A América diante da ficção

Para explicar o continente, Rafael Ruiz se vale tanto do Quixote como de Bolívar

O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h09

O ESPELHO DA AMÉRICA:

DE THOMAS MORE A

JORGE LUIS BORGES

Autor: Rafael Ruiz

Editora: EDUFSC

(206 págs., R$ 31)

ALEXANDRE GONÇALVES

N

os últimos anos, alguns autores de livros de história, oriundos do jornalismo, têm frequentado as listas de best sellers: Eduardo Bueno, Laurentino Gomes, Leandro Narloch. Contudo, isso que parece sinalizar uma extraordinária demanda por obras que se valem do passado como matéria-prima nem sempre é algo bem-visto no circuito acadêmico, exatamente porque tal produção não se pauta pela metodologia científica.

Dentro desse panorama, é surpreendente ler o recém-lançado O Espelho da América: de Thomas More a Jorge Luis Borges, do historiador Rafael Ruiz, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ruiz ultrapassa até mesmo a barreira do jornalismo tradicional - vai buscar suas fontes históricas na literatura. Considera a ficção acima de tudo uma ferramenta adequada para se entender os tempos pretéritos. História e literatura são, é claro, narrativas. Por isso, Ruiz não vê motivo para separá-las. As duas, acredita, podem e devem se integrar. Desta forma, em seu livro o leitor se vê frente a frente tanto com Simon Bolívar como com Hamlet, Dom Quixote, Gulliver e Robinson Crusoé.

No decorrer dos capítulos, observa-se com nitidez uma tensão na história do continente - o clássico contra o moderno -, que configurará outra importante relação conflitiva: o europeu em contraposição ao americano. O autor teve o mérito de perceber que tal tensão também se materializa na literatura, em especial quando se utilizam lentes de obras clássicas europeias para julgar a América. Um forte embate de gerações torna-se patente, já não entre pessoas, mas entre tradições. De um lado, a jovem América, cujo futuro é dado apenas pelo presente. Do outro, a Europa, que leva consigo o lastro do passado com sua respectiva estabilidade, mas também imobilidade.

Não é difícil intuir que Ruiz vê graves deficiências no projeto moderno. Entretanto, para ele, a isenção não é apenas desnecessária: é impossível. A pretensão de credibilidade do narrador histórico não se baseia no distanciamento, mas sim na transparência.

E aqui chegamos ao fim do livro, que reserva uma grata surpresa: a bibliografia comentada. O autor narra, em primeira pessoa, a sua trajetória intelectual - os livros que leu, quais aspectos foram decisivos, etc. -, numa prova de que o jogo aberto com o leitor pode construir uma ponte entre acadêmicos e o grande público, aquele mesmo que tem procurado um novo olhar para o passado.

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