A arte da palavra como elogio do real

O escrutínio erudito do crítico e professor Alfredo Bosi conduz o leitor em seu 'Entre a Literatura e a História'

RODRIGO PETRONIO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2013 | 02h13

Uma das vertentes clássicas da interpretação literária baseia-se em três matrizes: construir, expressar, representar. A primeira é a dimensão formal da arte, entendida como produto de artifícios. A segunda vincula esta construção à esfera reflexivo-existencial daquele que a construiu. A terceira é reflexiva, determina como cada autor problematiza a realidade e incorpora à obra as tensões sociais de seu tempo. Em outras palavras: revela as contradições da história. A articulação dessas três dimensões define o que o crítico austríaco Leo Spitzer chama de "círculo hermenêutico".

A partir dessa triangulação, podemos compreender todo o trabalho de Alfredo Bosi, para quem a abordagem de Spitzer sempre foi tão cara. Crítico literário, professor emérito da Universidade de São Paulo e teórico das ciências humanas, Bosi chama essa síntese tripartite de "dialética interdimensional". E, não por acaso, chega a defini-la como um método. Entre a hermenêutica e a dialética, adicionemos um conceito: ideologia.

Temos aqui, enfim, as linhas-mestras que orientam seu trabalho intelectual. E elas são uma espécie de fio condutor dos ensaios de sua nova obra, Entre a Literatura e a História, que a Editora 34 acaba de lançar. Os ensaios estão divididos em seções: Crítica Literária (Poesia e Ficção), Poesia e Pensamento, História Literária, Ideologias e Contraideologias, Intervenções, Entrevistas, O Caminho Percorrido. Fecha com um prefácio a Luis Lavelle no Extraprograma.

A leitura começa pela relação entre João Cabral e Miró, passa por Mário de Andrade e Cecilia Meireles, Ferreira Gullar, Graciliano Ramos e chega a Machado de Assis, brilhantemente analisado à luz da dialética interdimensional. A poesia encena as sínteses entre realidade imediata e mediação formal. No romance, forma e expressão estariam mais estreitamente ligadas ao plano reflexivo-representativo. Entretanto, tanto poesia quanto ficção constituem sínteses dinâmicas do real. Seja em sua articulação formal-expressiva, seja em sua esfera existencial-representativa.

Nesse ponto, entra a ideologia. Não como um anteparo usado pelos escritores para mimetizar as relações de poder e de alienação, segundo a teoria marxista clássica do espelhamento. A partir da "dialética negativa" da Escola de Frankfurt, para Bosi as próprias omissões seriam significativas. As feridas sociais ausentes da obra não são vestígios não significantes. Os autores, ao ocultar suas intenções, revelam as interdições que os levaram a ocultá-las. O silêncio fala. A lacuna significa. A omissão é expressiva. A recusa é a forma por excelência de tomada de consciência do artista. E é o único meio de neutralizar as contraideologias, ou seja, os discursos que procuram negar a raiz política profunda da forma.

Bosi também se vale das nuances entre forma e expressão, no sentido de Croce, um de seus mestres. Assim, capta as sutilezas entre poesia e pensamento presentes nos gênios Vico e Leopardi. O primeiro propõe o primado da figuração metonímica-metafórica para definir a lógica mitopoética dos povos antigos. O segundo enaltece o paganismo grego, revivendo-o paradoxalmente como angústia e finitude. Em ambos, a arte faculta acesso às camadas mais profundas da realidade. Mas o faz de modo indireto, por meio de elipses estruturais.

Esse procedimento também é bastante eficaz nos ensaios sobre a formação ideológica brasileira, bem como na análise dos conflitos entre liberalismo e democracia social. O escrutínio erudito conduz o leitor aos meandros das sínteses concretas que dotam as ideias de corpo, sem ignorar que toda superação preserva em si aquilo que supera, como intuiu Hegel. Surge o claro-escuro ambivalente entre modernização e conservação.

Entretanto, é nessa seção que a obra apresenta algumas fraquezas. Alguns juízos de valor ligeiros quebram o rigor do tratamento geral. A distinção entre ideologia e teoria deixa muito a desejar. Basta pensarmos na tese de Adorno sobre o caráter essencialmente ideológico da ciência para entendermos que toda atividade intelectual é uma usina de ideologia. A despeito de sua positividade de intenção, os saberes metateóricos das ciências humanas não estão imunes à ideologia.

Mesmo nas argumentações intrincadas, nunca perdemos de vista o leitor amoroso, envolvido com seu objeto. Esse é um dos maiores ensinamentos de Bosi. E é especialmente visível quando compartilha com o leitor a sua filiação espiritual: Croce, Vico, Leopardi; o marxismo renovado; a grande tradição da hermenêutica (Spitzer, Vossler, Curtius, Auerbach); a estilística espanhola, sobretudo Dámaso Alonso. Não apenas os lê. Assimila de modo criativo essa herança.

Nesses termos, Bosi se situa na linhagem da crítica universalista, ao lado de Augusto Meyer e José Verissimo. E une-se por afinidade eletiva ao maior crítico da história do Brasil, do qual Bosi tornou-se um defensor: Otto Maria Carpeaux. A síntese que faz de sua obra em uma das entrevistas, mais do que admirável, é comovente. Indica, em termos dialéticos, não apenas a grandeza de ambos no nível das ideias. Mas a generosidade de Bosi no plano da realidade.

RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR. PROFESSOR DA FAAP, DO MIS E DA CASA DO SABER. AUTOR, ORGANIZADOR E EDITOR DE DEZENAS DE OBRAS. TEM DOIS MESTRADOS, EM FILOSOFIA DA RELIGIÃO (PUC-SP) E NA INTERFACE ENTRE FILOSOFIA E TEORIA DA LITERATURA (UERJ).

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