A américa suburbana de Sirk

Empenhada em colocar novamente em circulação a obra do cineasta alemão Douglas Sirk (1900- 1987), a Versátil Home Vídeo lança o quarto título da coleção dedicada ao diretor, Desejo Atroz (All I Desire, 1953). O melodrama, gênero no qual Sirk foi insuperável, é, mais uma vez, pretexto para um exame microscópico na vida do subúrbio americano - no caso o de Riverdale, cidade provinciana para a qual retorna a atriz Naomi (Barbara Stanwyck), convidada pela filha mais nova a assistir sua estreia numa peça de colégio. Separada do marido professor, traído por ela dez anos antes, Naomi retorna como se fosse a velha senhora de Dürrenmatt, disposta a se vingar dos maledicentes de Riverdale, mas é obrigada a engolir seu orgulho pela filha mais velha, hostil à presença da mãe.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2010 | 00h00

Desde a primeira tomada, a da atriz num decadente teatro de variedades, Sirk informa o espectador sobre sua dividida personalidade - uma transgressora que deixou a família para finalmente voltar e assumir humildemente sua condição de prisioneira do lar, isso no começo do século passado. A punição pelos anos de deserção familiar parte não só dos membros da família como da própria comunidade. Ninguém em Riverdale parece ter existência individual, e é na figura de Naomi que eles identificam a Geni da hora, aquela cujos passos serão seguidos em busca da próxima derrapada pelos fofoqueiros da cidade.

A estreiteza mental dos norte-americanos dos subúrbios foi um dos temas preferidos de Sirk. Ele levaria futuras gerações de realizadores a investigar a vida da classe média em seus países, do falecido alemão Fassbinder ao francês François Ozon. Sirk, em Tudo o Que o Céu Permite (All That Heaven Allows, 1955), explorou magistralmente os mecanismos de pressão social em pequenas comunidades, ao contar a história de uma viúva rica que se apaixona por seu jardineiro, fazendo de Desejo Atroz sua tomografia suburbana.

O diagnóstico do diretor não é positivo: ao focalizar o drama de uma mulher liberada em confronto com a claustrofóbica atmosfera familiar de Riverdale, Sirk mostra Naomi como vítima de uma cilada familiar em que a diversidade sempre é esmagada, de uma maneira ou de outra. Se hoje essa parece uma sentença desafiadora, imagine nos anos 1950, em que a família reinava absoluta no cinema americano. O epílogo de Desejo Atroz, aliás, é a expressão máxima desse poder.

DESEJO ATROZ

(EUA, 1953)

Direção: Douglas Sirk

Lançamento: Versátil, PB

Preço: R$ 36,90

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