A arte de representar, por quem a entende

Vencer duas vezes o prêmio de melhor atriz em importantes festivais nacionais - o Redentor da Première Brasil, no Festival do Rio, e o Kikito de Gramado - dá a medida da excelente acolhida a Karine Teles e, por extensão, ao filme que ela, além de interpretar, coescreve, com o marido e diretor, Gustavo Pizzi. O curioso é que, no Rio, Riscado - é o título - competia com Além da Estrada, de Charly Braun, que ganhou o prêmio de direção (e também estreia hoje). Uma atriz - não se trata de uma aspirante, mas de uma atriz de verdade - espera o papel que lhe vai trazer reconhecimento. Enquanto isso, executa pequenas tarefas que incluem a representação - o uso de máscaras?

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2011 | 00h00

Em Gramado, Pizzi e Karine fizeram mútuas declarações de amor no palco do Palácio dos Festivais, enquanto iam acumulando seus Kikitos. Riscado recebeu os de melhor atriz, roteiro e diretor, mais o troféu referente ao prêmio da crítica. O filme começou a ser escrito por Karine "por necessidade", como ela disse no palco de Gramado. O marido, pai de seus dois filhos - o casal tem gêmeos -, não apenas deu força, como passou a escrever com ela. A diferença é que Pizzi já pensava visualizando o filme que gostaria de fazer, e fez.

Como Além da Estrada e A Fuga da Mulher Gorila, de Felipe Bragança e Marina Meliande, que também estreia hoje, Riscado é autoral, mas isso não significa que todos esses "autores" deem as costas ao mercado. "Esta coisa de não ligar para o mercado podia fazer sentido no tempo do Cinema Novo, quando havia a ditadura e o cinema era um ato de resistência. Os caras marcavam posições políticas e, aí, não fazia tanto mal que o público ficasse a reboque. Hoje, é suicídio não pensar em termos de mercado. E isso não significa ter de fazer concessões. Fizemos, Karine, Cavi Borges, nosso produtor, e eu, o filme que queríamos, pensando nas comunicação, mas sem concessões. Não tem nada em Riscado que se possa dizer - isso está ali para chamar público. Toda a construção dramática, as pequenas como as grandes cenas, visa a elucidar as personagens e a situação geral."

E o filme tem "reverberado", como Pizzi gosta de dizer. "Não só no Brasil, mas nas exibições no exterior, é bacana ver como as pessoas se envolvem com a história e a personagem. Tem gente que chora, veja só." Independentemente de ser sua mulher, Karine é uma atriz de recursos imensos, e é bela. "E eu a amo", diz o marido/diretor, que veio construindo esse filme na cabeça, antes que ele saísse do papel. "Em casa, a gente fez um quadro, um ideograma japonês, montado a partir dos signos referentes a três elementos - trabalho, talento e sorte. A gente ralou muito, e continua ralando para ter um lançamento decente. Talento... acho que também temos. Não sei se é sorte, mas a acolhida positiva e a forma como tanta gente torce pelo filme, isso tem sido reconfortante."

Ao contrário de Charly Braun, de Além da Estrada, que queria misturar atores profissionais e não profissionais - e terminou fazendo seu filme com um casal de amadores, no melhor sentido do termo -, Pizzi escolheu atores profissionais, mesmo para a figuração. "O público nem nota, mas às vezes um figurante lá no fundo da cena pode arruinar um plano. Nosso elenco é todo afinado, e todo mundo pegou junto. Foi um filme feito com muita paixão, e isso se vê."

RISCADO

Direção: Gustavo Pizzi.

Gênero: Drama (Brasil/ 2010, 85 minutos).

Censura: 10 anos.

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