A arte acampa na fronteira

Na sua 4ª edição, inSite afirma-se como um dos mais importantes projetos artísticos para o espaço urbano realizados hoje no mundo. Artistas internacionais são convidados para desenvolver, ao longo de vários meses de trabalho, proposições para as mais diferentes situações nas cidades de San Diego (EUA) e Tijuana (México). Situadas em lados opostos da fronteira que divide os dois países, essas cidades na verdade constituem uma única, complexa, dinâmica e conflitiva mancha urbana. Enquanto San Diego é um pólo da nova economia do sul da Califórnia, com seus canteiros navais, indústrias de informática, autopistas e campos de golfe onde antes era deserto, Tijuana é densamente povoada, com ruas estreitas, camelôs e frituras. Entre elas, uma cerca que corta toda a paisagem, até mergulhar no mar. Um muro agora reforçado com chapas metálicas, antes usadas na Guerra do Golfo. De um lado, favelas se esparramam até praticamente encostarem na cerca. De outro, uma grande faixa de terreno, uma terra-de-ninguém, para facilitar a detecção do imigrantes ilegais. Mas a instalação, em função do Nafta (Acordo de Livre Comércio), das "maquiladoras" - montadoras de bens de consumo duráveis para o mercado americano - vem mudando por completo o perfil da região. Tijuana, ao abrigar esse novo parque industrial, passou a atrair intensa migração interna, convertendo-se na cidade que mais cresce na América Latina. Uma dinâmica que está alterando a configuração espaço-social da região, inclusive seu elemento mais constitutivo: a fronteira. Fluxos - A fronteira, num mundo crescentemente integrado, tende a assumir outros papéis e a ser compreendida de outro modo. O extraordinário crescimento econômico e populacional da região, englobando tanto o sudeste americano quanto o norte do México, converteu a fronteira num dispositivo infraestrutural, na base da reestruturação de todo aquele território. Na verdade, ela opera como um sistema regional de organização dos fluxos produtivos e populacionais. A barreira não está mais no limite, mas no meio. Tal como a muralha, na definição de Deleuze, ela serve para estabelecer o posicionamento estratégico das diferentes forças e conduzir seu deslocamento. Ela não visa estancar a passagem de um lado para o outro, mas selecionar, orientar e mesmo intensificar a circulação entre as diferentes áreas deste território ampliado. A fronteira não é um dispositivo defensivo, mas uma máquina de expansão e ocupação do território. Através dela, áreas significativas dos dois países articulam-se numa única e complexa configuração. InSite incorpora parte dessa complexidade. Nesta edição, a curadoria é de Ivo Mesquita, Susan Buck-Morss, Osvaldo Sánchez e Sally Yard. São intelectuais de diferentes procedências e formas de atuação, que fazem do projeto um campo de entrecruzamento, um espaço de experimentação. San Diego e Tijuana constituem uma situação limite, onde novos conceitos e estratégias estéticas têm de ser desenvolvidos. InSite vai então agregar artistas e críticos empenhados em desenvolver um repertório de princípios e procedimentos relativos à arte em espaço urbano. Conceitos - Diferentemente das edições anteriores, este inSite optou por abandonar as práticas convencionais de obras para sítio específico, nas quais a cidade seria usada como uma grande galeria, um palco para intervenções artísticas. Em vez de trabalhar com a organização espacial de lugares particulares, a curadoria preferiu estabelecer linhas conceituais para uma abordagem de uma situação complexa e dinâmica: passagem - tráfico - sintaxe. Desarmar a cartografia histórica, com seus territórios geopolíticos fechados; expor os padrões de tráfico que os mapas rodoviários ocultam, para observar os fluxos permanentes que configuram esse protoplasma urbano; questionar a sintaxe da cidade, para dar lugar a novas articulações culturais. Investigação é o princípio curatorial. Foco no processo para ir além da idéia de uma exposição, visando resultados mais duradores. "Instalação" e "site-specific" são abandonados em função de uma investigação do espaço público, como objeto a ser explorado e não simplesmente como um lugar para locar obras. Questionar os conceitos que orientaram edições prévias de inSite e projetos internacionais similares, encorajando práticas culturais que transformem o espaço público e modos de trânsito na metrópole transnacional. O projeto reforça o redirecionamento para intervenções mais teóricas sobre arte e urbanismo, os trabalhos sendo apresentados de modo mais abstrato, como resposta a forças globais. Uma tentativa de ampliar o espectro da percepção dos fenômenos sociais e urbanos. Como resultado, tem-se projetos muitas vezes baseados em documentação e registro, alguns performáticos ou midiáticos, de pouca presença material e disseminados por toda a área urbana. Não é possível, para quem percorre as duas cidades, perceber visualmente que um evento deste tipo está ocorrendo. O que sem dúvida exige mais do visitante, que passa a depender de informações e visitas guiadas. Mas é um modo de abarcar uma configuração mais ampla e processos (sobretudo culturais) que não são imediatamente dados ao observador. Exemplar de sensibilidade à mudança estrutural da fronteira e aos novos procedimentos implantados por inSite é a proposta do artista mexicano Gustavo Artigas, As Regras do Jogo. Apresentando o jogo como uma maneira de mediar conflitos, o projeto visa a repensar as relações entre as duas comunidades. O artista organizou dois jogos - um de basquete