A arte de desaparecer

Exposição em Ferrara, sua cidade natal, ajuda a compreender universo que inspirou Michelangelo Antonioni

FRANCISCO FOOT HARDMAN , ESPECIAL PARA O ESTADO, FERRARA, ITÁLIA, FRANCISCO FOOT HARDMAN É , PROFESSOR DA UNICAMP, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2013 | 02h07

Um ano faz, como diriam os italianos. As marcas do terremoto que atingiu duramente a região da Emilia-Romana ainda se fazem notar. Em Ferrara, a torre mais alta do Castello Estense está sendo reconstruída. Esta fortaleza imponente erguida no final do século 14 e até hoje circundada por poço de água e ponte levadiça, antiga sede do Ducado da família Este, domina o centro histórico, é o portal que transporta o visitante da Idade Média ao Renascimento, jogando diante dos olhos o complexo sentido de contemporaneidade que esta paisagem nos exige. Carpas passeiam nas águas escuras. Mas além da torre quebrada, rachaduras nas volumosas paredes são visíveis, insinuam-se como desenhos abstratos nos blocos de pedra de aparência tão sólida.

Como qualquer "cidade histórica", Ferrara mostra-se generosa com o tempo humano. Guarda suas obras, mas delimita o escopo de seu poder. Assinala o confinamento do Castello, dos becos labirínticos, do gueto judeu, da muralha que circunda seus limites. Mas se apresenta, também, despojada, em seu desenho urbano moderno, projetado pelo artista Biagio Rossetti entre o final do século 15 e início do 16, nos planos abertos e amplos que tantos traços deixaram na cinematografia de Michelangelo Antonioni, o movimento lento, regular e extenso até onde a vista alcança, que pode revelar e esconder pessoas, histórias, dramas. São as horas mortas em que a palavra cede passo ao protagonismo da paisagem. Aqui viveu e se formou esteticamente o grande cineasta. Voltamos a Ferrara para reverenciar sua arte e compreendê-la um pouco mais em sua densidade e mistério - em seu aparente deslocamento tão perfeitamente inserido nesta cidade, em cada ponto de sua estranheza e beleza.

Em 2012, celebrou-se o centenário de seu nascimento. Mas somente neste ano a prefeitura daqui, em conjunto com a Fundação Ferrara Arte, a Galeria de Arte Moderna e Contemporânea de Ferrara e a Cinemateca de Bolonha, organizaram a belíssima e abrangente mostra O Olhar de Michelangelo Antonioni e as Artes, que se conclui hoje, sob curadoria de Dominique Païni, pesquisador da história do cinema. A exposição não poderia encontrar melhor lugar em Ferrara do que nesse requintado e sóbrio Palazzo dei Diamanti, construído pelo citado Biagio Rossetti.

Ao privilegiar as paisagens "fundadoras" da arte de Antonioni, o curador parece ter acertado em cheio um núcleo temático e imagético forte em sua obra. São aqueles cenários com neblinas e desertos que se repetem em seus filmes. E, na pintura, que também praticou, é essa sua incrível série das "montanhas encantadas", produzidas a partir de sucessivas composições em desenho, aquarela e ampliação fotográfica, bem ao modo, aliás, do protagonista-fotógrafo em Blow-up. Cujo vermelho dominante, que sobressai também no último desenho a lápis de cera que fez, num caderno, poucos dias antes de falecer, em 2007, parece conectar-se com a paisagem melancólica e degradada, entre sentimentos e cores quentes, de O Deserto vermelho. Para não falar do vermelho em seus documentários asiáticos, Chung Kuo - primeiro longa rodado por um ocidental após a revolução, para a televisão estatal italiana e a convite do governo chinês, que depois iria censurar o filme e tentar inviabilizar sua difusão - e Khumba Mela, sobre a grande festa sagrada no Ganges, na Índia.

Ao nomear a terceira seção da mostra, dedicada a seus primeiros documentários, de Realidade, o curador parece reduzir e desqualificar a realidade de paisagens tão tangíveis de suas neblinas e desertos, de Cronaca Di Un Amore (Crimes da Alma, 1950) aos radicais Zabriskie Point e Profissão: Repórter. Ou bem o conceito de realidade pode ser estendido a toda a sua obra, e mais particularmente aos voos imaginários da arte de desaparecer numa ilhota vulcânica perdida no arquipélago das Eólicas (como em A Aventura), ou da metáfora fisicamente palpável de O Eclipse, filmado neste bairro fantasmal que é o conjunto administrativo construído pelo regime fascista na periferia de Roma, ironicamente chamado EUR, ou bem ele se torna obsoleto. Para não falar da arquitetura moderna dessa Milão "desertificada" e noturno-vazia de A Noite. Tudo é real, sobretudo a atmosfera irreal. Seja no tema do desaparecimento repentino de personagens que não significa a morte, nem necessária nem imediatamente, mas antes a radicalização do próprio ato destrutivo-criador, seja no cenário preferido de fugas, simulações e naturezas mortas, Antonioni dialoga fortemente com a arte moderna e contemporânea, desde o artista bolonhês Giorgio Morandi, amigo por cuja obra o cineasta era fascinado, até os norte-americanos Pollock e Rothko, este último de que também se aproxima, ainda em 1962, e em cujo abstracionismo cromático se inspira dois anos mais tarde para realizar O Deserto Vermelho.

