A arte construída em forma de cidades

Ana Mazzei oferece olhares múltiplos a um mundo que é 'palco de encenações'

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2014 | 02h11

Na Galeria Jaqueline Martins, onde a artista Ana Mazzei, de 34 anos, faz sua primeira exposição individual em São Paulo, a instalação Cidadela é uma composição com peças escultóricas (a maioria delas, pequeninas) feitas de madeira e borracha vulcanizada, abrigadas sobre o chão. É uma obra para ser vista de cima para baixo, pelo olhar de plongée, ou de mergulho, como o de um pássaro sobrevoando a paisagem.

Há algo de mágico - e simples - nessa descrição, e a menção às aves, "seres aéreos", para falar deste trabalho da paulistana não é fortuita - vem do próprio título que ela escolheu para sua mostra, Se Disser Que Fui Pássaro. Entretanto, aos poucos, as camadas das criações de Ana Mazzei vão se apresentando para o espectador.

Sua pesquisa, afinal, congrega dois campos - de um lado, a questão do olhar - ou, especificamente, o questionamento sobre pontos de vista -; e de outro, a ideia de que o mundo é palco de encenações. "Descobri que théatron, do grego, não significa teatro, quer dizer lugar de onde se vê", diz a artista, concatenando as raízes conceituais de sua produção. A construção de sua Cidadela é assim considerada uma espécie de atuação e o mezanino da galeria, uma arena. Reforçando esse mote, o vídeo Manto, na entrada da mostra, projeta sobre um pedaço de feltro suspenso a imagem de uma cortina de um palco cerrada, esvoaçando e acompanhada de vozes conversando ao fundo. Esses motivos estão relacionados à ideia de criação de um teatro misterioso.

Bacharel em artes plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e mestre em poéticas visuais pela Unicamp, Ana Mazzei acaba de retornar de uma residência artística em Paris, ocorrida entre agosto de 2013 e janeiro de 2014. Curiosamente, foi na cidade francesa que ela fez seu "début", como diz, ao realizar exposições de destaque no espaço La Maudite (administrado pelos brasileiros Wagner Morales, Beatriz Toledo e Camila Bechelany) e na Galeria Emmanuel Hervé, que também a representa.

Agora, de volta a São Paulo e vivendo um momento de amadurecimento de sua produção, ela mesma afirma, já tem programado para o próximo semestre participações no Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo, em novembro, e na mostra Anual da Faap, no fim do ano, na qual comparecerá como artista convidada. Suas criações também têm sido destaque de feiras de arte, como, recentemente, na Frieze de Nova York, conta a galerista Jaqueline Martins. E, em junho, as obras da artista viajam para Basel, na Suíça.

Fotografia. Construções com diminutas peças escultóricas têm sido, ultimamente, uma marca dos trabalhos de Ana Mazzei. Na instalação Et Nous, Nous Marchons Inconnus (2014), exibida na França, formas cinzas, feitas de cimento, apresentam-se como uma paisagem urbana fluida de elementos escorrendo da parede para o chão. Já outra obra, Ghost Bricks (2013) é como a representação das ruínas de uma civilização antiga, dourada. Nesses dois casos, assim como em Cidadela, exposta agora em São Paulo, o espectador visualiza essas criações da artista de cima para baixo, como se estivesse à frente de maquetes construídas.

Ana Mazzei considera que toda a questão do olhar em suas obras vem de sua experiência como fotógrafa, desde muito cedo. Ela afirma que iniciou, aos 18 anos, um estágio como fotojornalista de uma revista, com uma atuação eclética. Entretanto, na mais emblemática cobertura jornalística de sua carreira, ela conta que se tornou refém durante uma rebelião no extinto presídio do Carandiru, em 2001. "Quando saí de lá, resolvi me dedicar à arte e usar a fotografia como técnica e não como meio de vida", afirma. Na faculdade, decidiu usar seu numeroso arquivo de imagens para criar pinturas e gravuras nas quais tinha como método isolar as figuras das paisagens.

Mais adiante, Ana Mazzei interessou-se por olhar as "ruínas das cidades". "Olhando as partes que são esquecidas, pedaços de ponte, restos de lugares que foram abandonados, comecei a fotografar esses espaços sempre pedindo que alguém posasse neles", descreve. Foi um pulo para que chegasse à questão do ponto de vista ou do ato de definir o que se vê "pelo enquadramento". Até o teatro, tão importante na pesquisa da criadora, veio da reflexão sobre o que ocorre "entre o observador e o observado".

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