entre dois times americanos, outro de futebol entre duas equipes mexicanas - na mesma quadra, ao mesmo tempo. Uma sobreposição de lógicas incompatíveis, jogadores e torcedores tendo de mentalmente abstrair o outro jogo. Como na nova convivência urbana e cultural entre os dois povos: cada um joga segundo suas regras, sem interferir com o outro. A quadra encostada na fronteira, seqüência do trabalho, usa a cerca como aparato: de diferentes modos, a fronteira é incorporada no espaço da vida cotidiana. A dupla brasileiro-suíça Maurício Dias e Walter Riedweg também construiu os dois lados da história. São duas cabines de projeção de vídeo, localizadas exatamente na passagem da fronteira. Numa delas, os policiais americanos relatam suas relações afetivas com seus cachorros. Na outra, cenas de perseguição aos imigrantes ilegais mexicanos. Um registro surpreendentemente sutil, que consegue aflorar sentimentos e estórias sem ser diretamente incriminatório, sem configurar vítimas. O relato de um processo amplo e complexo. Já o artista americano Mark Dion construiu, numa área deserta que serve de reserva para patos e base dos helicópteros da patrulha da fronteira, uma `mobile bird unit´. Uma cabana de observação de patos, com instrumental, informações e desenhos sobre as aves. O paradoxo é evidente: quem, de fato, está sendo observado? Mas o próprio princípio do ponto de vista é também questionado: a imensa área da fronteira não se dá simplesmente ao escrutínio visual. Jordan Crandall, americano, elaborou o projeto tecnologicamente mais experimental: com o apoio de uma empresa de telefonia, desenvolveu protótipos de aparelhos celulares portáteis capazes de receber transmissões de vídeo de alta definição. Seqüências curtas, feitas com a tecnologia dos equipamentos de vigilância, de voyerismo urbano. Talvez pouco propícias para aparelhos móveis, que seriam melhor explorados se usados para localização e compreensão das situações e ações urbanas. Projeção gigante - Mas é Krysztof Wodiczko que deve trazer o projeto mais significativo. Numa enorme edificação esférica, parte de um centro cultural de Tijuana que abriga cinemas, ele prepara um dispositivo de projeção ao vivo. Um complexo equipamento, acomplado à cabeça de uma pessoa, dotado de câmera, microfones e iluminação, projeta o seu rosto no edifício. Aparece só a boca e o olhos, extremamente ampliados. A pessoa pode se mover, mas a imagem fica fixa, permitindo-lhe interagir com os circundantes. O equipamento está portado por mulheres mexicanas que trabalham nas maquiladoras. Através dele, elas poderão contar suas experiências. A projeção estabelece uma outra relação da arquitetura com a cidade. Faz o prédio, normalmente dedicado às histórias hollywoodianas, contar uma outra história. Originado, em 1992, por galerias que buscavam levar seu público para novos espaços de exposição, inSite foi crescendo em formato e orçamento, transformando-se numa organização binacional. Dirigido por Michael Krichman e Carmen Cuenca, é um projeto colaborativo de instituições públicas e privadas dos EUA e do México. Mas quais são os efeitos institucionais de inSite? Um dos seus resultados mais visíveis é a consolidação de sua estrutura e trabalho organizacional, negociando as condições políticas, institucionais e financeiras para a realização das propostas artísticas individuais. É como um trabalho em si, produzido por diretores, curadores, artistas e produtores, às vezes redirecionado por colaboradores, que seus efeitos são mais evidentes. Todas as dificuldades de realização, como a ainda tímida participação das corporações, devem ser vistas no contexto desta tentativa de formatar um novo modelo institucional para investigação artística e ativação do espaço urbano. InSite pertence a um novo tipo de programa de arte pública, onde artistas desenvolvem novos projetos por um longo período de trabalho, em locais específicos, em interação com comunidades, instituições e corporações. Consolidando o papel, estabelecido em fins dos anos 80, do artista como educador, ativista e colaborador. Um modelo de parcerias, no qual público é co-investigador e as instituições são co-laboratórias. Os princípios de colaboração e laboratório levam o crítico G. Yudice a aproximar inSite das maquiladoras, como dispositivos de produção flexível, enclaves inseridos na rede de fluxos do capital globalizado. Estaria inSite sendo concebido como uma maquiladora artística, com gerentes (curadores) contratados para fixar a agenda da mão-de-obra flexível (artista), que por sua vez produzirá capital cultural a partir da região, público e comunidades? O direcionamento para a cultura, implícito nos princípios de colaboração, processo e comunidade, atinge esferas que são econômicas e socialmente produtivas para as estruturas de poder na nova lógica global-local de acumulação. Evolução - As relações com processos econômico-sociais mais complexos, para além da esfera da cultura, a formação da nova região transnacional, os projetos de desenvolvimento urbano e suas relações com a arte, poderiam ter tido maior enfoque em inSite. Talvez a participação de artistas (e arquitetos) mais voltados para a infraestrutura, para os aspectos estratégicos da dinâmica urbana globalizada, as questões políticas, institucionais e sociais mais gerais, teria permitido isso. Mas a evolução conceitual e organizativa do projeto é evidente e o possível envolvimento de criadores e críticos europeus consolidará inSite no cenário internacional.

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