A arte de envergonhar políticos

Rude Britannia flagra os últimos 300 anos da natural habilidade britânica para a sátira e caricatura

Will Self / THE GUARDIAN, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

Algumas semanas atrás, uma famosa e bela jovem romancista viu-se, infelizmente, sentada ao meu lado num jantar, não fosse isso, impecável no norte de Londres. Lamentando o estado das artes britânicas em geral, ela espinafrou nossa indubitável proeza satírica: "Para nós é fácil, é o que fazemos - nós simplesmente levantamos um lado do traseiro, e lá sai ela." Na verdade, não estou certo de que ela falou dessa forma, mas foram palavras com esse sentido. Pode ter sido por falta da resposta pronta na hora certa, mas dias depois eu pensei em por que deveríamos nos envergonhar por nossa habilidade para ridicularizar, zombar e em geral descompor.

Uma exposição de arte satírica e cartuns, a Rude Britannia, aberta até 5 de setembro na Tate Britain, em Londres, oferece ampla confirmação não só de quão profundamente a raiz principal desse gênero está enterrada no solo britânico, mas quão crucial sua vigorosa propagação é para a nossa constituição - política e psicológica - enquanto seu sólido toldo protegeu, por séculos, nossas liberdades civis tais como elas são.

Rude Britannia adota uma abordagem amplamente narrativa e histórica da sátira gráfica e oferece subseções para tratar do político, do dissoluto e do absurdo. Começando em meados do século 16, com impressos alegóricos e emblemáticos cheios de texto, a mostra avança pela grande explosão obscena do século 18 - Hogarth, Gillray, Rowlandson e cia. - para chegar à expansão da imprensa na era vitoriana e a concomitante democratização da sátira. Aí ela apresenta figuras decadentes como Beardsley, antes de incluir os célebres caricaturistas do século 20 - Low, Scarfe, Steadman - chegando enfim ao presente com generoso espaço concedido a artistas "finos" como John Isaacs, Sarah Lucas e David Shrigley.

A inclusão desses últimos é justa: a arte satírica britânica começa com adaptações de estilo por pintores que se consideravam sérios, e termina depois de fechar um círculo. De Leonardo da Vinci, passando por Wenceslaus Hollar, a tradição de exagerar fisionomias humanas para expressar características subjacentes foi capitaneada por William Hogarth, mas, como suas 1.743 Personagens e Caricaturas deixam claro, a intenção depreciativa - ou não - está no conluio entre a mão do criador e o olho do espectador. Ela continua presente. Sempre considerei as obras dos chamados Young British Artists (YBAs, os jovens artistas zangados) dos anos 1990 como cartoons - no bom sentido: imagens fortes, interessantes, em duas e três dimensões.

O tubarão em formaldeído de Damien Hirst, The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living (A impossibilidade física da morte na mente de alguém vivo) vem à mente, mas Rude Britannia tem outras obras em exposição como Chicken Knickers (literalmente, "calcinha de galinha) de Lucas e I Can"t Help the Way I Feel (literalmente, "não posso evitar o jeito como me sinto") de Isaacs, que captam com igual vigor esse impulso satírico.

Galinha. A primeira é de fato uma galinha depenada fixada na frente de uma calcinha (a mulher está dentro dela) e me pareceria adequado associar a imagem ao notório Cunnyseurs de Thomas Rowlandson, uma estampa muito reproduzida do início do século 19, que mostra quatro homens misturando perversão com estética. Quanto à última, é uma figura de látex de Isaacs de uma obesidade tão pavorosamente mórbida que ele - ela? A coisa? - poderia servir também como um grotesco bacanal social do século 18 ou, mais particularmente, como um modelo para as nádegas nuas que bajuladores de peruca tentam beijar na seminal Idol Worship ou Way to Preferment, uma estampa de 1740 que marca a chegada à cena britânica da caricatura feita só para desmoralizar figurões. Causadas pela ansiedade com a administração de Walpole e o ofuscamento do governo monárquico pelo parlamentar, as técnicas do criador anônimo de Idol podem ser vistas até hoje, utilizadas por mestres modernos como Martin Rowson e Steve Bell.

Para mim, o pressuposto de que a sátira é essencialmente jovial e bizarra é a primeira vítima dessa excelente reunião de obras. Os curadores de Rude Britannia afirmam no catálogo que pode ser difícil para nós modernos compreender o que os espectadores dos primeiros caricaturistas e cartunistas políticos encontravam neles para rir, mas essa é uma visão equivocada da arte satírica, que pode ter humor como um subproduto, mas cuja principal intenção é tão séria como qualquer outro gênero. Não foi coincidência o fato de que, no século 18, a sátira prosperou com o estabelecimento da moderna democracia parlamentar, nem que ela afrouxou no fim da era vitoriana, durante a hipnose em massa do chauvinismo imperialista.

E. B. White disse da revista Punch, lançada em 1841, que ela era "tão britânica como a abobrinha". Mas apesar de o termo "cartoon" dever sua origem a uma peça fina e séria que saiu no início de Punch - Cartoon n.º 1, Substance and Shadow, de John Leech - a publicação logo degenerou para fabricar o tipo de extravagância que a própria rainha Vitória podia suportar.

Mas tentar envergonhar políticos com caricaturas sempre foi um negócio arriscado. A experiência do artista com frequência confirma o velho provérbio de que a "política é show biz para gente feia", porque - como Ralph Steadman me sugeriu certa vez: "Por mais corruptos e lamentáveis que você os faça parecer, eles ainda ligam querendo comprar a coisa para pendurá-la em seu banheiro."

