A arrebatadora Renée Fleming

Soprano eterniza interpretações em recital na Sala São Paulo

O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2012 | 02h08

Uma noite rara, com uma verdadeira diva, a maior de nosso tempo, ali no palco, vestida por Angel Sanchez e usando joias de Ann Ziff para a Ramsen Z, de Nova York, segundo seu perfil oficial. Uma troca de vestidos com direito a um vermelho-sangue na segunda parte, o cabelo preso; em suma, vestida para matar. E o charme... que charme incrível possui Renée Fleming, no esplendor de seus 53 anos e de uma voz tão preciosa e rara quanto suas joias. Ambas irradiaram um brilho e uma luz intensa, que deixou o público da Sala São Paulo literalmente subjugado, a seus pés. No final, O mio babbino caro, um dos maiores hits líricos de todos os tempos, assinado por Puccini.

Esta bem pode ser a descrição de um fã que a fotografou, entre dezenas de outros, com o celular, provavelmente hoje já postada nas redes sociais. Ele estava lá, ele viu a diva de perto. Repertório? Ah, ela cantou Verdi, Leoncavallo... mas o quente mesmo foram os extras: Summertime, de Gershwin, e Azulão, de Jayme Ovalle.

Tudo isso é verdadeiro. Mas o recital de la Fleming em São Paulo foi bem mais do que isso. Foi de uma musicalidade única, além de uma versatilidade a toda prova. O timbre cristalino e camaleônico, capaz de se transfigurar conforme o gênero e o compositor; a afinação perfeita, a construção das frases com total domínio da dinâmica - é isso que faz dela a maior das divas atuais. Nas primeiras seis canções à francesa, a extrema delicadeza de emissão de voz e inflexões sutis em Il pleure dans mon coeur das Ariettes Oubliées de Debussy contrastou com a vertiginosa e espevitada Malurous qu'o uno fenno dos Chants d'Auvergne de Canteloube (existe uma outra versão desta canção folclórica nas Folk Songs de Luciano Berio que vale a pena conhecer). Mas provavelmente muitos leitores de 50 Tons de Cinza reconheceram apenas Baïlèro, da primeira das canções de Auvergne, porque ela é citada no romance chic erótico best-seller da saison atual, must da alta roda.

Fantástica em Marietta's Lied, da ópera Die Tote Stat, do austríaco Korngold, la Fleming elevou aos poucos o clima, construindo clímax em cima de clímax. Insuperável em três canções de Richard Strauss, o derradeiro grande compositor de lieder. Memorável na Serenata (com um piano corretamente diáfano do ótimo Gerald Martin Moore) e em Morgen. Mas ainda havia um Verdi de arrepiar, o de Otello e a premonitória cena que abre o quarto ato, em que Desdêmona, sem saber por que temendo por sua sorte, reza uma ave-maria. Este, sem dúvida, foi o momento máximo, de que todos os presentes jamais se esquecerão.

Duas árias da Bohème de Leoncavallo e Io son l'umile ancella da Adriana Lecouvreur, por mais interessantes que sejam, não fizeram esquecer o impactante Verdi. Depois, foi tudo festa, com vários extras, entre eles os citados Summertime, com direito a inflexões tipicamente blueseiras na voz; e um Azulão apenas correto.

Crítica: João Marcos Coelho

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