Chile, EUA e Ásia. "A cada montagem a exposição se contemporaniza com novas peças", diz Fernando Campana.

 

Índio e astronauta. Quando criança, Humberto queria ser índio e seu irmão, Fernando, astronauta. "Gostava de andar descalço, construía brinquedos com mandacaru e queria construir outros objetos quando crescesse", recorda Humberto. Ele se mudou de Brotas para São Paulo na década de 1970 e foi em 1978 que criou, na capital paulistana, o Estúdio Campana.

 

Formado em Direito, Humberto sempre desejou, na verdade, ser escultor. "Nem me interessava por design e o que eu fazia era muito brega. Tingia uns balaios e vendia para o Mappin, para a Mesbla", conta Humberto. Fernando, que havia se formado em Arquitetura, conseguiu, em 1983, um estágio como monitor e assistente de montagem da 17.ª Bienal de São Paulo. Terminada a mostra, foi trabalhar com o irmão no Estúdio Campana. "O Humberto me chamou para fazer as notas fiscais", recorda o designer. "Mas o Fernando trouxe a modernidade", diz Humberto, que começou a criar, assim, com o irmão. Dessa maneira nasceu a dupla, os Campanas, como são conhecidos, e há anos eles mantêm seu estúdio no bairro de Santa Cecília.

 

 

A mostra Anticorpos, que tem curadoria de Mathias Schwartz-Clauss, do Vitra Design, trava como marco 1989, quando os irmãos realizaram a primeira mostra, no espaço Nucleon 8, na Vila Madalena. A exposição tinha um título provocativo, Desconfortáveis, com obras que remetiam a cadeiras e poltronas de ferro. "Não queríamos fazer cadeiras, mas esculturas, uma instalação, algo contrário ao período que passamos pela ditadura militar, de ver pelo erro, pelo torto", diz Fernando. Um conjunto desses trabalhos está na retrospectiva, entre elas, as cadeiras Negativo e Positivo (1988) e Martelo (1989).

 

A mostra, assim, se segue, mas não de forma cronológica. Concebida a partir de núcleos que destacam questões próprias da linguagem dos Campana - como o agrupamento de materiais (banais ou não), a fragmentação, as formas orgânicas, os planos flexionados, os objetos de papel, os objets trouvés, os nós, as varetas, os híbridos, os emaranhados de linhas -, a exposição ainda ‘pincela’ objetos pessoais dos designers e apresenta colagens de Fernando.

 

Sem dúvida, o marco da trajetória dos Campana foi a criação da poltrona Vermelha (1993). Em 1998, a marca italiana Edra decidiu produzir em série a peça feita com cordas de algodão tingidas. Fato que tornou famosa a obra e a dupla internacionalmente. A obra foi adquirida pelo MoMA de Nova York e, para se ter ideia, a Vermelha é vendida no Brasil pela Firma Casa por 12 mil. "É raro ver um design produzido em massa no Brasil, ainda não conseguimos", diz Humberto.

 

 

ANTICORPOS - FERNANDO E HUMBERTO CAMPANA - 1989 - 2009

CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, 3113-3651. 9h/ 21h (fecha 2ª). Grátis. Até 15/1. Abertura amanhã, 11h

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