A alquimia de Hilal Sami Hilal

A obra de Hilal Sami Hilal, que pode ser vista a partir de amanhã à noite na Galeria Marília Razuk, evoca sentimentos familiares, recria no espectador uma memória ao mesmo tempo atemporal e afetiva. Mais do que bordados ou rendas, os arabescos desse artista capixaba de nome misterioso e sugestivo (que reforça ainda mais a sensação de filiação à estética islâmica de seu trabalho) são resultado de um embate constante com materiais como o algodão, a cola de náilon ou o cobre para, a partir desse confronto, estabelecer uma frágil harmonia.Em sua segunda exposição individual na cidade, Hilal traz 11 obras, subdivididas em três tipos distintos de trabalho, mas em todas elas há uma permanente discussão sobre o vazio e o cheio. É como se o ar fosse o elemento primordial, associando-se à água, ao fogo e à terra (representada pelos metais).Os maiores trabalhos - e mais conhecidos do público - são os de papel, que tanto encantaram o público do Panorama do Museu de Arte Moderna, em 1997. Por ser feitos a partir de pedaços velhos de roupas, toalhas e outros tecidos de algodão doados a Hilal, essas grandes obras de parede são as mais ligadas à questão da memória e têm um tempo de maturação mais lento. O rendado é construído com certo vagar sobre o solo e a obra só se completa com a total evaporação da água usada como base do papel. Em alguns desses trabalhos recentes, nota-se uma dramaticidade nova, uma intensidade maior no desenho. "Os motivos surgem na hora, de acordo com o estado de espírito", explica Hilal, que encontra na música uma de suas maiores inspirações. A culinária é outro campo rico de referências para ele, que compara suas obras feitas de cola de náilon a doces como o mil folhas ou aquelas balas caseiras feitas de açúcar, que tanto encantam as crianças. Neste caso, a necessidade de usar altíssimas temperaturas o obriga a trabalhar velozmente. Se a rapidez impede a criação de uma rica gama de detalhes, esse fato é compensado por uma leveza e transparência impressionantes. Pendurada no centro da galeria, uma dessas obras convida o visitante a conhecê-la por dentro. O último grupo de obras deixa ainda mais evidente o lado experimental de Hilal. Trata-se de pequenas placas de cobre, utilizadas normalmente para fazer circuitos impressos de computador e que, após terem sido desenhadas com uma caneta especial que preserva os lugares riscados, são mergulhadas numa substância corrosiva. A forma final ainda depende de alguns acabamentos como a submissão dessas placas a secadores que chegam a atingir a temperatura de 300º. Utilizando um processo derivado da gravura, o artista cria maravilhosas composições, que mais parecem iluminuras ou partituras musicais.Esquecimento - Apesar de estar completando 47 anos no próximo mês e de ter lecionado por 20 anos da Faculdade Federal do Espírito Santo - onde fundou a cadeira de estudo do papel -, faz apenas três anos que Hilal se dedica integralmente à sua produção artística. Ele não lamenta os anos gastos ensinando. Foi essa experiência que lhe permitiu ter consciência de questões importantes para seu processo individual de criação.Mesmo afirmando que não trabalha no campo das idéias, que sua obra nasce diretamente do embate com os materiais e de gostar desse seu lado alquimista, ele procura identificar com clareza a influência de artistas como Jackson Pollock, e mais precisamente de mestres brasileiros. E vai apontando os ecos de obras como a baba antropofágica de Lygia Clark, os penetráveis de Hélio Oiticica, a experimentação de Antonio Dias ou o estado de espírito de Mira Schendel sobre seu trabalho. "Mira dizia que dentro do ateliê vivia o estado do esquecimento", afirma Hilal, com uma certa admiração. Trata-se de um arguto olhar contemporâneo que só vem se somar à estética milenar e extremamente sedutora de suas mágicas tapeçarias.Hilal Sami Hilal - De segunda a sexta, das 10h30 às 19 horas; sábado, até 13 horas. Galeria Marília Razuk. Avenida 9 de Julho, 5.719, tel. 881-9853. Até 1.º/7.

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