A arte de recriar gênios

No CD The Art of Instrumentation, a Kremerata Báltica executa peças que dialogam com J. S. Bach

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h11

Como a vida musical hoje em dia - tanto ao vivo quanto em gravações de áudio e/ou vídeo - tem no passado sua principal motivação, os tributos se empilham em velocidade mais rápida do que novos projetos musicais. Num panorama desses, só se destacam os músicos inteligentes que reinventam o conceito de "tributo". É o caso do violinista letão Gidon Kremer e sua Kremerata Báltica, que participaram como orquestra residente do Festival de Kronberg de 2010. Ele fez uma homenagem ao pianista canadense Glenn Gould. E como Gould fez de Bach a sua razão de viver, Kremer convocou compositores contemporâneos para escreverem peças baseadas, estimuladas ou desafiadas pelo universo de Johann Sebastian Bach. Não havia limites, cabiam arranjos, variações ou novas criações.

Assim nasceu o CD The Art of Instrumentation. Em Kronberg tocam-se obras clássicas tradicionais, mas também há a intenção de despertar o interesse pelo mundo do som contemporâneo. Nasceu, assim, a fórmula de se convidar compositores vivos para criarem música estimulados pelos gênios de Bach e Gould. "Além das várias línguas maternas de meus colaboradores neste projeto - nascidos em países como Letônia, Rússia, Geórgia, Inglaterra, Hungria, Lituânia, etc. -, todos falam Bach, há séculos uma linguagem universal."

A música deste CD, em geral de excelente qualidade, tem duas qualidades que não costumam se juntar num mesmo concerto ou gravação: 1) é nova, inédita; e 2) como é estimulada, desafiada pela dupla Bach-Gould, sempre soa familiar, o que a torna capaz de atingir públicos mais amplos.

Em Dedication to J.S.B., o ucraniano Valentin Silvestrov, de 75 anos, que Kremer lançou para o Ocidente em seu Festival de Lockenhaus, escreve para violino e "sons de ecos", com Kremer, e Andrei Pushkarev ao vibrafone. A Aria das Variações Goldberg, de Georgs Pelecis, letão de 65 anos, refaz o tema, usando violino solista, vibrafone e orquestra de cordas, mas intromete o vibrafone para quebrar o discurso bachiano. E o prelúdio e fuga em ré menor do Cravo em versão para cordas do russo de Moscou Alexander Raskatov, de 59 anos, amplifica o caráter vertiginoso da peça.

O clima geral é de devoção, o que às vezes provoca submissão excessiva ao texto bachiano. Dos compositores convidados por Kremer, possivelmente o georgiano Giya Kancheli é o mais conhecido. Tem vários CDs pela ECM, incluindo trilhas sonoras. Está com 77 anos e em suas interessantíssimas Bridges to Bach, para violino solista, flauta, oboé, piano, vibrafone e cordas, privilegia as dinâmicas em pianíssimo e sutis combinações de timbres, chocando-se com fortíssimos inesperados.

As peças mais instigantes são a Ária das Variações Goldberg, do russo Victor Kissine, que mistura em sua partitura para violino solo, crotales, teipe e cordas trecho da célebre gravação de 1981 de Gould dessas variações; e After Gould, de Stevan Kovacs Tickmayer. Foi ele, em conversa com Kremer, que sugeriu o título do CD evocando A Arte da Fuga de Bach. Tickmayer está com 49 anos, nasceu na comunidade húngara da ex-Iugoslávia, e hoje vive na França. Coloca num caldeirão musicalmente atraente seis das mais conhecidas variações Goldberg e os intermezzi opus 19 e 47 de Arnold Schoenberg para piano, tudo para violino solista e orquestra de cordas. E, como Schoenberg, às vezes soa próximo de Bach.

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