A arte de provocar

Gala dirigida por Marina Abramovic causa protestos e reflexão em Los Angeles

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h07

A performer Marina Abramovic foi convidada para dirigir a gala anual do Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles (MoCA), um tipo de evento que a maior parte dos museus realiza anualmente para angariar fundos. A coreógrafa Yvonne Rainer indignou-se com o que viu e redigiu uma carta, também assinada pelo historiador de arte Douglas Crimp, que se espalhou viralmente na internet antes mesmo de chegar ao destinatário, Jeffrey Deitch, diretor do MoCA. Yvonne classificou a gala como uma "humilhação pública", "um espetáculo grotesco", e diz que a estética escolhida por Marina lembra o filme Saló, de Pasolini, mas sem a sua pertinência. Denunciou como "submínimo" o pagamento de US$ 150 e mais um ano de carteirinha de membro do museu. Agora, a polêmica se alastra.

Dessa gala participaram 750 doadores que, ao se acomodarem para o jantar, para o qual pagaram US$ 2.500, se depararam com duas surpresas, no lugar dos tradicionais enfeites do centro das mesas. Nas mesas redondas estavam corpos nus deitados e cobertos por ossos (refazendo uma performance de Marina de 2002), e nas mesas retangulares, apenas as cabeças de dezenas de performers, que ficavam ajoelhados em cima de um disco giratório. As instruções que haviam recebido era para que mantivessem contato visual com os comensais durante todo o tempo de degustação do menu, e fossem virando lentamente, de modo a ir encarando cada um deles. Como sobremesa, foram servidos bolos em tamanho natural de réplicas dos corpos nus de Marina e da cantora Debbie Harry, convidada para a gala.

Detalhe importante: o convite pedia que todos viessem com capas brancas de laboratório. Segundo Marina, a proposta era a de realizar "um gesto democrático, pois todos pareceriam iguais e ninguém saberia quem vestia Chanel ou Yohji Yamamoto".

O Los Angeles Times, no dia 13, entrevistou alguns performers, que não se queixaram de qualquer tipo de dano, e também alguns convidados, cujas opiniões divergiram: uns não reconheceram essa ação como artística, outros a endossaram integralmente.

Foi a primeira apresentação da performer na cidade. Realizou-se uma audição e das 800 inscrições online, 200 pessoas foram selecionadas e, delas, 85 conseguiram o trabalho. "Todos sabiam que minhas obras testam limites físicos e mentais. Eles não estavam sendo usados", declarou Marina ao jornal.

Vindo de quem vem a acusação - afinal, Yvonne Rainer é uma das pioneiras da arte contemporânea nos EUA, cuja carreira é reverenciada internacionalmente -, vale a pena refletir sobre a complexidade do que está sendo posto em questão: o trabalho de uma artista (Marina Abramovic) não foi lido por outra (Yvonne Rainer) na sintonia pretendida pela autora - o que, aliás, não se diferencia do que acontece, e com muita frequência, na relação do público com esse tipo de obra.

Fazer com que os ilustres participantes de uma noite de gala jantem olhando e sendo olhados por uma cabeça que se mexe lentamente ou para uma "natureza-morta" composta por um corpo nu sob ossos falsos produz duas reações: causa desconforto e transforma todos em performers daquela cena; inclui os financiadores da arte e as celebridades na própria obra. E de uma forma quase didática, expõe a situação da qual o próprio jantar tratava. Ali, todos estavam envolvidos com a questão do financiamento da arte, que foi simplesmente colocada na mesa como adorno da refeição.

Mas o artista precisou ficar ajoelhado por 3 horas (a duração da performance e do jantar) ou nu, debaixo dos ossos - e essa forma de exposição soou como abuso de uma subserviência para Yvonne Rainer. Mas quanto vale participar de uma performance de Marina Abramovic, já que ela vira curriculum?

Marina contesta, explicando que criou uma oportunidade de "não falar e não reagir porque se você cria esse tipo de espaço, ele tem um centro energético que é capaz de mudar a dinâmica do lugar". Pode ser uma hipótese forte demais para esse tipo de situação, mas o bate-boca nos ajuda a pensar, por exemplo, na relação da criadora com os seus intérpretes como um exercício de poder, nas formas de produção e difusão da arte contemporânea, na posição do fruidor da obra de arte. E não teria sido essa a mais interessante das provocações que uma gala dessas poderia produzir?

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