A arte de Hélio Eichbauer, cenógrafo de Chico Buarque

Para o show "Carioca", de Chico Buarque, em cartaz em São Paulo, a silhueta da cidade é vista como cartão-postal ou ao contrário, como no subúrbio. Para Caetano Veloso, palavras em inglês e português se entrelaçavam no show "A Foreing Sound". "A Flauta Mágica", de Mozart, dirigida por Moacyr Góes, teve cenários construtivistas e "Porgy and Bess", insinuava os casebres do Harlem. Estes são trabalhos do cenógrafo Hélio Eichbauer que comemora 40 anos de carreira com exposição que se abre nesta quarta-feira ao público, no Centro Cultural dos Correios. Lembrar sua trajetória é contar o que aconteceu nos palcos brasileiros nas últimas quatro décadas."É motivo de orgulho e alegria porque é difícil conseguir se manter em qualquer atividade por tanto tempo", comentava Eichbauer na semana passada quando montava a exposição. Alguns dos seus cenários estão reproduzidos em maquetes ou fotos. Outros estão lá para o público ver de perto, como o telão do show "O Estrangeiro", de Caetano Veloso, em 1989. "A partir daí foram 12 concertos. Hoje, a música é minha atividade predileta porque é a que mais me projeta. Um cenário para Adriana Calcanhotto, Caetano ou outro músico viaja o Brasil inteiro e também vai ao exterior. ´O Estrangeiro´ chegou até o Japão".Este cenário, a Baía de Guanabara num desenho naif enquadrada por manchas de sangue, fez história. Foi criado para O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, dirigido por José Celso Martinez Corrêa, em 1966, e considerado o capítulo inicial do tropicalismo. Na época, Eichbauer vinha de Praga, na antiga Checoslováquia, onde estudara com Josef Svoboda, o papa da cenografia no século 20. Ele foi como estudante de filosofia, bebeu da cultura centenária que se debruçava sobre a modernidade e, na volta, passou por Cuba, num estágio de um ano."Eu tinha a formação renascentista dos anos 60 e já pintava influenciado pelas cores da paisagem brasileira. Em Praga aprendi a usar os cinzas e só recuperei a cor em Cuba", lembra o cenógrafo que, recém-chegado ao Brasil, foi também ensinar na Escola Nacional de Belas Artes e Escola de Artes Visuais do Parque Lage que acabara de ser fundada. "Mais que cenografia, queria falar de filosofia em aulas-show, que é indispensável para o trabalho que realizo."Os diretores concordam. Eichbauer não se restringe a desenhar a cena, influi no espetáculo inteiro. Atrizes como Renata Sorrah, que atuou ao lado de um de seus cenários em "Grande e Pequeno", de Boto Strauss, dirigido por Celso Nunes, confirmam sua contribuição para o clima da encenação. Caetano garante que muitas idéias de um show passam pelas propostas de Eichbauer.Seu método é meticuloso, a ponto de guardar tudo o que se publicou sobre ele nos últimos 40 anos, suas aulas na Escola de Belas Artes e no Parque Lage e os esboços dos cenários, coloridos a lápis. "No teatro, parto da palavra, encho a prancheta de livros sobre a peça e, depois de absorver as informações, esvazio e começo pela planta baixa do palco, já que ali se define o lugar de cada elemento", ensina. "Na ópera, a arquitetura do teatro me influencia. O que atrai na ópera é que nada é natural. Já com música popular é preciso esvaziar o palco e deixar espaço para os músicos, o som e as palavras. Aliás, o cenário nunca deve ocupar o espaço das idéias, tem de deixá-las aflorar ao público."Na mostra do Centro dos Correios, o leigo se encantará com as maquetes, miniaturas perfeitas de espetáculos antológicos como "Antígona" (de Sófocles, dirigida por João das Neves), "Mandrágora" (de Maquiavel, dirigida por Paulo José), "O Balcão" (de Jean Genet, direção de Martim Gonçalves), da ópera "O Escravo" (de Carlos Gomes, dirigida por Fernando Bicudo) e "Escola de Bufões" (de Michel de Ghelderode, dirigido por Moacyr Góes), todos encenados no Brasil desde os anos 60. Há ainda os telões do já citado "O Estrangeiro" e de "Noite dos Assassinos", formando um contraste interessante, já que o primeiro é uma overdose de cores e o segundo explora só os cinzas.O catálogo tem muitas reproduções, um textos da crítica Mariangela Alves de Lima, do Estado, esclarecendo por que a arte de Eichbauer vai além do desenho do espaço cênico, outros dois de Fernando Peixoto, sobre a evolução do artista, e um longo poema de José Celso Martinez Corrêa, elogiando o parceiro e amigo. A mostra fica no Centro Cultural dos Correios até 22 de outubro e neste período Eichbauer fará palestras sobre seu ofício. A única ausência notável é o telão original de "O Rei da Vela". "Está em Nova York, para a exposição sobre o tropicalismo, mas o que está aqui dá conta da minha carreira."

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