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A arte de vestir memórias

O diretor Luiz Fernando Carvalho já disse mais de uma vez que o figurino não deve ser um adereço, mas uma segunda pele para o ator, montada sobre as várias camadas que podem compor um personagem. Por isso, em produções como as minisséries Capitu (2008) e Hoje É Dia de Maria (2005), o figurino começa a ser construído junto com os personagens, no complexo e depurado processo de preparação dos atores, que é uma das marcas do diretor. Nesse sentido, ainda nas palavras dele, a figurinista Beth Filipecki é a maior tradutora de seu trabalho. "Foi ela quem primeiro me deu a possibilidade de continuar pensando assim", anota ele, dono de uma visão muito particular sobre o vestir em cena.

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2010 | 00h00

Pode-se dizer que a parceria de Luiz Fernando e Beth, que começou ainda em Vida Nova, novela de Benedito Ruy Barbosa que se passava em 1945 e que a Globo levou ao ar em 1989, chegou ao ápice do preciosismo na série Afinal, o Que Querem as Mulheres?, que estreou no dia 11 (veja alguns destaques do trabalho em conjunto dos dois no quadro ao lado). O telespectador desavisado mal pode imaginar a quantidade de simbolismos que a roupa desfilada nos seus seis capítulos carrega. "O Luiz Fernando realmente provoca uma experiência sensorial sobre os materiais e as cores. O processo de trabalho dele é muito feminino", explica Beth. "Isso é muito raro, porque muitas vezes o diretor fica preocupado com outras coisas, e o figurino se resume apenas à aparência. No caso do Luiz, torna-se a tradução de camadas sobre camadas do pensamento dele a respeito da história, coisa que, muitas vezes, tento até simplificar."

Em Afinal..., Luiz Fernando joga com os clichês amorosos para contar a história de um estudante de psicologia - André Newmann, interpretado por Michel Melamed - que se dá muito bem na aventura de escrever uma tese de doutorado sobre a famosa pergunta de Freud a respeito dos anseios femininos. O curioso, mas não surpreendente, é que ao mesmo tempo em que se aproxima da alma de todas as mulheres, André se distancia do que quer a própria mulher, Lívia (Paola Oliveira). Entre todas as outras e a única mulher que amou de verdade, o herói patético termina o primeiro capítulo sozinho. "Estamos lindando ali com as memórias do André, e o que o telespectador vê são aquelas mulheres sob a ótica do personagem", detalha a figurinista. "Assim, nada ali pode ser chapado. O Luiz procura o invisível, a sombra."

Especialista em mulheres, André tropeça em estereótipos femininos - e aí está uma ironia delicada do diretor. Por isso, todas as personagens femininas da série - menos Lívia, a esfinge - são fragmentos do imaginário masculino, da mãe Celeste (Vera Fischer) às garçonetes da cafeteria que o protagonista frequenta. "A mãe é ligada ao mito de Édipo. Por isso, é sensual, usa decotes e, em alguns momentos, lembra Anita Ekberg em La Dolce Vita. As garçonetes são como pin-ups dos anos 50 e de todas as raças - uma negra, uma morena, uma ruiva", observa Beth.

Quando é provocada a destacar o que há de mais especial no guarda-roupa dessa série, a figurinista chega a se emocionar ao falar do vestido de noiva que Lívia usará no casamento com Jonas (Dan Stulbach) - a cena vai ao ar no quinto episódio, dia 9. "O André perdeu aquela mulher, seu grande amor, e praticamente a entregou de bandeja para o Jonas. A ideia, então, é que ela está embrulhada como um presente", teoriza.

O "embrulho", lindo demais, foi feito a partir de um corselet de Vivienne Westwood, que Beth comprou numa viagem a Londres em 1983. A execução ficou com uma das assistentes da figurinista, Thanara Schönardie. "A saia, de organza de seda, foi costurada no corpo de Paola, e o movimento do tecido, que foi todo enrugado, remete às obras de arte da personagem. A Lívia é uma artista plástica, não se casaria com um tomara-que-caia qualquer", anota Beth.

Como o corselet vintage, outras peças entraram em cena já com história pregressa. Luiz Fernando levou algumas sacolas de roupas dele mesmo para o set. Uma delas, por exemplo, é a camiseta rosada que Lívia usa no primeiro capítulo, quando discute com André em casa, no estilo boyfriend, o famoso "peguei emprestado do meu namorado". "Ele sai catando as memórias e traz para a equipe. E eu me sinto guardiã disso tudo", resume Beth.

QUEM É

BETH FILIPECKI

FIGURINISTA

Formada pela Escola de Belas Artes do Rio e com 30 anos de profissão, ela é reconhecida por seus cuidadosos trabalhos de época, como a minissérie O Primo Basílio (1988)

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