A arte completa de Tereza

Contrabaixista, cantora e compositora, Esperanza Spalding lança o excepcional Chamber Music Society

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

Projetos musicais crossover em geral soam postiços; refletem, muitas vezes, espertezas dos marqueteiros mais do que tendências naturais do artista. Não é o caso, em definitivo, da excepcional contrabaixista, cantora e compositora Esperanza Spalding, que está lançando no mercado internacional seu CD Chamber Music Society pelo selo Concord. Ela venceu nos domínios do jazz, mas bem poderia ter se destacado como instrumentista clássica. Música para ela não tem rótulo nenhum. Desde pequenininha.

Entre o violino, aos 5 anos, e o contrabaixo aos 15, Esperanza frequentou em sala de aula praticamente toda a família das cordas em sua cidade natal Portland, no Estado do Oregon, nos Estados Unidos. Foram dez anos de aprendizado e prática diária na Chamber Music Society de Portland, uma orquestra comunitária tipo Guri. Talento reconhecido, mudou-se para Boston, onde se formou na Berklee School, o berço de dez entre dez músicos de jazz; aos 20, foi a mais jovem professora na história da escola.

Conexão latina. É curiosa sua ligação tão forte com as culturas latinas, algo que transborda de sua música. Afinal, o Oregon fica a noroeste dos EUA, distante do Sul, este, sim, já completamente contaminado pelos cucarachas. A música brasileira é a joia dessa coroa. Esperanza é fanática e muito amiga de Milton Nascimento. Por isso mesmo, o gênio mineiro marca ponto neste seu segundo CD (Milton também participou do primeiro, de 2008). Agora, faz um delicado dueto com ela em Apple Blossom.

Chamber Music Society não é apenas um jeito de rememorar seus anos de formação em Portland. É um modo de fundir duas tradições - a do jazz e a da música de câmara -, ambas nascidas sob o signo da diversão e do descompromisso. Não foi à toa que Goethe chamou o quarteto de cordas de "uma conversa a quatro". Música de câmara é isso: intimidade entre os músicos. E isso ela esbanja com incrível talento neste disco. A formação é híbrida: violino-viola-violoncelo (e seu contrabaixo classicamente tocado com arco), de um lado; e, de outro, piano-percussão-guitarra (numa só faixa, Apple Blossom) e contrabaixo (jazzisticamente dedilhado).

Intimidade é o nome desta gravação de exceção. Esperanza faz música no mais puro espírito camerístico. Basta embasbacar-se com o arranjo originalíssimo dela para Inútil Paisagem, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira. As delicadíssimas vozes de Esperanza e Gretchen Parlato tecem finos contrapontos apoiados apenas em pontuadas notas no contrabaixo e uma percussão quase imperceptível. Verdade que a letra desesperançada é deixada de lado, acentuando-se só o suingue característico do balanço de Jobim - mas é daqueles lances raros na música popular.

Parceria. Aos 25 anos, Esperanza quer ser avaliada mais como compositora do que como cantora ou contrabaixista (dois atributos sensacionais, reconheça-se). Ela assina uma ambiciosa parceria com o poeta William Blake em Little Fly. Entoa a bela melodia acompanhada só pelo trio de cordas, ou melhor, quarteto, já que se inclui também seu contrabaixo - é praticamente um lied do século 21, que um Schubert ou um Schumann não se envergonhariam de assinar. Em Knowledge of Good and Evil, piano e bateria adentram, discretos, a cena, para em Really Very Small Esperanza assumir sua porção Milton também como compositora.

Depois de Esperanza, de 2008 (lançado no Brasil), um belo cartão de visitas, Esperanza fez shows pelo mundo em 2009: tocou contrabaixo em Traição, faixa do CD Nove de Ana Carolina, e também é destaque no quinteto no quinteto do saxofonista Joe Lovano em Folk Art (Blue Note). Mas 2010 marca um salto em sua carreira: este Chamber Music Sociey é trabalho pleno, maduro, de uma artista completa. E dizer que ela só tem 25 aninhos!

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