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A arte de corrigir o mundo

O bom crítico primeiro entende o que você disse, lê e escuta de fato e, depois, corrige

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2017 | 02h00

Hoje pensei nos escritores, jornalistas, blogueiros, professores e muitos outros que trabalham com a exposição de suas opiniões, valores e conhecimentos. O mundo apresenta para todos nós uma dupla face: uma vontade enorme de opiniões e uma rejeição quase imediata a elas. Os formadores de opinião vivem em meio a esse desejo estranho de acolher e repelir. Não seria tão grave se uma parte que demanda acolhesse e a parte que não demanda rejeitasse. Muitas vezes, a mesma parte demanda e rejeita. 

Vivemos uma geração de borda e, na fronteira atual, uma parte da ideia de autoridade já foi evaporada e outra ainda permanece. Vagamos entre as ruínas do mundo do magister dixit (o mestre falou) e a primeira colheita do universo isolado do indivíduo como definidor de tudo, inclusive da verdade. 

Liberdade de opinião é base do Estado de Direito. Confunde-se um privilégio da vida democrática com um reforço da validade. Em outras palavras, eu posso dizer, mas o direito não torna o que eu digo verdadeiro. “Uma vaca pode voar.” Pronto, eu disse. Posso fazê-lo! Mas não torna o enunciado uma verdade apenas por ter sido dito. Parte da ambiguidade do nosso mundo está já na primeira frase que escrevi: equiparo todos os que têm acesso ao público. Tocqueville havia previsto isso muitos anos antes do que estamos vivendo. 

Estar exposto implica críticas. A partir da subjetividade da minha experiência, em especial no momento de polarização que vivemos, queria tentar pensar nos tipos mais comuns de críticos que tenho encontrado.

O primeiro tipo de crítico é o Comissário do Povo. Representa o interesse dos oprimidos e existe a partir de uma chave de esquerda. Tudo o que você diz está errado porque não favorece o mendigo de rua ou o retirante do sertão árido. Platão? Bach? Não! A verdade está nos indivíduos oprimidos. O Comissário do Povo também está distante do oprimido, não obstante, por mecanismos complexos, supõe representá-lo. E, por dizer que representa o povo, ele crê de fato nisso.

O segundo tipo de crítico é o representante conservador por excelência: o homem de bem. Ele personifica a ordem, a família patrilinear, a religião, o trabalho, o esforço meritocrático e o estudo árduo. Toda defesa de democratização que arranhe seus valores descritos nas linhas anteriores é coisa de comunista e vagabundo. Você critica desigualdade de renda? Ele berra: vá para Cuba! Penalizado com o menor infrator? Leve-o para casa! Direitos humanos só para humanos direitos, repete o ser. Estes são slogans tradicionais da tribo do bem. 

O terceiro tipo eu chamo, por motivos pessoais, de Gauleiter. Na Alemanha antiga, era o administrador local. Ele tem seu próprio mundo, porém gostaria de brilhar em Berlim. É tomado pelo ressentimento. Ressalta , ironicamente, que não tem os títulos ou a experiência que você possui. Anseia pela influência, posta compulsivamente, lê tudo o que você escreve ou diz, acompanha-o como alguém fixado em telenovela. É um admirador de vetor trocado. Sendo opaco, almeja o brilho que ele imagina alheio. É um apaixonado que odeia. É a raposa da fábula: o que não consegue alcançar está verde. O Gauleiter é uma fronteira um pouco menos definida e pode estar diluído no primeiro e no segundo grupo de críticos. 

O quarto tipo é um ourives capacitado. Também pode se diluir nos anteriores. Ele leu seu livro e, na página 326, encontrou um advérbio não emoldurado por vírgulas. Uma vez, numa palestra, você usou a expressão lagoa e ele, com razão, lembra que se trata, pela formação, de uma laguna. Ele busca cacos e, quando os encontra, invalida tudo. Extremamente meticuloso, por vezes bem formado, sua vida é encontrar defeitos em obra alheia. Seriam excelentes revisores de texto, capatazes de obras ou inspetores de qualidade. Num grupo de amigos, quando todos elogiam um romance de um autor consagrado, ele sorri, triunfante: vocês não sabem! Ele disse que Washington Luiz era político paulista, todavia ele nasceu em Macaé, no Rio! Pronto, o romance não existe, a qualidade despencou e o grão de areia do ourives parece superior à montanha do literato. Nada edifica; tudo ataca. 

Entro no último tipo de crítico. Na verdade é único tipo digno do nome. Ele identifica incongruências, erros, deslizes e escreve sobre eles. Sua crítica apresenta poucos adjetivos, é analítica, não mostra passionalidade e salta aos olhos que o amor à verdade é seu guia. Ele não insulta, não idolatra e não berra, não usa letras maiúsculas o tempo todo e não inventa apelidos ou bosteja palavrões. É tranquilo e não se considera um cruzado de esquerda, paladino do bem ou dominado pela inveja e pelo detalhismo. Tudo o que ele indica acende luzes em você e, no fundo, colabora enormemente para seu crescimento. Pode arranhar seu narciso, mas esse é um problema seu. 

O bom crítico não fala em nome de ninguém, não usa slogans, apenas faz o exercício da inteligência que estimula o campo das ideias e das práticas. Ele existe em bancas de doutorado, em textos de jornal, na internet, em cartas, em conversas pessoais. Ele primeiro entende o que você disse, lê e escuta de fato e, depois, corrige. A simpatia ou delicadeza são interessantes, entretanto ele pode ser mais duro também e continua sendo um bom crítico. Entre mim e ele não estão as classes subalternas, os homens de bem, a dor pessoal ou a obsessão pela areia, contudo a busca ética da correção e da verdade. 

Importante: a democracia implica reconhecer o direito de criticar. Com o tempo se aprende a identificar rapidamente os tipos e não precisamos prosseguir: você já sabe o que será dito após duas ou três frases. Também já errei criticando mal e já errei dando atenção aos quatro primeiros grupos. Já toquei tambor para maluco ressentido dançar. Já fiz ataques que podem estar nos quatro primeiros tipos. Aprendi muito, em parte auxiliado por bons representantes do último grupo. Bom domingo a todos vocês. 

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