Rio. Mas é certo que seu primeiro filme autoral - havia começado a carreira como assistente de Marcel Carné na França, depois de se graduar em Economia e Comércio em Bolonha e viver alguns anos em Roma - deixará marcas para o todo o sempre em seu modo de olhar, para além da voga do neorrealismo. Seu registro documental Gente del Po, rodado com muita dificuldade em plena 2ª Guerra, é digna amostra daquela vertente, ao denunciar a extrema pobreza dos pescadores e ribeirinhos do delta do rio Pó. É uma região que circunvizinha Ferrara, até cerca de 60 quilômetros à frente, no encontro das águas com o mar Adriático. Ora, Ferrara é atravessada pelo Volano del Po, um dos afluentes, ou melhor, braços formadores do delta do grande rio. Antonioni morou numa casa, em sua primeira juventude, bem ao lado da beira-rio. Na paisagem então inóspita e selvagem dessa parte muito pobre e esquecida da Emilia-Romana, fixaram-se algumas figurações da planície úmida e larga, da ambiguidade da água salobra, entre rio e mar, que depois buscará em viagens mais distantes, sonhando em filmar na Amazônia, atraído pela Sardenha, voltando sempre às ilhas Eólicas.

Em seu interessante acervo de objetos e obras pessoais, encontra-se um livro pouco conhecido de um amigo e escritor ferrarense, Giorgio Bassani, que no Brasil sempre poderá ser lembrado pelo romance O Jardim dos Finzi-Contini, adaptado num grande filme homônimo por Vittorio De Sica em 1970. Bassani, ele próprio de origem judaica, teve que publicar seu primeiro livro de contos, Una Città di Pianura (Uma Cidade de Planície) sob o pseudônimo de Giacomo Marchi, devido à interdição imposta pelas leis racistas de Mussolini. É este exemplar raro que Antonioni guardava, quase clandestinamente, naqueles anos de sua formação, que eram também os do fascismo e da guerra. A melancolia de uma paisagem opressiva - "dentro das muralhas" -, como mais tarde Bassani renomeará algumas dessas narrativas ferrarenses em nova versão, marcam o imaginário de seu amigo e cineasta, apenas quatro anos mais velho. Essa mesma atmosfera se propaga em Crimes da Alma e O Grito de forma evidente. O resto são, em geral, paisagens de fuga.

Haveria muito que dizer sobre estas afinidades literárias e artísticas. Antonioni foi homenageado em vida por grandes artistas e críticos, de Fellini e Scorsese a Cortázar e Barthes. Sem falar de Wim Wenders, que assinou com ele a direção de Além das Nuvens, rodado em sua Ferrara natal, quando o mestre já estava muito debilitado por um derrame sofrido nos anos 80. Cortázar lhe escreve entusiasmado pela adaptação libérrima de seu conto As Babas do Diabo em Blow-up. Respondendo a um interesse manifestado por Antonioni, explica-lhe a relação entre O Perseguidor e a figura de Charlie Parker, expondo a paixão de ambos pelo jazz. Já em 1976, envia-lhe de Paris um cartão com uma foto sua ao lado da placa de Zabriskie Point, o ponto mais baixo da depressão desértica do Vale da Morte, entre Califórnia e Nevada, por onde viajara. A lista de correspondentes é vasta, e cheia de boas surpresas. Como a longa carta que lhe envia de Argel, em 1971, a militante dos Panteras Negras Kathleen Cleaver, já então no exílio, e que havia tido uma bela aparição em Zabriskie Point.

Mas eu retorno a caminhar ao léu por Ferrara, tentando entender os sinais do terremoto. A senhora Rita, que dirige a antiga trattoria Da Francesco, veio com sua família para a cidade depois de perder a casa, integralmente, numa pequena cidade vizinha. Idem, Elena, que serve o café da manhã no hotel em que me hospedo. Ela e a mãe ficaram desabrigadas.

Viajo até o Delta do Pó e chego à Sacca di Scardovari, reentrância imediatamente antes da foz, onde uma cooperativa de pescadores se instalou, e de onde se pode avistar, logo à frente, o mar aberto. Paisagem não muito distante daquela que Antonioni registrava há cerca de 70 anos. Volto à cidade. Está vazia. É noite. As luzes amarelas incidem no vermelho das paredes. Chuva fina. Se o mestre estivesse aqui, poderia começar a rodar. Antes de qualquer angústia ou palavra, a paisagem. E só ela.

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