A América que não interessa aos EUA

Cineasta diz que seu objetivo em Ao Sul da Fronteira é mostrar aos norte-americanos quem são os seus vizinhos

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

 

 

Humanista. Consciência como instrumento de mudança

 

 

 

 

Uma sucessão de equívocos, verdadeira comédia de erros - atraso no voo, falta de visto para entrar no Brasil -, impediu que o cineasta Oliver Stone cumprisse sua agenda na segunda-feira, em São Paulo. Ele deixou o público esperando na Faap. Chegou no fim da sessão de Ao Sul da Fronteira para convidados, conversou rapidamente, jantou e se recolheu ao hotel, para prosseguir com a agenda do dia seguinte, quando se encontraria com Dilma Rousseff em Brasília. Achou-a centrada, séria, mas descartou um documentário sobre a candidata do Partido dos Trabalhadores. "Mal a conheci", explicou. Na quarta, conversando pelo telefone - de Buenos Aires -, Stone se desculpou. A agenda continuava apertada. Na véspera, ele participou da pré-estreia de Ao Sul da Fronteira em Cochabamba, na Bolívia. Na quarta, seria a vez da capital argentina. Oliver Stone tem feito o tour da América do Sul a bordo de um jato privado para promover seu documentário. Quem paga a conta? Ele diz que não há nada de comprometedor nas suas andanças. Não tem o rabo preso com ninguém. Seu filme é pró-Hugo Chávez? "Ridículo", diz Mr. Stone.

Então seu filme não é pró-Chávez?

Isso é tão absurdo quanto dizer que sou de esquerda. Não sou de esquerda nem de direita. Sou um humanista, um observador independente e essa é a pior posição, porque você une todo mundo contra. O filme também não é pró-Chávez. O presidente da Venezuela ocupa metade de Ao Sul da Fronteira porque é o caso emblemático daquilo que estou falando. É um documentário. Foi feito para preencher uma lacuna. O público norte-americano ignora tudo que não seja ele próprio. É um defeito nosso. A história do mundo é a história dos EUA, vista do nosso ponto de vista. Comecei esse documentário porque queria mostrar aos norte-americanos uma vizinhança que lhes era desconhecida. Já tinha a experiência anterior de Salvador. É um de meus filmes de que mais gosto, mas é dos menos conhecidos porque se passa na América Central e isso não interessa ao público americano.

Mas Chávez ocupa a maior parte de seu filme. Lula, por exemplo, é mero coadjuvante. Por quê?

Porque Chávez é o caso exemplar daquilo que quero dizer. O público dos EUA não sabe nada de política externa. Ignora até a interna. As informações chegam principalmente via TV e são distorcidas. Abro Ao Sul da Fronteira com reações de apresentadores de TV dos EUA a Chávez. Eles o ridicularizam. É uma imprensa comprometida, que não cumpre sua função. Desde que mostrei o filme no festival de Veneza do ano passado, e Chávez foi comigo, as críticas a Ao Sul da Fronteira têm sido principalmente ideológicas. A melhor crítica que recebi até agora foi de Roger Ebert, um crítico norte-americano. É a melhor por analisar o filme como cinema, não fica só na discussão política, como as demais abordagens. Em geral, quem critica o filme não o faz na perspectiva de um entendimento da América Latina e do Sul, mas parece alinhado com interesses americanos. Não é o que me interessa. Faço filmes integrados ao sistema de Hollywood, tento fazê-los divertidos, interessantes, mas o que me move não é, nunca foi, o dinheiro. É minha consciência.

Muita gente diz que você é ingênuo, e se presta à manipulação de Chávez. O que pensa disso?

Digam o que disserem, Chávez é um personagem extraordinário. George W. Bush também é. E, embora seja peça central do meu filme, ele não está ali para se promover. Há uma mudança em curso na América Latina. Os presidentes bolivarianos da Venezuela, da Bolívia, da Argentina, do Paraguai, do Brasil, estão se unindo em defesa de seus povos, enfrentando as oligarquias a serviço de interesses internacionais. A imprensa demoniza Chávez, mas, apesar da oposição, ele é amado por seu povo.Você chega à Venezuela e as críticas a Chávez são intensas. Como dizer que é um ditador? A imprensa é que é parcial.

Muito interessante o que você diz sobre Bush. Ajuda a explicar por que você é tão controverso. Pelo menos no exterior, todos esperavam que fosse mais crítico com George W. Bush. Por que não foi?

Porque queria humanizá-lo, exatamente como Chávez no documentário. A demonização leva à parcialidade e não dá nunca a medida de uma pessoa. Mas eu entendo seu ponto de vista. Quando fiz As Duas Torres, atraído pela história daqueles bombeiros e de sua luta pela sobrevivência, fui chamado na Europa de "patriótico". Em W. não fui crítico do jeito que as pessoas queriam. Mas não posso fazer filmes pensando nas reações dos outros.

Mas você usa o ator que fazia Bush, Josh Brolin, para criar o personagem mais corrupto de Wall Street 2. É uma forma de explicitar uma crítica que não tenha ficado clara no filme anterior?

Nãããoooo. Uso Josh porque acho que é um dos grandes atores norte-americanos, e ainda é pouco valorizado. Wall Street tem atores e personagens emblemáticos de duas gerações, o veterano Michael Douglas e o jovem Shia Labeouf. Queria construir um personagem intermediário, para um ator de uma geração intermediária. Josh é excepcional.

Por que fez Wall Street 2? Por que demorou tanto?

Porque o filme não nasceu como uma "sequência". Se tivessem me pedido para fazer uma sequência há 20 anos, eu teria dito não. Mas o mundo mudou e, após a crise de 2008, fazia sentido voltar àquele universo. A cultura da ambição e da cobiça parecia ter chegado ao limite em 1987, mas em 2008 descobrimos que o mundo estava pior. Mesmo assim, não é um filme sobre o sistema financeiro, mas sobre personagens, como Ao Sul da Fronteira não é sobre Chávez e sim, sobre o movimento e a imprensa.

Você não acha que essa militância pode prejudicar seu cinema?

Já disse que não faço filmes para ganhar dinheiro. Quero entender o mundo e me entender. Acompanhando o processo de educação de meus filhos, dei-me conta de que o sistema educacional nos EUA não ensina nossas crianças. Estou empenhado num documentário de dez horas, que espero concluir no ano que vem. É uma visão mais abrangente da história norte-americana. Faço esse filme pensando em meus filhos, no crescimento deles.

Como você se posiciona perante Barack Obama?

Ele tem sido tímido nas mudanças, mas é um bom homem, honesto. O problema é que não bastam boas intenções. O sistema é muito poderoso. O último presidente norte-americano que realmente teve um projeto e queria mudar as coisas foi Kennedy, em 1963. Lá era possível acreditar, sonhar. Mas não perco a esperança. Meu cinema se baseia na consciência como instrumento de mudança.

 

 

 

 

 

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