A arquiteta e urbanista Regina Meyer

Regina Meyer escolheu um campo vasto para construir sua carreira: o espaço público. Professora de História do Urbanismo na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Regina trabalha em projetos de planejamento e recuperação de regiões da cidade principalmente a partir do início dos anos 80, quando foi diretora do Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo (DPH).Em 1985, ela encabeçou a empreitada que ficou conhecida como Luz Cultural, um projeto de mudança na utilização do bairro da Luz, que defendia o desenvolvimento do potencial cultural dos edifícios do lugar, detectado por Regina naquela época."Foi um projeto que teve grande repercussão como ideário, mas que não se concretizou naquele momento", comenta a arquiteta. "Mas lançou sementes e hoje temos muito desse ideário realizado de fato, como é o caso da Estação Júlio Prestes - e a Sala São Paulo - e a Pinacoteca do Estado."No começo da década de 90, seu trabalho serviu de base para o desenvolvimento das primeiras propostas da Associação Viva o Centro que, desde então, opera na reestruturação da região central da cidade. "Era um tempo em que, apesar do enorme potencial, a vitalidade da região estava completamente desacreditada", recorda. "Brigamos muito pela devolução da Galeria Prestes Maia à cidade na época. É algo que só se concretizou agora, com a criação do Masp Centro", continua. "Mas meu papel foi temporário. Ajudei a associação, que no início apresentava idéias um tanto desconexas, a organizar as metas. Mas hoje já não estou mais ligada à associação."Apesar do afastamento do grupo, a arquiteta, uma das integrantes da comitiva brasileira na 2.ª Conferência das Nações Unidas sobre os Assentamentos Urbanos, a Habitat 2, afirma que a região central continua sendo uma grande preocupação sua. "Uma de minhas batalhas, hoje, é levar o poder municipal e o estadual para a região central da cidade - o que faz muito mais sentido do que manter o poder público no Morumbi."O conhecimento crítico dos pontos nevrálgicos do desenvolvimento urbano da cidade de São Paulo rendeu à arquiteta única do ramo indicada para o Prêmio Multicultural 2001 Estadão Cultura, uma série de consultorias em programas de naturezas diferentes, mas que tratam da metrópole paulista, como a megaexposição Arte/Cidade. "Minha união com Arte/Cidade foi extremamente interessante. Pude aprender muito e também transmitir muita coisa para eles, isso porque temos uma maneira muito parecida de olhar a cidade." Ela se uniu a Nelson Brissac, curador da mostra nos anos 90. Juntos, eles criaram o perfil da exposição, que deve ocorrer ainda este ano, no segundo semestre. Com Brissac, a urbanista articulou um projeto que vai ocupar vários bairros da zona leste paulista com obras em escala urbana (muitas delas, projetadas para interagir com os moradores da região) assinadas por artistas plásticos e arquitetos de várias nacionalidades."Não sou de uma área artística, não trabalho diretamente com criação, mas a arte e a cultura têm uma função importantíssima no momento em que pensamos a cidade", comenta a professora."Hoje, por exemplo, darei uma aula sobre Paris em que começo mostrando exatamente como a arte foi a primeira a perceber algumas coisas a respeito do desenvolvimento daquela malha urbana." Mas a arte não é tratada apenas como coadjuvante na carreira da urbanista. É de sua lavra, por exemplo, a criação da Oficina Três Rios (um dos capítulos do projeto Luz Cultural), que deu origem à Oficina Oswald de Andrade, hoje um dos mais importantes centros incentivadores da pesquisa cultural na cidade, com seus projetos de residência de estudantes em associação a grupos profissionais.Depois de dedicar mais de duas décadas a estudos de problemas regionais da Grande São Paulo, Regina se engajou em um projeto que costura todas eles: o Centro de Estudos da Metrópole (CEM), uma espécie de laboratório de idéias e ações nutrido pela atuação conjunta de instituições e pesquisadores de diferentes setores que se ocupam da totalidade de área conhecida como Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), a metrópole paulista."Hoje, trabalho com urbanismo metropolitano; minha preocupação é, portanto, a reorganização de um território muito maior", afirma a professora da FAU.Máquina articulada - Financiado pela Fapesp, o Centro de Estudos da Metrópole agrega, por exemplo, núcleos de estudos da Escola de Comunicação e Artes (ECA) e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Paulo (FAU-USP) a órgãos como o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e associações como o Serviço Social do Comércio (Sesc) em prol do desenvolvimento de projetos que pensem os 39 municípios que compõem São Paulo como máquinas que devem funcionar de maneira articulada."Nós tínhamos, há até pouco tempo, uma cidade dualizada dividida entre área industrial e área residencial. Agora, tudo funciona em torno de serviços", reflete a urbanista. "O que ocorre é que sobrou uma cidade pobre do período industrial que torna o conjunto desestruturado e, portanto, desinteressante", diagnostica.Regina defende o conceito de metrópole como a agregação permanente de novos espaços dentro de uma região que se urbaniza continuamente. O termo, que surgiu na década de 20, não pode ser confundido com o conceito de megacidade. Uma das funções do Centro de Estudos Metropolitanos é sanar os aspectos da Grande São Paulo que ainda a afastam do ideal de metrópole - um organismo em que a funcionalidade e os serviços tenham a qualidade esperada por sua população e também pelos moradores das outras metrópoles do planeta.

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