A arte de pintar com palavras

Vicente Van Gogh, Goya e Piero della Francesca são personagens de Pierre Michon em Senhores e Criados

LEDA TENÓRIO DA MOTTA, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Todas as narrativas deste segundo volume de Pierre Michon que nos chega em tradução brasileira, aliás impecável, giram em torno de pintores. Não quaisquer pintores mas, por ordem de entrada em cena, Van Gogh, Goya, Watteau, Piero della Francesca e o paisagista Claude Lorrain. Em todas elas, um narrador fabuloso - produto da mente de um escritor que parece ter lido e gostado das Vidas Imaginárias, de Marcel Schowb, das Moralidades Legendárias, de Jules Laforgue, e da História da Eternidade de Borges - procede como se lhe tivesse sido dado presenciar momentos da existência destes gênios. Que, a propósito, viveram humildemente, sem glória e na dúvida sobre o seu próprio valor, antes que se tornassem o índice mesmo da arte, seja como for que a possamos definir. Aliás, o autor pergunta-se exatamente, por isso: o que é a arte.

Com riqueza de detalhes que deliram a partir de bases reais, somos assim introduzidos na casa de Joseph Roulin, aquele carteiro de Arles que Van Gogh pintou, um dia, em uniforme azul-vincentiano e quepe dos Correios. Tal retrato, de 1888, teria ficado na parede de uma cozinha do interior da França, não fosse a inesperada descoberta que se faz, em Paris, de que o sujeito que o realizou, antes de "ter desmiolado", era o que chamamos um autêntico criador. Somos também levados àquela tarde de maio de 1778 em que Francisco Goya adentra o palácio de Carlos IV, na esperança de tornar-se artista da corte espanhola, deparando-se, nas escadarias, com As Meninas, de Velásquez, obra-prima pela qual se sente interpelado, ao mesmo tempo em que se diz que não tem por que temê-la. Passamos a privar da intimidade de um cura da cidadezinha de Nogent, na província francesa, que, abordado, de sopetão, numa estrada, por Watteau, consente em ser seu modelo, e termina emprestando sua cara a um Pierrô. Assistimos, ainda, a Piero della Francesca evoluindo entre campônios e aprendizes que não saberão segui-lo, por entre as campinas da Toscana.

Se já é notável que uma literatura de primeiríssimo plano como a de Michon se demore tanto na pintura - repetindo os modernos, que, de Baudelaire a Francis Ponge, buscaram entender-se através do Outro -, esta não é a única razão pela qual temos tão fortemente a impressão de que o autor é o que de melhor a prosa francesa tem a oferecer no último quarto de século. Aliás, em paralelo à impostura de Michel Houllebecq, que a tem representado comercialmente, pelo mundo, ao passo que mal se sabe do ficcionista espesso e low profile de Vidas Minúsculas (1985).

De fato, há muitos outros jogos sofisticados aqui em ação. Estamos diante de um escritor que, por estar tão sinceramente abismado com grandes mestres e suas verdadeiras vidas, refaz, por personagens entre reais e imaginárias interpostas, todas as interrogações essenciais acerca da criação artística. O título Senhores e Criados parece resumir sua dialética. De tal modo que, lendo estas fantásticas aventuras, tão bem tecidas que parecem a lavra de um perfeito ficcionista, recuamos alguns passos para cá ou para lá da emoção que nos causa a humanidade dos protagonistas. E ficamos nos perguntando não só se o pintor é mais verdadeiro que o modelo, ou se é a pintura que comanda a natureza ou a natureza que comanda a pintura, mas o que é que acontece, mesmo, de decisivo, a horas tantas, para que o aprendiz de Velásquez se transforme, finalmente, em Goya.

LEDA TENÓRIO DA MOTTA, PROFESSORA DA PUC-SP, É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE PROUST - A VIOLÊNCIA SUTIL DO RISO (PERSPECTIVA)

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