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A alta cultura, a média, a baixa e a nossa

Estariam próximos os fãs de 'Velozes e Furiosos' dos de 'Aguirre, a Cólera dos Deuses'?

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2017 | 03h00

Em 1936, o livro Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas chegou ao mercado e, desde então, 81 anos depois, continua aconselhando multidões. Não foi o primeiro texto de “autoajuda”, obviamente, porém é um marco fundacional. Dale Carnegie (1888-1955) enriqueceu. 

As pessoas que puderam ler o trabalho sabem que é fácil entender o motivo do sucesso. Lançado no momento em que a pior fase da depressão econômica estava começando a ser superada, a obra afirma uma inabalável crença na ação do indivíduo como gestor da sua felicidade. Herança de livros e tendências do período vitoriano pertence a um ciclo que envolve o capitalismo em si e a ideia de empreendedor. Era uma nova fase da sociedade ocidental urbana que tentava integrar a felicidade pessoal ao ideal de êxito financeiro. 

Os conselhos de Carnegie são incontestáveis. Não é um livro de mentiras. Se você guardar o nome de uma pessoa, repetir com clareza, olhar nos olhos, sorrir ao apertar a mão e manifestar-se interessado genuinamente nela, é evidente que os laços estarão mais fortalecidos e a primeira impressão será mais positiva. O ensinamento é prático e bom. 

O mercado só cresceu desde então. O “marketing pessoal” foi ficando sofisticado. O dono de fábrica do século 19, ressentido e ranheta, estava ultrapassado. O século 20 era o século da imagem pública, da propaganda pessoal, da teatralização gestual e afetiva e do controle de si como forma de networking. Marx profetizara que tudo viraria mercadoria e tinha razão. Somos nossa mais preciosa mercadoria. O Facebook é filho espiritual de Carnegie.

Fiz parte da imensa legião de detratores do ramo. Afirmei que a palavra autoajuda existe porque quem escreve ajuda a si. Acusei de rasos os conselhos e de lineares as perspectivas. Torci o nariz. Algumas coisas mudaram na minha percepção nos últimos anos. Continuo desconfiado de fórmulas únicas, porém suponho, hoje, que havia muito da crítica de um ciclista profissional à necessidade de rodinhas laterais de apoio na bicicleta do iniciante. Sempre existe algo de arrogante nos julgamentos das obras gerais ou de divulgação. 

Dei um curso sobre textos de autoajuda e tive oportunidade de ler muitos. Fiz a experiência com alunos de trazer excertos de grandes filósofos com conselhos práticos e bons como Montaigne e Pascal, sem mencionar os autores, e depois misturava com trechos da Bíblia e de autores que estavam entre os mais vendidos do setor. Ao final, como era óbvio supor, a maioria dos alunos tinha dificuldade enorme em distinguir a origem dos textos. As fronteiras ficavam mais diluídas.

O que eu tratei até aqui poderia ser idêntico se eu comparasse o esforço de um grande maestro clássico contemporâneo que persegue sutilezas dodecafônicas-atonais-minimalistas com o celebérrimo André Rieu. Aqui, creio, teremos dois tipos de leitores desta coluna. Um dirá: que coisa é essa de dodecafonismo? Outro, pelo contrário, lançará a dúvida: quem é esse André Rieu? 

Rieu tem formação musical sólida, ao que parece. Ele decidiu divulgar a música clássica. Para seus shows, seleciona trechos de grande apelo como uma valsa romântica vienense ou um pungente arioso do barroco, uma ária emotiva ou um tonitruante coral da Nona de Beethoven. O efeito é completado com roupas bonitas, arranjos específicos e luzes. Ele oferece a música de apelo amplo, melodiosa, sem necessidade de bula. Seria Rieu a autoajuda das orquestras?

Nos casos que estamos exemplificando existiriam dois grupos opostos? Aquele círculo seleto e bem-formado, capaz de trabalhar a ausência de tensão narrativa na Odisseia de Homero em comparação ao trecho do Gênesis do sacrifício de Isaac, guiado pelas mãos geniais de Auerbach? Esse grupo seria o que se oporia perfeitamente a um romance de Paulo Coelho ou a um livro de Dan Brown? Seriam antípodas ou, como querem alguns, apenas atenderiam mercados muito específicos e não se negariam? Em outras palavras, quem se deleita com A Cabana (William Young) não atrapalharia aquele que se dedica a Jerusalém Libertada (Torquato Tasso). Quem vê um filme de iluminação penumbrosa, gestos reduzidos e diálogos longos não retiraria público daquele filme blockbuster de explosões em série. Estariam próximos os fãs de Velozes e Furiosos dos de Aguirre, a Cólera dos Deuses? 

Inicialmente, a questão parece estar colocada em polos: superficialidade x densidade; produto açucarado x produto desafiador; entretenimento x questionamento; passatempo x crescimento; massas x ciclo de iniciados; caça-níqueis x arte elevada; kitsch x refinado e assim por diante. Será mesmo? As questões implicam mais atenção e voltaremos a elas na próxima coluna. Deixo a provocação: sua cultura é alta, média, baixa ou é apenas a sua? Afinal, o que seria cultura? Quem poderia elaborar seu julgamento e sua métrica? Voltarei ao tema. Bom domingo para todos de todas as culturas.

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