Steadman ficou tão estarrecido com esse narcisismo do grotesco, que nas eleições de 1997 ele se recusou a desenhar qualquer parte de políticos exceto suas pernas e - ecos de alegorias do século 16 - eu fui chamado para fazer as extensas legendas. Entretanto, a queixa de Steadman não é nova - George IV era um entusiástico colecionador de Gillray e Rowlandson - apesar de eles com frequência o ilustrarem com toda a sua corpulência.

Linha. Outros laureados artistas me parecem mais tendenciosos: David Low, representado nesta exposição por uma cartoon mostrando Aldous Huxley e Dick Sheppard (clérigo anglicano e fundador da Peace Pledge Union) aterrorizando Hitler e Mussolini com suas palhaçadas, é cultuado como "o maior cartunista britânico do século 20".

Tenho minhas dúvidas: nunca gostei da linha de Low, e mais que em qualquer outra forma de arte gráfica, a linha é crucial na caricatura. A de Low é muito suave para o meu gosto, e não estou seguro de que ele não é alçado acima de seus pares precisamente por causa de sua posição inicial contra o apaziguamento - tornando-se assim a versão caricatural de Churchill (embora se possa dizer que este sempre foi o seu melhor exagero cômico).

Rude Britannia não é inteiramente política, porém. Há espaço na exposição para impertinentes como Aubrey Beardsley e Donald McGill, que - em seus modos muito divergentes - exaltaram ambos o potencial cômico da ereção masculina naqueles tempos distantes do Viagra. O que nos traz à questão irritante do sexo: os curadores de Rude Britannia admitem deploravelmente sua masculinidade coletiva e tentaram representar artistas mulheres trabalhando no modo satírico; entretanto, com as notáveis exceções de Sarah Lucas (e Sue Webster de Webster & Noble), há grande evidência aqui de uma persistente supremacia satírica masculina. Falta a essas senhoras britânicas do ofício que tendem para a ponta irônica do espectro, e sem querer denegrir o fino trabalho de Posy Simmonds ou Beryl Cook, a mordida oferecida por tipos mais caninos. Pessoalmente, não vejo isso como motivo de desespero. Ao contrário, na medida em que a sátira acompanha o poder político e econômico, só se pode esperar que ela deva ser praticada por gente que recusa o meio que possui essas coisas: quando tivermos tantas mulheres parlamentares e diretoras de empresa quanto homens, teremos então uma paridade satírica.

Pode-se argumentar que estou sendo míope e os curadores de Rude Britannia também. Há um sentido muito importante de que a arte gráfica durável é determinada por formas de aceitação não óbvias. Um caso em questão é a enorme pintura emblemática de George Cruikshank, A Adoração de Baco (1860-62), que faz alegoria dos efeitos socialmente nocivos do álcool. Cruikshank emprega meios satíricos para fins valiosos, mas essa ideia nunca foi reverenciada, mesmo que seja em apoio ao feminismo ou à temperança (estreitamente entrelaçados no século 19).

De mais a mais, há muita arte gráfica satírica que, em razão do seu modo de produção, é necessariamente efêmera. Isso é verdade para os folhetos xilografados que chegaram até a era vitoriana, quando agitadores radicais usavam métodos primitivos de produção para manter os preços acessíveis aos trabalhadores. É verdade também para a obra de grafiteiros como Banksy (importante ausência da mostra), cujas maiores criações são situacionais. Seria impossível "mostrar" o estêncil do ataque das Casas do Parlamento por dois ratos montados numa granada lançada por foguete, de Banksy, cujo efeito depende muito do fato de ter sido gravada com estêncil na margem do rio oposta ao Parlamento.

Pode-se argumentar que há algo de datado numa exposição como Rude Britannia: ela pode mostrar o cenário completo de uma tendência na arte britânica. Afinal, se o estilo satírico começa com pintores naturalistas exagerando a mão, então seguramente quando gente como Jake e Dinos Chapman, ou Grayson Perry - que são mais que estabelecidos no mundo das belas-artes - têm suas obras concebidas para galerias redefinidas como satíricas, o círculo pode ter se fechado.

Piadas internas. As primeiras obras de Hogarth e Reynolds eram inicialmente "piadas internas". A paródia da Escola de Atenas de Rafael, de Reynolds, embora exiba turistas decadentes amontoados em salões da Itália, propiciou-lhe a entrada naquele mesmo poder de compra dos turistas. O mesmo poderia ser dito de Chapman e Perry, cujos trabalhos são extremamente caros.

É possível que as partes mais grosseiras e subversivas de Rude Britannia não estejam disponíveis na galeria e ocupem o zootrópio demente da web. Bem, não sou nenhum grande fã da web - ela certamente não faz para a arte gráfica o que a meia-tinta fez - mas se tem um papel a desempenhar, então o satírico pareceria ideal, exigindo como faz uma resposta instantânea combinada com uma acessibilidade quase universal.

O que nos traz de volta ao confronto com nossa jovem novelista: pode ser que a sátira seja fácil demais para nós britânicos; pode ser que seja isso que fazemos, mas tente imaginar como seria pararmos de fazer isso? A melhor definição dos russos que já ouvi foi: imagine o irlandês com um império. Isso sugere a melhor descrição possível do holandês: imagine o britânico... sem sátira. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

QUEM É WILL SELF

JORNALISTA E ESCRITOR

William "Will" Woodard Self é jornalista e escritor nascido em 1961, em Londres, que se tornou conhecido pela autoria de romances satíricos e fantásticos. Ele tem publicados no Brasil os livros Os Grandes Símios (2006) e A Guimba (2010), entre outros, e cita Salman Rushdie, J. G. Ballard, Kafka e Martin Amis como as suas maiores influências.

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