A arte de recontar uma história

Maria Cristina Poli cria talk-show em que fala dos entrevistados usando fatos marcantes de uma época como referência

JOÃO FERNANDO, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2013 | 02h08

Se por acaso alguém vir Maria Cristina Poli no aeroporto, entrando em um táxi ou andando por uma praça, pode ter certeza: é trabalho. É que a partir de hoje, às 21h30, na TV Cultura, apresentadora vai aparecer fora da bancada do telejornal da emissora para comandar o Poli, programa de entrevistas em que ela acompanha seus convidados em diferentes ambientes e mostra ao público todas as etapas do processo.

Os cenários, que mudarão a cada edição, são sugestões dos próprios entrevistados, que podem ser políticos, artistas e até colegas de emissora. "A entrevista é um processo de sedução. Quando você está no ambiente da pessoa, já sai dez pontos na frente para conseguir coisas novas sobre ela", analisa a jornalista de 54 anos. Para ela, ir à casa ou a algum lugar de preferência do convidado é uma maneira de aprender sobre ele sem diálogos. "O jeito como a pessoa está vestida já é uma declaração sobre ela", disse ao Estado.

Diferentemente de outros talk-shows, Poli traça o perfil de cada ilustre por meio de uma linha do tempo da pessoa em paralelo a fatos marcantes de um momento histórico. A ideia veio depois de a apresentadora fazer edições comemorativas dos 25 anos do Jornal da Cultura. "Minha proposta foi chamar essas pessoas que passaram pelo noticiário e elas assistirem como estavam naquele momento da vida delas. Fiquei muito com isso na cabeça. O telejornal tem o seu tempo do hard news, era tudo tratado de forma mais econômica", relembra.

Poli optou por levar para o novo programa figuras que já passaram por muitas entrevistas, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o publicitário Washington Olivetto, a cantora Inezita Barroso e o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), que participa do programa de estreia. "São pessoas que já foram sabatinadas. Aí, lembrei das imagens de arquivo", conta a jornalista, que pede aos entrevistados para falarem sobre suas trajetórias em ordem cronológica. "Ao final, eles acham que foi algo diferente, pois uma hora eles se esgotam. A não ser que você espere o tempo passar para acumular novas histórias."

Na edição em que ficará frente a frente com FHC, Poli planejou um roteiro diferente. "Vou escolher trechos de declarações dele em diferentes momentos, ver o que mudou e confrontar. Além de ele dizer o que pensa, também tem o contraste visual", afirma.

Para tentar manter a espontaneidade, a apresentadora encontra o convidado com a equipe a postos. "Já vou microfonada e começo a entrevista. Primeiro, a voz dele é captada no meu microfone. Depois, colocamos o dele. É difícil ficar à vontade com uma câmera, luz e quatro pessoas", diz. Ela garante não ter tido problemas ao mostrar a intimidade dos entrevistados. "Eles sabem do meu histórico, que não sou invasiva."

Ao longo das entrevistas, como acontece no primeiro programa, Poli faz poucas intervenções e não se dirige ao público diante da câmera. "Eu faço escada para o entrevistado e para o telespectador. Não estou ali para mostrar que sei mais ou que sou íntima", defende. Ao conversar com Jean Wyllys no apartamento dele, sem trocar muitas palavras, a jornalista faz com que o deputado se emocione e revele lembranças de seu passado ao apontar detalhes da vida dele. "A essência do nosso trabalho é investigar."

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