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A arquitetura da memória

O cineasta Gustavo Rosa de Moura conversa com o 'tema' de seu documentário, Cildo Meireles

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2010 | 00h00

Foram quatro anos de trabalho. Contribuíram para dar a Cildo, o documentário de Gustavo Moura sobre Cildo Meireles, uma identidade própria. O artista elogia a velocidade particular do filme, "muito expressiva e bonita", bem de acordo com sua obra. O cineasta estreante no longa comemora a passagem da arquitetura para o cinema, mídia que há tempos o seduzia e apaixonava e, na qual, já se exercitava. Ambos. o retratado e o retratista, celebram o que ficou de mais forte da experiência - uma grande amizade. Confira na conversa abaixo, mediada pelo Estado.

Como surgiu o projeto do documentário?

Gustavo Moura: Eu procurava um tema e o Cildo veio a calhar. Estudei arquitetura e já vinha fazendo cinema, mas só agora, depois desse filme, posso dizer que sou cineasta. A obra de Cildo tem coisas que me estimulam e fascinam. O espaço, a memória, a lembrança. Há uma frase dele, "memória é aquilo que a gente perde quando mais precisa dela", que mexe muito comigo. E o espaço é fundamental na arquitetura. O Cildo e sua obra me permitiram fazer a passagem de uma expressão para outra.

Cildo Meireles: Fui contactado pela produção em 2005, quando havia uma exposição de desenhos meus no Rio. O tempo conspirou a nosso favor e a favor do filme. O Gustavo pôde gravar horas de entrevistas, me acompanhou em exposições. E eu acho que tudo isso consolidou o tipo de filme autoral que ele queria fazer.

Moura: Pude explorar seu pavilhão em Inhotim e filmá-lo em Londres, o que foi muito importante. Meu objetivo nunca foi fazer um documentário didático sobre o Cildo. É muito mais uma leitura minha, autoral, da obra dele. Cildo foi muito generoso. Não estabeleceu limites, foi cooperativo.

O uso do documentário de Wilson Coutinho, Cildo Meireles, dos anos 1970, é muito bacana. Como surgiu?

Moura: Quando comecei a pesquisar, em busca de material sobre o Cildo, iniciei um trabalho de eliminação. Aquilo que eu sabia que não ia ter no filme, que não queria mostrar. O documentário do Coutinho me fascinou. Cildo ainda estava em princípio de carreira, mas o trabalho do Coutinho é muito revelador do artista e da obra, da sua dimensão política. É natural. Eram os anos da ditadura e o Cildo afrontava a repressão com suas provocações. Incorporei cenas porque me permitiam captar um clima de época e traduzem muito bem o que ele fazia.

O som é muito importante - na obra do Cildo como no filme. Como foi estabelecida a pesquisa sonora?

Moura: A ideia do filme é espelhar o Cildo e o som atravessa a obra dele. Desde o começo, com Sal sem Carne e, depois, com Liverbeatlespool, que fez para a Bienal de Liverpool, o som é sempre indissociável na obra do Cildo e o documentário tinha de expressar isso.

Cildo: Um dos méritos do filme, para mim, foi me ter feito refletir sobre minha obra. Não que eu não fizesse isso, mas o trabalho do Gustavo (Moura) me deu uma nova percepção de mim mesmo. Foi muito importante. Essa coisa do som me acompanha, mas acho que, nas instalações, mais do que nas pesquisas sonoras, ele acrescenta dramaticidade. Sinto isso. O som do vidro quebrado em Através, o uso das diferentes estações de rádio em Babel.

O rádio é essencial. Você foi sempre atraído pela emissão radiofônica de Guerra dos Mundos, por Orson Welles. não? A propósito, viu os dois filmes baseados em H.G. Wells, o de Byron Haskin, nos anos 1950, e o de Steven Spielberg, nos 2000?

Cildo: Não, não vi nenhum dos dois, mas o Guerra dos Mundos do rádio, do Welles, sempre me fascinou. Já conhecia a emissão de ouvir falar, mas foi só nos EUA, nos anos 1970, que realmente tive acesso ao material e aquilo me fascinou.

Moura: Uso um trecho de Guerra dos Mundos na trilha de Cildo. A ideia era potencializar, nessa trilha, o aspecto audiovisual, o que imagem e som agregam um ao outro. Uso pouquíssimo a voz em off do Cildo e quase não há trilha musical, só um trecho do John Cage que acho que casa bem com as intenções do Cildo e com o que está sendo mostrado ali na tela.

O documentário satisfaz aos dois?

Moura: Para mim foi uma grande experiência artística e humana, conviver com um grande artista, um sábio que não fica tentando impor suas visão.

Cildo: O filme me fez reavaliar coisas importantes. E me trouxe um amigo: Gustavo é bacana.

Trailer. Veja trechos do filme Cildo no site abaixo

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