A América real no Festival Sundance

Seleção de filmes da mostra que começa hoje reflete um país em frangalhos

BROOKS BARNES , THE NEW YORK TIMES , PARK CITY, UTAH, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2012 | 03h09

Se o Festival de Sundance, que começa hoje, é um espelho da América, a programação deste ano retrata a imagem de um país rasgado, repleto de pessoas desestruturadas. Os documentários selecionados examinam o colapso da indústria, as mazelas do sistema de saúde, a decadência das classes mais pobres, estupros no Exército, o sonho americano transformado em pesadelo e o programa desastroso da guerra do governo contra as drogas.

Por sua vez, as ficções abordam fraudes fiscais, a ganância corporativa, jovens adultos tentando repensar suas vidas, além, claro, do tema predominante em todos os filmes, a sensação de certa decadência moral. "Um país na crise da meia-idade", como definiu Trevor Groth, diretor de programação de Sundance.

Filmes independentes sempre apostaram em temas obscuros: o desejo de contar histórias complicadas que não terminam com todos os personagens sorrindo e celebrando é parte do que deu força ao movimento indie (hoje já quarentão). Mas talvez a uniformidade incomum da programação deste ano seja o reflexo de como os últimos anos têm sido particularmente difíceis, com duas guerras e uma recessão brutal representando apenas a ponta de um iceberg mais profundo. Os organizadores de Sundance, no entanto, entre eles o criador do festival, Robert Redford, têm chamado atenção para outras forças em ação, em especial as novas tecnologias e o ritmo mais rápido de produção de filmes.

Sim, Sundance sempre refletiu sobre a sociedade contemporânea, mas o foco costumava ser mais confuso - ou pelo menos desatualizado - do que as pessoas gostam de admitir. Historicamente, uma vez que os filmes selecionados pelo festival são preparados durante períodos longos, de três a cinco anos, os momentos sobre os quais se debruçavam normalmente já haviam passado. Isso parece estar mudando.

Por conta dos avanços nas filmagens digitais, boa parte dos filmes deste ano foram feitos em menos de um ano - alguns deles, usando novos aparatos e sem ter que se preocupar com a burocracia dos grandes estúdio, ficaram prontos em até cinco meses. "Esta é uma hora crucial para refletirmos de maneira dura e honesta sobre nosso país. Não é segredo para ninguém que estamos no fundo de um poço escuro. E a velocidade com que filmes ficam prontos hoje está ajudando artistas a fazer justamente isso", explica Robert Redford.

Digital. John Cooper, um dos diretores do festival, chama atenção para as ferramentas digitais que permitem um processo de edição mais dinâmico e têm mudado a cara de Sundance. "Depois do 11 de Setembro, alguns anos se passaram até que começássemos a ver filmes que tocavam de alguma forma no tema. Mas, mesmo no começo da recessão, há alguns anos, já pudemos sentir o impacto provocado nos artistas. Do ponto de vista de programação, posso dizer que nunca estivemos tão conectados com o sentimento atual das pessoas."

Tanto Groth quanto Cooper negam haver uma agenda política na programação. Mas não se incomodam com o perfil similar dos filmes. "Produções independentes são importantes, entre outras coisas, justamente por oferecer um olhar diferente sobre a América. Quem somos? As respostas verdadeiras com certeza não estão vindo dos grandes estúdios ou dos canais de televisão", garante Cooper.

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