A alta cultura, a média, a baixa e a nossa (parte 2)

Não nos enganemos, a Filosofia também tem seu quinhão de autoajuda

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2017 | 02h00

Eu tratei na coluna de domingo passado sobre padrões de cultura e de consumo cultural no mundo contemporâneo. Muitos me enviaram questionamentos sobre a noção de cultura e sobre a utilidade dos produtos culturais. Nada melhor para responder do que buscar um esforço sistemático de pensamento que é a Filosofia.

A Filosofia nasceu perguntando coisas muito práticas como, por exemplo, do que era feito o universo. Posteriormente, Sócrates, a grande personagem de Platão, não se refugiou em uma biblioteca com eruditos, mas conversou com pessoas simples e, por meio de perguntas, despertou as contradições que possibilitavam reposicionamento das ideias dos interlocutores sobre, por exemplo, o que era coragem.

Na Idade Média, a Filosofia limitou-se a poucos centros religiosos e universitários. O analfabetismo quase absoluto restringiu debates. Qual servo da gleba entenderia algo do argumento ontológico de Santo Anselmo? Quantos debateram nas praças a querela dos universais? Poucos, com certeza.

Na Idade Moderna, houve vários tipos de filósofos. Alguns apresentam estilo um pouco mais acessível, como Maquiavel e Montaigne. Outros, como Descartes e Spinoza, usam linguagem e raciocínio um pouco mais técnicos. Os iluministas tinham um sentido de missão que os aproximava da vontade jornalística. Ao usarem romances, Voltaire e Diderot seguiram uma tendência que já aparecera na peça A Mandrágora, de Maquiavel, e que seria presente também na obra A Náusea de Sartre: a literatura era uma forma de veículo. Não é necessário ser um filósofo profissional para ler o Cândido de Voltaire, mas ali está uma crítica ao raciocínio de Leibniz na forma atrativa da ficção.

O mundo contemporâneo é, majoritariamente, o mundo dos filósofos universitários. A obra de Kant como a Crítica da Razão Pura é um tratado denso, cheio de termos técnicos e com um raciocínio vedado aos de fora. Hegel está no mesmo campo. Tive um professor que dizia que, quando Hegel começou a escrever Fenomenologia do Espírito (o livro que levei mais tempo para ler e entender...), só ele e Deus sabiam o que ele queria dizer. Quando Hegel terminou, só ele sabia o significado.

O caminho não é linear. Filósofos continuaram fazendo peças de divulgação como a célebre palestra de Sartre O Existencialismo É Um Humanismo. Emerson, nos EUA, era quase um missionário percorrendo lugares para falar de Filosofia. Porém, a norma da filosofia universitária é o texto de um Heidegger ou de um Adorno. Em muitos sentidos, a Filosofia se fechou para o grande público.

Eu estava na França quando começou o movimento de “Um café para Sócrates”. Era uma tentativa de resgatar algo na chamada maiêutica socrática. Sem formalismos, um professor debatia com donas de casa, trabalhadores e estudantes. Nada de termos como epistemologia, heurística ou apodítico. Era uma conversa simples, ainda que não simplória ou banal.

Luc Ferry e seus livros são uma tentativa de fazer essa ponte. Ao falar de felicidade e vida familiar, muita gente torce o nariz para sua obra. Descobri, ao ler a obra do ex-ministro francês, que os críticos deixavam escapar sua vontade elitista. As grandes ideias não são para as massas. Havia mais demofobia do que oposição a um modelo.

Pensei em três caminhos. Um é o do conhecimento filosófico em meio estritamente universitário. Esse é produzido por e para especialistas. Busca (ou ao menos deveria buscar) expandir os limites do conhecimento, da natureza do que é conhecer e de como conhecemos as coisas. Mesmo que não compreendamos esse conhecimento, é inegável que o mundo precisa cada vez mais de Matemática, Física e Filosofia. Eu posso não entender um acelerador de partículas, mas quem o entende tira dele o futuro do cognoscível. O mesmo para quem lê Giorgio Agamben ou Paul Ricouer.

Um segundo caminho, que vejo como igualmente necessário, é o do construtor de pontes. Esse busca o limite do conhecimento filosófico e tenta, ao mesmo tempo, levar tal conhecimento para quem está abaixo da torre de marfim. Tais arautos levam algumas pedradas por simplificarem e muitas bordoadas se fizerem sucesso.

A terceira via é a chamada autoajuda (conceito porte manteau) e seus conhecimentos práticos para uma vida mais feliz. Esse sempre será um filão de sucesso editorial, mercadológico. As pessoas querem ser felizes, seja tomando um remédio ou lendo um guia de como fazê-lo. Não nos enganemos, a Filosofia também tem seu quinhão de autoajuda. Todo filósofo quer entender melhor como viver bem. Mas isso não significa perseguir a felicidade, o sucesso na carreira ou em ser popular a todo custo. A Filosofia, muitas vezes, mostra-nos como nossa vida pode ser tirânica, despótica, desequilibrada, violenta. Como provocamos dor e buscamos sofrimento. Às vezes, esse espelho do narciso moderno é o oposto do que gostaríamos de ver. Por isso, a autoajuda faz mais sucesso.

Ela não lhe mostrará o quadro de Dorian Gray. Se o fizer, será retórico. Se não for retórico, se o obrigar a pensar, de fato, a ficar em situação incômoda e, portanto, buscar novas bases, sempre provisórias, sobre onde deitar algumas raízes, deixou de ser autoajuda e passou a ser Filosofia. Boa semana para todos nós. 

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